A gente pode sonhar para existir por Márcia Pelá | Crônicas Feministas

A gente pode sonhar para existir | Crônicas Feministas | ACCA
Crônicas Feministas · ACCA
Márcia Cristina Hizim Pelá
Márcia Cristina Hizim Pelá
Doutora em Geografia · Ativista feminista

Crônica: A gente pode sonhar para existir

10 de abril de 2026 · Crônicas Feministas · ACCA
Uma crônica sobre exaustão, ruptura com o sistema e a construção de novos caminhos possíveis para existir.

Há dois anos e meio, eu estava indo trabalhar vomitando.

Não é metáfora. É literal. Quinze anos dando aula, quase vinte dedicados à ciência, à pesquisa, à universidade pública. Doutorado. Pós-doutorado. Artigos, livros, capítulos, orientações, bancas, projetos. Uma vida inteira construída dentro de uma instituição que eu escolhi, em que eu acreditava, e o meu corpo tinha chegado num ponto em que não conseguia mais fingir que estava bem.

A exaustão não pede licença. Ela avisa da forma que pode: pela náusea, pelo peito que aperta antes de sair de casa, pela sensação de que o chão vai ceder a qualquer momento.

Naquele exato momento, eu pedi demissão.

E aí veio o que vem quando a gente toma uma decisão dessas: o vazio. A insegurança. A sensação de que o chão tinha sumido de vez. E o que me surpreendeu foi perceber que esse vazio me pegou mesmo com tudo que eu havia construído. Doutorado, pós-doutorado, quase duas décadas de produção científica, prêmios, publicações, reconhecimento do campo. E ainda assim: e agora? Quem sou eu fora daqui?

Ninguém prepara a gente para isso. A gente é ensinada a construir trajetórias lineares, a seguir carreiras como se fossem trilhos, a acreditar que desviar é fracasso. Para uma mulher pesquisadora, esse peso é duplo: a carreira acadêmica exige que a gente prove o tempo todo que merece estar onde está, que não é acaso, que não é favor. São décadas de esforço para ocupar um lugar que nunca foi pensado para nós. E quando o corpo diz não, quando a vida pede outra direção, a sensação é de que algo deu errado com a gente, não com o sistema.

Mas não deu errado com a gente. Deu errado com o sistema.

O que eu vivia não era uma crise individual. Em 2024, as mulheres representaram quase 64% dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil, segundo o Ministério da Previdência Social. Professoras, pesquisadoras, enfermeiras, assistentes sociais: as categorias mais afetadas pelo esgotamento são majoritariamente femininas. Não é coincidência. É a conta que se paga quando se trabalha em jornada tripla, recebe em média 21% menos que os homens na mesma função, e ainda precisa demonstrar, a cada publicação, a cada banca, a cada reunião de departamento, que merece o lugar que já conquistou. A médica do trabalho Ana Paula Teixeira diz que a desigualdade de gênero no Brasil não é apenas um número no contracheque: é um fator de risco epidemiológico. O esgotamento que atinge as mulheres não vem de fraqueza. Vem de uma estrutura que distribui mal o trabalho, o reconhecimento e o descanso.

Eu sabia disso na teoria. Quase vinte anos pesquisando, escrevendo, ensinando. E mesmo assim, quando o corpo falou, demorei para escutar. Porque a gente foi ensinada a aguentar. Porque pedir demissão, depois de tanto investimento, parece desperdício. Porque existe uma voz que diz: você não pode largar, você tem responsabilidade, você construiu isso.

Mas eu larguei. E foi depois de muito pensar que retomamos a ACCA. E foi nesse retorno que eu comecei a ver que era possível, depois dos 50, construir outra trajetória. Não uma trajetória de consolação, não um plano B. Um caminho inteiro, com escolhas, com sentido, com vontade.

Não estou falando de algo fácil. O etarismo existe e pesa: pesquisa do Coletivo 45+ mostra que 64% das mulheres nessa faixa etária relatam dificuldade para serem contratadas ou aprovadas em processos seletivos. Quando a autoestima já foi consumida pelo esgotamento, essa barreira se torna ainda mais pesada. E ainda assim, dados do IBGE indicam que a participação de mulheres acima dos 50 anos no mercado de trabalho cresceu 15% na última década, muitas delas construindo caminhos próprios, fora das estruturas que as adoeceram.

Esse é um dado que me interessa. Não como estatística motivacional, mas como evidência de que a autonomia não é devaneio: ela é uma condição possível, mesmo quando o sistema conspira contra ela.

A Plataforma Autonomia Com Elas nasceu exatamente desse entendimento. De uma mulher que estava sem lugar para ir e precisava de ferramentas concretas, não de discursos. De chão: renda, saúde mental, segurança, uso do celular, elaboração de projetos, novos caminhos. Não porque somos guerreiras. Não porque temos que ser fortes. Mas porque a gente tem o direito de existir sem passar mal, e porque autonomia não é uma conquista individual: é uma condição que se constrói com informação, com rede, com suporte, com outras mulheres.

A gente não precisa passar mal para existir.
A gente pode sonhar para existir.

Se você está indecisa, se está sem saber para onde ir, se acha que é tarde demais ou que sua história não cabe nessa conta: a plataforma foi feita para você. Não para te salvar. Para caminhar junto.

Mini bio

Márcia Cristina Hizim Pelá é doutora e pós-doutora em Geografia pela UFG. Presidente e Coordenadora Geral da ACCA — Associação Cultura, Cidade e Arte. Pesquisadora, produtora cultural e ativista feminista.