Construir Caminhos, Produzir Cultura
Bastidor é o lugar onde se costura criação, se enfrenta a burocracia, se transforma desafio em cena e se tecem redes de afeto, resistência e autonomia.
Série: Autonomia Feminina
Publicação: 06 de abril de 2026
Bastidores: onde a cultura realmente acontece
Antes do aplauso, antes da luz acender, antes do público ocupar seus lugares, existe um território invisível onde a cultura é construída. É nesse espaço — os bastidores — que se articulam ideias, se resolvem impasses, se negociam possibilidades e se sustentam sonhos.
Para Patrícia Vieira, esse lugar não é apenas operacional: é simbólico, político e profundamente humano. Produzir cultura é costurar processos, cuidar de pessoas, lidar com limites e, ao mesmo tempo, inventar mundos possíveis.
Entre planilhas, riders técnicos, editais e cronogramas, existe uma dimensão que não cabe em documentos: o afeto, a escuta, a construção coletiva. É isso que transforma produção em experiência e evento em acontecimento.
“Produzir é transformar o invisível em experiência compartilhada.”
Formação na prática e descoberta de uma profissão
A trajetória de Patrícia começa de forma inesperada, ao ingressar na Secretaria de Cultura de Goiânia. Sem formação inicial na área, ela encontra ali um universo desconhecido — e decisivo.
Entre leis de incentivo, festivais e circulação de artistas, a prática se torna sua principal escola. É nesse contexto que ela compreende o papel da produção cultural como elo entre criação artística, políticas públicas e acesso da população à cultura.
A experiência marca profundamente sua trajetória: o que antes era apenas um trabalho se transforma em vocação, profissão e projeto de vida. A produção cultural deixa de ser bastidor e passa a ser linguagem, campo de atuação e identidade.
Plano V: autonomia, risco e permanência
A fundação da Plano V, Eventos e Cultura, representa um ponto de virada. Criar uma produtora própria não é apenas um passo profissional, mas um gesto de autonomia diante de um mercado instável e, muitas vezes, precarizado.
Manter-se na produção cultural ao longo de mais de duas décadas exige reinvenção constante. Entre editais, projetos independentes e articulações institucionais, Patrícia constrói uma trajetória baseada em pesquisa, persistência e adaptação.
A Plano V se consolida como um espaço que traduz sua visão de mundo: uma produção comprometida com diversidade, equidade e fortalecimento de redes.
Produção cultural como prática feminista
Ao longo de sua trajetória, Patrícia transforma a produção em ferramenta de intervenção política. Em um campo historicamente marcado por desigualdades, sua atuação evidencia a importância de práticas que promovam inclusão e equidade.
Curadoria paritária, protocolos contra violência, valorização de artistas invisibilizados e criação de ambientes seguros são algumas das estratégias incorporadas ao seu trabalho.
A produção cultural, nesse contexto, deixa de ser apenas execução técnica e passa a ser posicionamento: um modo de reorganizar o mundo a partir de outras lógicas de cuidado, colaboração e justiça.
“Cultura sem cuidado não é cultura.”
Desafios estruturais e permanência no mercado
Ser trabalhadora da cultura no Brasil é enfrentar, diariamente, a instabilidade. Falta de financiamento contínuo, desvalorização profissional e a necessidade constante de justificar a própria existência da profissão fazem parte do cotidiano.
Para mulheres, esses desafios se intensificam. O machismo nos bastidores, a deslegitimação técnica e a necessidade permanente de reafirmação são obstáculos recorrentes.
Ainda assim, permanecer é um ato político. Sustentar uma trajetória, formar novas gerações e continuar produzindo são formas de resistência que impactam diretamente a cena cultural.
Produzir é construir redes e futuros
Mais do que eventos, a produção cultural cria encontros. Cada projeto realizado mobiliza trabalhadores, gera renda, ativa territórios e amplia repertórios.
Ao conectar artistas, técnicos, instituições e público, a produção se torna uma engrenagem essencial da economia criativa e da vida cultural das cidades.
No centro desse processo está a construção coletiva: ninguém produz sozinho. Cada espetáculo, festival ou ação cultural é resultado de uma rede que se forma, se fortalece e se transforma ao longo do caminho.
“Quando uma mulher produz, toda a cidade ganha novos territórios de imaginação.”
🎧 Episódios do Programa
Episódio 53 — Construir caminhos, produzir cultura Episódio 54 — Produção cultural, autonomia e práticaFortaleça quem constrói cultura todos os dias
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