Quando a casa não é lar : Autonomia como sobrevivência em um país que falha com suas mulheres

Quando a casa não é lar | Edição Especial ACCA Autonomia Feminina Urgente
Edição Especial

Quando a casa não é lar

Autonomia como sobrevivência em um país que falha com suas mulheres

ACCA — Goiânia, dezembro de 2025

Caras leitoras,

Escrevo essas linhas com a respiração curta e a indignação ainda quente. Nos últimos três dias, o Brasil amanheceu envolto em um rastro de violência que insiste em atravessar a vida das mulheres como se fosse inevitável. Em Recife, uma mãe e quatro filhos foram mortos pelo próprio pai. Em Florianópolis, uma menina de cinco anos se jogou diante da mãe para tentar impedir sua morte. Em São Paulo, duas mulheres sobreviveram, por pouco, às tentativas de assassinato cometidas por homens que já haviam dividido a vida com elas. No Rio de Janeiro, duas trabalhadoras foram executadas no seu local de trabalho por um colega.

Não são episódios isolados. São a repetição cruel de um padrão estrutural. São sintomas de uma doença social que o país se acostumou a tratar como tragédia particular, quando na verdade é projeto de poder.

536
mulheres vítimas de violência letal por razões de gênero
em setembro de 2025
367
tentativas
(68,5%)
169
feminicídios consumados
(31,5%)

E o dado mais brutal permanece: em 76% dos casos, o agressor era alguém íntimo, companheiro ou ex-companheiro. O lugar que nos venderam como refúgio, o “lar doce lar”, transformou-se no território mais perigoso para as mulheres brasileiras.

A violência habita a intimidade. Mora no silêncio. Cresce nos corredores da casa. Ali onde deveria existir afeto, instala-se o medo.

Por que isso importa para falar de autonomia?

Porque cada uma dessas mulheres enfrentou, em algum momento, uma escolha impossível: ficar e correr risco de morte, ou sair e enfrentar a vulnerabilidade econômica, o desamparo social, a falta de rede de apoio.

Porque autonomia não é sobre “se virar sozinha”. É sobre ter condições reais de fazer escolhas que preservem sua vida e dignidade. É sobre ter uma renda própria para poder sair. É sobre ter qualificação profissional para recomeçar. É sobre ter uma rede de mulheres que te apoie quando o chão desaba.

Autonomia, aqui, é outra coisa:
é condição de sobrevivência.
  • Autonomia é ter renda para sair
  • É ter formação para recomeçar
  • É ter rede de apoio para não voltar
  • É ter alternativas reais quando o mundo desaba
  • É saber que existe vida possível além da violência
Nenhuma mulher rompe o ciclo da violência apenas com coragem. Coragem sem estrutura vira risco. Coragem sem alternativas vira culpa. Coragem sem rede vira luto.

É por isso que autonomia é política, e precisa ser construída coletivamente.

A violência contra mulheres é estrutural, e nossa resposta também precisa ser. Exige políticas públicas robustas, sim. Mas exige, sobretudo, compromisso social, comunidades que não abandonam suas mulheres, organizações que não recuam, redes que sustentam, espaços de formação que abrem caminhos.

É por isso que o trabalho da ACCA existe. Cada curso que oferecemos, cada roda de conversa, cada mulher que encontra ferramentas para reconstruir a própria vida é uma rachadura aberta no muro da violência. É resistência ativa. É futuro insistindo em existir.

Autonomia não é luxo.
É uma questão de sobrevivência.

Não escrevo essas linhas apenas para lamentar. Escrevo para afirmar o óbvio que este país insiste em negar: o que mata mulheres não é paixão, é poder. Não é destino, é estrutura. Não é exceção, é cotidiano. E só uma sociedade que reconhece a si mesma nesse espelho é capaz de transformá-lo.

Que nossa indignação não seja estéril.

Que nossa solidariedade não seja tímida.

Que nossa ação não seja tardia.

Enquanto o lar continuar sendo o lugar mais perigoso para uma mulher, nenhuma de nós estará verdadeiramente segura. Mas nenhuma de nós estará sozinha.

Com afeto e determinação,

Márcia Pelá

Presidente da ACCA

Edição Especial — ACCA: Autonomia Feminina
Goiânia, dezembro de 2025

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Fonte dos dados estatísticos:
Monitor de Feminicídios no Brasil (MFB)
Laboratório de Estudos de Feminicídios (LESFEM/UEL)
Dados referentes a setembro de 2025