Luto Perinatal: a dor precisa ser ouvida
Com Jéssica Piani, exploramos a invisibilidade do luto perinatal, a criação da Certidão do Amor Eterno no Hospital Maternidade Dona Íris, e como nomear a dor se torna um ato político de autonomia e cuidado.
Do Estúdio ao Blog transforma as conversas do programa Autonomia Feminina da ACCA em textos que aprofundam contextos, trajetórias e ferramentas de ação política. Nesta edição especial, portanto, recebemos Jéssica Martins Piani Ribeiro, mãe de João Vicente, para uma conversa profunda e corajosa sobre o luto perinatal. Ela compartilha não apenas sua dor. Além disso, traz os caminhos de reconexão, os protocolos de acolhimento criados no SUS, e como transformar invisibilidade em autonomia através do direito de nomear e viver a própria dor.
A Realidade Invisibilizada do Luto Perinatal
A maternidade frequentemente exaltada como o auge da experiência feminina coexiste com uma face sombria. Entretanto, frases cruéis como “você nem era mãe ainda” silenciam essas mulheres em momentos de vulnerabilidade extrema. Consequentemente, a ausência de reconhecimento social intensifica o sofrimento, tornando-o duplamente penoso.
Jéssica Afetuosa: A Transformação Através da Dor
Jéssica Piani não consegue falar de quem é hoje sem revisitar João Vicente e tudo que ele transformou nela. Antes, via demonstração de afeto como sinal de fraqueza. A vida difícil havia construído uma armadura, uma máscara social que protegia. Entretanto, também aprisionava. Depois de João, tudo mudou.
“Hoje a Jéssica pela Jéssica, eu vejo um mundo muito diferente, principalmente em relação ao afeto. Sou uma pessoa bem mais afetuosa depois do João Vicente, de tudo. Hoje eu sou uma Jéssica afetuosa.”
Será que não era exatamente isso: não poder expressar? Quando falamos de luto invisível e do direito a sentir dor, quando temos uma vida difícil, vamos ficando numa armadura. Por isso, demonstrar sentimento era visto como fraqueza. Ou será que é, na verdade, sinal de alta sensibilidade também?
Dessa forma, são questões para pensarmos. A vida vai despedaçando tanto que cria essas máscaras sociais. Hoje, Jéssica é pedagoga, geógrafa e mestranda. Principalmente, é mãe de João Vicente. Afinal, o ser mãe está nela, independentemente de ele estar fisicamente presente ou não.
A Gravidez Não Planejada e a Desconstrução do Mito do Amor Instantâneo
Jéssica estava no último período da faculdade com muitos planos quando descobriu a gravidez. Antes mesmo do atraso menstrual, sentiu que algo estava diferente no corpo. Entretanto, essa não era uma gravidez desejada. Afinal, a pressão social é imensa: quando você namora, perguntam “E quando vai casar?” Posteriormente, quando casa, a primeira pergunta é: “E aí, quando vai ter filho?” Trata-se, portanto, de uma exigência social constante e pesada.
Quando descobriu a gravidez, foi um susto muito grande. Por conseguinte, veio uma negação imensa. Além disso, sentia muito medo, principalmente por não ter tido uma boa relação com a própria mãe. Entretanto, mesmo com esses sentimentos conflituosos, fez todo o acompanhamento médico. Foram três meses de enjoos intensos, frustração por não conseguir estudar, alimentação difícil. Em síntese, uma confusão de hormônios e sensibilidade.
Tudo mudou quando sentiu João mexer pela primeira vez. Naquele momento, acordou assustada com ele mexendo na barriga. Mas ali começou a entender que tinha um “serzinho” ali. Antes de ficar grávida, sonhava com uma criança dando tchau. Posteriormente, depois que ele se foi, teve o mesmo sonho: ele dando tchau novamente. Foi uma coisa muito forte, muito significativa.
O Dia das Mães de 2017 e os 30 Dias na UTI
Dia 14 de maio de 2017, Dia das Mães. Naquela manhã, Jéssica acordou com sangramento. O médico sempre alertava: após o terceiro mês, qualquer sangramento é um alerta. Imediatamente, foram direto para o Hospital Maternidade Dona Íris. O diagnóstico foi rápido e assustador: “Você está com dilatação, está entrando em trabalho de parto.” Jéssica tinha apenas 23 semanas de gestação.
Consequentemente, ficou internada por 17 dias recebendo medicação para segurar o parto. Quando chegou ao hospital, estava com 2 cm de dilatação. Como cessou durante esse período, voltou para casa. Entretanto, com apenas 4 dias, retornou com 4 cm de dilatação. Finalmente, o aniversário de Jéssica é dia 28 de maio. João Vicente nasceu no dia 29 de maio de 2017, às 3h15 da manhã, e foi direto para a UTI neonatal.
O primeiro sentimento ao receber alta três dias depois enquanto o filho ficava na UTI? Culpa. Essa culpa acompanhou Jéssica durante muito tempo. Além disso, ouviu frases cruéis: “Tá vendo, você não quis ter filho, por isso aconteceu isso. É Deus te castigando.”
Dentro da UTI, Jéssica percebeu que não estava sozinha. Havia vários bebês ali. Entretanto, estava com raiva do mundo, revoltada. Com o tempo, conhecendo as outras mães, foi todos os dias ficar com João. Ele sabia quando ela chegava. O sorriso que dava quando ouvia sua voz. Pegou-o no colo apenas uma vez. No entanto, as enfermeiras incentivavam a trocar fralda, ter contato, criar vínculo.
Hospital Dona Íris: Estrutura de Acolhimento pelo SUS
O Hospital Maternidade Dona Íris é um hospital público do SUS com estrutura exemplar de acolhimento. Ali, as mães de UTI têm local exclusivo para descanso. Além disso, têm direito a seis refeições diárias, arteterapia e acompanhamento psicológico continuado. Paralelamente, a assistência social atende as famílias. Inclusive, oferece passe de ônibus para mães sem condições poderem ir e voltar para ver os filhos.
Foi nesse contexto de acolhimento que Jéssica recebeu acompanhamento psicológico pelo SUS por 7 anos. Rafaela, Cláudia e Ângela, as três psicólogas que a acompanharam, tiveram um papel fundamental. A partir disso, foi entendendo e ressignificando a dor. Consequentemente, desenvolveu cuidados e atenção consigo mesma de forma gradual.
Jéssica Piani e Márcia Pêla no estúdio do programa Autonomia Feminina: uma conversa sobre luto perinatal, reconhecimento e autonomia através da dor.
A Caixa de Lembranças e a Certidão do Amor Eterno
Rafaela, a psicóloga, sugeriu: “Jéssica, escreva. Coloca isso para fora de alguma forma.” Dessa forma, nasceu a caixa de lembranças. Ali, Jéssica guarda roupinhas, fotos e recordações. Mas o mais importante foi o caderno. Nesse caderno artesanal, confeccionado por ela mesma, coloca as lembranças e tudo que sentia sobre João. Até hoje, continua escrevendo nesse espaço sagrado.
“Aqui é o João nenzinho. É um caderno onde coloco todas as lembranças até hoje. Quando quero, quando dói, porque ainda dói, eu ainda coloco aqui. Tem todos os exames, ultrassom com o som do coração dele. É tudo guardado aqui nesse espaço sagrado de memória.”
A partir da caixa que Jéssica criou, as psicólogas do hospital viram a importância de as mães conseguirem despedir dos filhos. Ter direito a um luto. Consequentemente, construíram a Certidão do Amor Eterno, que continua até hoje. Trata-se de um protocolo institucional de cuidado.
Dentro do Hospital Dona Íris tem um local específico onde a mãe pode despedir dos filhos. Toda a equipe da psicologia, assistente social, médicas, enfermeiras e técnicas se juntam para criar essa certidão e entregar para a mãe. É um delicado registro com o pezinho carimbado, nome e data. Um documento singelo. No entanto, de profundo significado, que finalmente valida esse luto.
A caixa de lembranças de Jéssica: um espaço sagrado onde guarda roupinhas de João Vicente, fotos, o teste de gravidez, todos os exames, ultrassons com o som do coração dele e os cadernos onde escreve seus sentimentos, mesmo 8 anos depois.
Como Acolher uma Mãe em Luto Perinatal
Uma das coisas que Jéssica aprendeu é fundamental: quando alguém fala “Eu entendo a sua dor”, não, a gente não entende a dor do outro. Por mais que tenham outras mães que passaram pelo mesmo, a dor não é a mesma. Da mesma forma, as experiências não são as mesmas. Cada história carrega sua própria intensidade e contexto.
Portanto, o principal é: quando não sabe o que falar, ofereça um abraço. Alternativamente, ofereça simplesmente um silêncio e diga: “Eu estou aqui do seu lado.” Isso basta. Em síntese, isso é o suficiente para acolher verdadeiramente.
O Que NÃO Dizer Para Uma Mãe em Luto Perinatal:
• Evite dizer: “Eu entendo sua dor” (não, você não entende)
• Jamais diga: “Não liga não, você pode ter outro filho” (ela não queria outro, queria ESSE)
• Nunca afirme: “Você nem era mãe ainda” (ela ERA e É mãe)
• Abstenha-se de dizer: “É Deus te castigando” (isso não é de Deus)
Jéssica levanta uma comparação poderosa: “Por que a gente não fala quando o marido morre: ‘Você está nova, arruma outro’?” Ninguém fala isso. Entretanto, quando acontece com a mulher, é como se o sentimento pudesse ser descartado. Mas não é assim.
Se você não sabe o que falar, fique calada e apenas dê um abraço. Reconheça o luto. Leve um docinho. Ou então, dê um colo. Em suma, acolha e respeite a dor do outro. Principalmente, permita que ela sinta a dor sem julgamentos.
Cada mãe lida com o luto de forma muito pessoal. Por exemplo, algumas não gostam de guardar nada. Outras querem guardar tudo. Portanto, isso é algo muito individual. No entanto, o sentir, o se permitir sentir a dor, é fundamental. E se alguém falar algo que magoa, não guarde para si. Pelo contrário, fale: “O que você falou não é legal.”
Autonomia Através do Luto: Jéssica com Afeto
Como a autonomia feminina se fortalece quando você retoma o direito de nomear e viver seu luto? De que forma, afinal, ter esse direito reconhecido transforma a mulher e a mãe?
“Eu me tornei a Jéssica. A Jéssica com afeto. A minha profissão me ajudou muito também. Então, a Jéssica como mulher, a Jéssica como profissional e a Jéssica como mãe. O ser mãe está em mim. Isso me dá autonomia.”
Hoje, quando perguntam: “Você tem filhos?”, Jéssica responde: “Tenho.” “Ah, quantos anos ele tem?” “Era para fazer 8 anos.” Inevitavelmente, as pessoas se assustam. Consequentemente, sentem-se culpadas. A morte é um tabu. Entretanto, vivemos numa sociedade que cultua o nascimento e não dá conta de lidar com a morte. Por isso, é tão importante falarmos sobre isso.
Por isso, nomear, viver e aceitar são fundamentais. Além disso, tirar essas mulheres do luto perinatal da invisibilidade é importante. Porque é uma dor que existe. A dor nunca vai embora completamente. Entretanto, a gente se acostuma com ela. Simultaneamente, vai superando também. Datas específicas, como o Dia das Mães, são muito difíceis, quase 8 anos depois. Com o tempo, a gente se acostuma. A dor está lá, vez ou outra, como uma cicatriz permanente.
Nós não somos culpadas. Esse é o principal. A culpa é algo que pesa muito. Infelizmente, a sociedade culpa muito a mãe do que acontece: “Cadê a sua mãe? Cadê a mãe desse menino?” A culpa não é nossa. Uma sociedade patriarcal, machista e misógina mexe até no direito de mãe sentir dor. Por isso, precisamos mudar essa realidade. Afinal, é uma questão de justiça e humanidade.
Ações Práticas Para Reconhecer o Luto Perinatal:
• Primeiramente, compartilhe homenagens e memórias nas redes sociais (#LutoInvisível #LutoPerinatal)
• Em seguida, acesse seus direitos no SUS (acompanhamento psicológico gratuito)
• Além disso, crie sua caixa de lembranças se isso fizer sentido para você
• Paralelamente, procure grupos de apoio de mães enlutadas
• Da mesma forma, leia livros sobre o tema (como “Até Breve José”)
• Principalmente, permita-se sentir a dor sem culpa
• Por fim, fale quando algo machuca, não guarde para si
Chorar não é sinal de fraqueza. Pelo contrário, é um ato político. Uma reivindicação visceral do corpo, da memória e do direito inalienável de ser escutada. Se você conhece uma mulher que está passando por essa situação, compartilhe esse conhecimento. Porque essa é uma gotinha. Entretanto, contribui para que possamos ver que não estamos sozinhos no mundo. Dessa forma, criamos redes de apoio e cuidado mútuo.
🎧 Ouça os Episódios Completos
Episódio 31: Luto Perinatal: Reconheça com Jéssica Piani – Parte 1 Episódio 32: Luto Perinatal: Reconheça com Jéssica Piani – Parte 2Fortaleça Vozes que Transformam Invisibilidade em Autonomia
O programa Autonomia Feminina é possível graças ao apoio de pessoas que acreditam na descentralização do conhecimento. Além disso, acreditam na construção coletiva de autonomia. Por isso, junte-se a nós nessa jornada!
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