As transgressões das mulheres: corpo, território e autonomia por Márcia Pelá | Crônicas Feministas

As transgressões das mulheres: corpo, território e autonomia | Crônicas Feministas | ACCA
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Márcia Pelá
marciapela@culturacidadeearte.org

As transgressões das mulheres: corpo, território e autonomia

Onde disseram que não era nosso
22 de janeiro de 2026 Crônicas Feministas ACCA
Caminhar devia ser só isso: colocar um pé na frente do outro.

Mas, pra muitas de nós, caminhar nunca foi simples. É cálculo. É atenção. É pressa sem vontade. É chave na mão. É roupa pensada. É o corpo inteiro em estado de alerta.

A cidade diz que foi feita pra fluir. Avenidas abertas, parques, praças, vitrines, calçadas. Tudo parece convite. Mas a gente aprende cedo que alguns convites são armadilhas. Que tem rua que repele. Que tem esquina que encolhe a gente por dentro. Que tem horário que expulsa.

A cidade ensina.

Ensina a evitar.
Ensina a atravessar rápido.
Ensina a fingir que não ouviu.
Ensina a não olhar.
Ensina a ir embora antes de querer ficar.
Ensina a transformar medo em rotina.

E, de tanto ensinar, naturaliza.

Naturaliza que mulher não anda à noite.
Naturaliza que certos lugares “não são pra gente”.
Naturaliza que lazer é território masculino.
Naturaliza que o espaço público é um risco.
Naturaliza que a casa vira abrigo e fronteira.

Dizem que Goiânia é jovem, moderna, planejada. Mas tem um planejamento que não aparece nos mapas. Ele mora nos vazios, nos monumentos, nos nomes das ruas, nos jeitos de contar a história. Mora, principalmente, no que nunca foi feito pra gente permanecer.

Essa cidade foi pensada como mercadoria. Depois, como vitrine de poder. Entre o capital e o patriarcado, levantaram prédios, bairros, centros administrativos e também limites invisíveis. Não são muros. São sensações. Não são placas. São avisos. Não são leis. São medos.

É assim que a cidade educa o corpo: mostrando onde ele não deve estar.

Uma mulher que deixa de ir à praça.
Uma que evita o centro.
Uma que não entra.
Uma que não atravessa.
Uma que vai diminuindo o mundo pra caber nele.

E, sem perceber, a cidade vai ficando pequena.
Não no mapa. Na vida.

Mas tem uma coisa que concreto nenhum consegue segurar.

Porque a cidade não é feita só de prédio. É feita de gesto. De presença. De encontro. De voz. E presença é sempre uma forma de rasgar.

Eu vejo mulheres riscando muros.
Vejo mulheres ocupando ruas.
Vejo mulheres criando onde disseram que não era lugar.
Vejo mulheres construindo coletivo onde só tinha silêncio.
Vejo mulheres ficando onde mandaram ir embora.

A gente reescreve a cidade com o corpo.

Cada mulher sentada num banco sem se desculpar muda o desenho do espaço.
Cada mulher andando sem pedir licença desloca o centro.
Cada mulher criando, falando, cuidando, pesquisando, organizando, denunciando vai abrindo fresta.

Porque a cidade não é só aquilo que fizeram dela.
É também aquilo que a gente faz nela.

E se o sexismo foi cimentado como regra, a nossa presença é rachadura.

Goiânia aprende a expulsar.
Mas também, devagar, começa a aprender a ser atravessada.

Por corpos que não pedem permissão.
Por vozes que não cabem nos mapas oficiais.
Por mulheres que devolvem à cidade uma pergunta impossível de calar:

Quem disse que este lugar não é nosso?

Sobre a autora

Márcia Pelá é educadora, pesquisadora, geógrafa urbana, feminista e presidenta da ACCA — Associação Cultura, Cidade e Arte.
Escreve a coluna Crônicas Feministas, onde investiga corpo, cidade, arte e autonomia feminina.

Esta crônica nasce da pesquisa

Este texto é fruto das investigações do pós-doutorado de Márcia Pelá sobre sexismo urbano, produção do espaço e violência contra as mulheres.

Leituras de base

• Naturalização da opressão e da violência contra as mulheres na produção socioespacial de Goiânia
https://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/estgeo/article/view/16408

• As mulheres na produção socioespacial de Goiânia: invisibilidade e sexismo
https://revistas.ufg.br/atelie/article/view/70240

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Porque a autonomia também se constrói quando a gente ocupa a palavra.
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