As transgressões das mulheres: corpo, território e autonomia
Mas, pra muitas de nós, caminhar nunca foi simples. É cálculo. É atenção. É pressa sem vontade. É chave na mão. É roupa pensada. É o corpo inteiro em estado de alerta.
A cidade diz que foi feita pra fluir. Avenidas abertas, parques, praças, vitrines, calçadas. Tudo parece convite. Mas a gente aprende cedo que alguns convites são armadilhas. Que tem rua que repele. Que tem esquina que encolhe a gente por dentro. Que tem horário que expulsa.
Ensina a evitar.
Ensina a atravessar rápido.
Ensina a fingir que não ouviu.
Ensina a não olhar.
Ensina a ir embora antes de querer ficar.
Ensina a transformar medo em rotina.
Naturaliza que mulher não anda à noite.
Naturaliza que certos lugares “não são pra gente”.
Naturaliza que lazer é território masculino.
Naturaliza que o espaço público é um risco.
Naturaliza que a casa vira abrigo e fronteira.
Dizem que Goiânia é jovem, moderna, planejada. Mas tem um planejamento que não aparece nos mapas. Ele mora nos vazios, nos monumentos, nos nomes das ruas, nos jeitos de contar a história. Mora, principalmente, no que nunca foi feito pra gente permanecer.
Essa cidade foi pensada como mercadoria. Depois, como vitrine de poder. Entre o capital e o patriarcado, levantaram prédios, bairros, centros administrativos e também limites invisíveis. Não são muros. São sensações. Não são placas. São avisos. Não são leis. São medos.
Uma mulher que deixa de ir à praça.
Uma que evita o centro.
Uma que não entra.
Uma que não atravessa.
Uma que vai diminuindo o mundo pra caber nele.
E, sem perceber, a cidade vai ficando pequena.
Não no mapa. Na vida.
Porque a cidade não é feita só de prédio. É feita de gesto. De presença. De encontro. De voz. E presença é sempre uma forma de rasgar.
Eu vejo mulheres riscando muros.
Vejo mulheres ocupando ruas.
Vejo mulheres criando onde disseram que não era lugar.
Vejo mulheres construindo coletivo onde só tinha silêncio.
Vejo mulheres ficando onde mandaram ir embora.
Cada mulher sentada num banco sem se desculpar muda o desenho do espaço.
Cada mulher andando sem pedir licença desloca o centro.
Cada mulher criando, falando, cuidando, pesquisando, organizando, denunciando vai abrindo fresta.
Porque a cidade não é só aquilo que fizeram dela.
É também aquilo que a gente faz nela.
Goiânia aprende a expulsar.
Mas também, devagar, começa a aprender a ser atravessada.
Por corpos que não pedem permissão.
Por vozes que não cabem nos mapas oficiais.
Por mulheres que devolvem à cidade uma pergunta impossível de calar:
Sobre a autora
Márcia Pelá é educadora, pesquisadora, geógrafa urbana, feminista e presidenta da ACCA — Associação Cultura, Cidade e Arte.
Escreve a coluna Crônicas Feministas, onde investiga corpo, cidade, arte e autonomia feminina.
Esta crônica nasce da pesquisa
Este texto é fruto das investigações do pós-doutorado de Márcia Pelá sobre sexismo urbano, produção do espaço e violência contra as mulheres.
Leituras de base
• Naturalização da opressão e da violência contra as mulheres na produção socioespacial de Goiânia
https://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/estgeo/article/view/16408
• As mulheres na produção socioespacial de Goiânia: invisibilidade e sexismo
https://revistas.ufg.br/atelie/article/view/70240
Crônicas Feministas | ACCA
Um espaço de escrita para pensar o mundo desde as mulheres.
Ler no site da ACCA




