1568 mulheres que não voltaram por Márcia Pelá | Crônicas Feministas

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Márcia Cristina Hizim Pelá
Doutora em Geografia · Ativista feminista

1.568: ou sobre contar as mulheres que não voltaram para casa

Por Márcia Cristina Hizim Pelá
27 de março de 2026 Crônicas Feministas ACCA
Uma crônica sobre feminicídio, ausência do Estado e as histórias que os números tentam esconder.

Um número não grita. Um número não sangra, não acorda de madrugada com medo de respirar alto demais, não esconde a chave do carro dentro da bolsa porque sabe que, se ele encontrar, ela não vai conseguir sair. Um número não pede ajuda. Um número não tem nome.

Mas 1.568 é o número de mulheres assassinadas por feminicídio no Brasil em 2025. Um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior. Desde que a lei do feminicídio foi criada, em 2015, ao menos 13.703 mulheres foram mortas pela condição de serem mulheres. Treze mil e setecentas e três. Repita devagar. Tente imaginar uma a uma.

Tente imaginar uma a uma.

Os dados são da nota técnica “Retrato dos Feminicídios no Brasil”, publicada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em março de 2026. E o que eles mostram não é apenas o aumento dos registros. Mostram um padrão. Um retrato que se repete com precisão assustadora: 62,6% das vítimas são mulheres negras. Metade tem entre 30 e 49 anos. Em quase metade dos casos, o instrumento usado é uma faca, um machado, um canivete. Em 66,3% das vezes, o crime acontece dentro de casa. E em mais de 8 a cada 10 casos, o autor é o companheiro ou o ex-companheiro.

Dentro de casa. Leia de novo: dentro de casa. O lugar que deveria significar refúgio, descanso, segurança, é o lugar onde a maioria dessas mulheres morreu. Morta por quem dormia ao lado, por quem dividia a conta de luz, por quem conhecia o nome dos filhos.

O lugar que deveria proteger é o que mais mata.

O relatório traça também a geografia dessa violência. Em Goiás, foram 59 feminicídios em 2025, com taxa de 1,6 por 100 mil mulheres. No Centro-Oeste, o estado concentra 33,9% de todos os registros da região entre 2021 e 2025. Não é um dado distante. É aqui. É nesta cidade, nestas ruas que atravessamos todos os dias.

Mas há um dado que talvez seja o mais difícil de digerir: 13,1% das mulheres assassinadas tinham medida protetiva de urgência ativa quando foram mortas. Elas fizeram tudo o que o Estado pede. Denunciaram. Procuraram a delegacia. Conseguiram a medida. E mesmo assim, foram assassinadas. Em Goiás, esse percentual foi de 8,9%. Cinco mulheres, entre 56 feminicídios analisados, tinham proteção judicial formal quando foram mortas.

A medida protetiva é fundamental. Mas ela, sozinha, não salva.

A medida protetiva é fundamental. Mas ela, sozinha, não salva. Porque entre o papel assinado pelo juiz e o corpo da mulher, existe um território inteiro de ausências: a falta de fiscalização, a falta de abrigo, a falta de acompanhamento, a falta de uma rede que funcione de verdade, de forma articulada, antes que a violência chegue ao seu desfecho fatal.

O relatório mostra outra coisa que não se pode ignorar: as cidades pequenas, com até 50 mil habitantes, têm as maiores taxas de feminicídio do país. São também as cidades onde mais de 70% dos municípios não possuem nenhum serviço especializado para atender mulheres em situação de violência. Nenhum. Nem delegacia especializada, nem centro de referência, nem casa-abrigo. Onde o risco é maior, a proteção é menor. Onde a violência mais mata, o Estado mais se ausenta.

Onde a violência mais mata, o Estado mais se ausenta.

Isso não é coincidência. É estrutura. É o resultado de uma lógica que trata a violência contra as mulheres como questão secundária, como problema de polícia, como drama privado. E que distribui os recursos públicos sem considerar que o corpo das mulheres continua sendo tratado como território alheio, como diz o próprio relatório.

Escrevo isso no mês de março, que é sempre o mês em que nos pedem flores. Em que nos oferecem homenagens. Em que nos chamam de guerreiras, de inspiradoras, de mulheres à frente do seu tempo. E eu penso nas 1.568 que não receberam flores. Que não receberam nada, a não ser a faca, a bala, o punho, o silenciamento definitivo. Penso que homenagear mulheres sem nomear o que as mata é uma forma de cumplicidade com o que as mata.

A ACCA existe há mais de 23 anos justamente para isso: para que a autonomia das mulheres não seja apenas uma palavra bonita em documento de projeto, mas uma condição concreta de vida. Autonomia é também poder sair de casa sem medo. É ter para onde ir. É ter quem escute sem julgar, quem oriente sem revitimizar, quem proteja sem exigir que a mulher prove que sua vida vale a pena ser protegida.

Se você está lendo isso e reconhece alguma parte dessa história na sua própria vida, saiba: a violência não é culpa sua. A saída existe, mesmo quando parece impossível. E você não precisa caminhar sozinha.

Central de Atendimento à Mulher: Ligue 180
Polícia Militar: Ligue 190
Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) de Goiânia: (62) 3201-4844

Mini bio

Márcia Cristina Hizim Pelá Doutora e pós-doutora em Geografia pela UFG. Presidente e Coordenadora Geral da ACCA — Associação Cultura, Cidade e Arte. Pesquisadora, produtora cultural e ativista feminista. Fonte dos dados: Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Retrato dos Feminicídios no Brasil. Nota Técnica, março de 2026.

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