LUZ NO ESCURO: Arte de Ser Mulher com Izabela Nascente
Uma trajetória construída entre teatro, bonecos, educação e resistência feminina através da arte.
Série: Autonomia Feminina
11 de maio de 2026
Quando o palco se torna resistência
A trajetória de Izabela Nascente nasce do encontro entre arte, coletividade e coragem. Em um país marcado por desigualdades estruturais e por um ambiente cultural historicamente masculino, sua caminhada revela como o teatro pode se transformar em ferramenta de autonomia, consciência e transformação social.
Integrante da Cia Nu Escuro desde o final dos anos 1990, Izabela construiu uma carreira atravessada pela pesquisa, pela educação e pela criação coletiva. Ao longo de quase três décadas, tornou-se referência no teatro de formas animadas em Goiás, desenvolvendo trabalhos que unem bonecaria, direção, produção cultural, formação artística e acessibilidade.
Mais do que uma artista, Izabela representa uma geração de mulheres que precisaram ocupar espaços historicamente negados. Mulheres que aprenderam a transformar limitações em linguagem e resistência em permanência.
A descoberta da arte como caminho de autonomia
Durante a conversa no programa ACCA Autonomia Feminina, Izabela compartilha memórias da infância e fala sobre a sensação de perceber, ainda muito nova, que existiam liberdades reservadas aos homens. O desejo inicial não era ser homem, mas ocupar espaços que pareciam inacessíveis para meninas.
Foi através do teatro que esse processo de autoconhecimento começou a ganhar forma. A arte abriu caminhos para compreender que era possível construir outra forma de existir enquanto mulher. Não reproduzir modelos impostos, mas inventar novas possibilidades.
Ao longo dos anos, o teatro deixou de ser apenas um espaço de expressão artística e tornou-se também lugar de construção política, afetiva e coletiva.
“Eu não queria ocupar o mesmo espaço. Eu queria construir um espaço novo.”
Essa consciência atravessa toda a sua trajetória e aparece na maneira como conduz processos criativos, oficinas e projetos pedagógicos.
O encontro com a bonecaria
A relação com os bonecos surgiu nos primeiros anos da Cia Nu Escuro, durante um curso de construção de formas animadas. Enquanto o grupo desenvolvia coletivamente um projeto, Izabela percebeu que existia ali um universo inteiro esperando para ser descoberto.
A experiência despertou não apenas curiosidade técnica, mas identificação profunda. A partir daquele momento, iniciou uma busca intensa por formação, referências e pesquisa. Em uma época com pouco acesso à internet e escassez de bibliografia em Goiás, viajar tornou-se parte do processo de aprendizagem.
Cursos, oficinas, intercâmbios e investigações práticas passaram a fazer parte da sua rotina. O fazer artístico transformou-se em um movimento contínuo de formação.
Ao mesmo tempo em que construía bonecos, Izabela também construía sua própria linguagem artística.
Coletividade como prática de permanência
A história da Cia Nu Escuro ocupa um lugar central em sua trajetória. Em um cenário cultural frequentemente marcado pela precarização e pelo individualismo, a permanência de um grupo por quase 30 anos se torna também um ato político.
A companhia nasceu dentro da Escola Técnica Federal de Goiás, atual Instituto Federal, carregando desde sua origem uma forte relação com educação, pesquisa e formação humana.
Ao longo do tempo, o grupo construiu uma metodologia baseada no diálogo, na escuta e no reconhecimento das habilidades individuais dentro do coletivo. Cada integrante desenvolveu caminhos próprios sem abandonar a construção conjunta.
Essa convivência prolongada gerou não apenas espetáculos, mas memória cultural, acervo artístico e formas de resistência coletiva.
Hoje, a companhia trabalha na preservação de figurinos, cenários, bonecos e documentos produzidos ao longo de décadas, fortalecendo também a memória das artes cênicas em Goiás.
Arte, educação e infância
Grande parte da pesquisa de Izabela está voltada para o encontro entre arte e educação. Suas oficinas e processos pedagógicos utilizam o teatro de bonecos como ferramenta de expressão, imaginação e fortalecimento da autoestima.
Segundo ela, o boneco possui uma potência única no contato com crianças. Ele cria mediações afetivas capazes de romper barreiras emocionais, facilitando comunicação, escuta e acolhimento.
Ao mesmo tempo, existe uma preocupação constante em ampliar referências femininas dentro do imaginário cultural infantil. Para Izabela, apresentar histórias protagonizadas por mulheres é fundamental para que meninas possam se reconhecer em novos lugares de potência.
Esse processo também atravessa discussões sobre inclusão, acessibilidade e diversidade de públicos.
Nos trabalhos mais recentes da companhia, a acessibilidade deixa de ser apenas um recurso complementar e passa a integrar completamente a dramaturgia e a experiência cênica.
Viver de arte como escolha cotidiana
Durante o episódio, Izabela também fala sobre os desafios concretos de construir uma vida profissional dentro da cultura. A trajetória artística exige criatividade não apenas no palco, mas também na sobrevivência.
Ao longo dos anos, ela ampliou suas áreas de atuação, trabalhando com direção, figurino, produção, cenografia, oficinas e construção de bonecos. Essa multiplicidade tornou-se parte fundamental da permanência no setor cultural.
Mas existe também um aprendizado importante sobre autocuidado, limites e saúde mental.
Para Izabela, autonomia não significa apenas independência financeira. Significa também aprender a dizer não, reconhecer os próprios limites e construir relações profissionais mais saudáveis.
“A autonomia começa quando a mulher consegue responder ao mundo sem precisar se sacrificar o tempo inteiro.”
A maturidade trouxe outra relação com o trabalho, com o corpo e com o tempo. Uma compreensão de que criar também exige pausa, escuta e preservação de si.
Quando mulheres constroem redes
Um dos pontos mais fortes da conversa é a reflexão sobre apoio entre mulheres. Izabela fala sobre como redes femininas de afeto, troca e colaboração foram fundamentais em sua caminhada.
Em vez da lógica da competição, ela defende a construção de alianças. Mulheres fortalecendo mulheres através da escuta, da parceria e da partilha de conhecimento.
Essa perspectiva aparece tanto em sua prática artística quanto pedagógica. Em seus processos, o aprendizado coletivo ocupa lugar central.
A autonomia feminina, nesse contexto, não nasce do isolamento. Ela cresce através do encontro.
🎧 Episódios do Programa
Episódio 63 — LUZ NO ESCURO: Arte de Ser Mulher Episódio 64 — Arte, Educação e Autonomia FemininaComece o seu caminho agora
A Plataforma Autonomia com Elas foi criada para mulheres que desejam transformar conhecimento em independência, criatividade em profissão e desejo em ação concreta.
Cursos, formações, ebooks e conteúdos exclusivos sobre produção cultural, autonomia financeira, enfrentamento à violência digital e desenvolvimento profissional.
Assine já!




