O reencontro com o rato de Clarice e a Guernica de Picasso
Eis que o rato de Clarice, a Lispector, apareceu novamente para mim. Desta vez, em meio aos caixotes de verdura do supermercado. Eu pensava que ratos como aqueles não suportavam a brisa do litoral nordestino.
Pensava que aqui estaria absolutamente protegida. Traiçoeiro, pegou-me distraída numa manhã de segunda-feira, quando a ideia do início da dieta parecia inabalável. Plena, catava mamões (aqui são mais doces), cebolas roxas (aqui são mais baratas), beterrabas (aqui são mais incomuns) e pinhas (aqui são mais frequentes).
Vinda da academia, vestia uma camiseta branca do Museu das Ligas Camponesas.
Ainda recém chegada no hortifruti, ouvi uma voz firme e alta: “sabia que nos Estados Unidos não existe aula de Geografia? O foco é matemática, robótica… Não se fala desse negócio de direitos humanos, sabia?!”
Olhei na direção da voz e vi um senhor. O sotaque não era nordestino. Segui a olhar para baixo.
Tive que buscar o saco de batatas-doces que esqueci no parapeito, quando fui assaltada por uma voz feminina: “Só aqui mesmo, no Brasil, essa palhaçada. Esses esquerdistas tinham que ser todos mortos!”
Levantei a cabeça e vi a mulher com os olhos fixados na minha camiseta.
[revivi, no momento da escrita, os segundos de hesitação e taquicardia do momento narrado].
O susto se transfigurou em pânico quando percebi que ao lado da mulher havia um carrinho de bebê, com o bebê.
Como pode a Guernica de Picasso impor-se aos meus pensamentos voltados à difícil escolha entre abobrinha verde ou madura?
Eu que estava ali tão distraída, tão esquecida de 2018, de 2019, de 2020, de 2021, de 2022, de 2026.
Nota editorial
Texto originalmente publicado na coluna Opinião — Saúde-Trabalho-Ambiente-Direitos Humanos & Movimentos Sindical e Sociais.
Crônicas Feministas | ACCA
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