A mitologia do patriarcado por Alexandre Machado | Crônicas Feministas

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Alexandre Machado Rosa
Professor do IFSP · Doutor em Saúde Coletiva

A mitologia do patriarcado

Por Alexandre Machado Rosa
13 de março de 2026 Crônicas Feministas ACCA
A mitologia não apenas narra deuses. Ela dramatiza a fundação simbólica de um sistema de poder que ainda governa o mundo.

Escrevo como homem. Homem hétero. Negro. Formado numa tradição que naturalizou a centralidade masculina como eixo do mundo. Talvez por isso a mitologia grega me provoque tanto. Ela não apenas narra deuses. Ela dramatiza a fundação simbólica de um sistema de poder que ainda reverbera na vida real.

A separação entre Gaia e Urano cria o espaço. A vitória de Zeus sobre Cronos cria a ordem. Esses dois movimentos estruturam o cosmos e consolidam a soberania masculina como princípio organizador. O poder deixa de ser fusão primordial e torna-se comando. O raio substitui o ventre como centro decisório.

O trono é masculino, mesmo quando os números parecem equilibrados.

O Olimpo possui seis deuses e seis deusas, mas o trono é masculino. O equilíbrio numérico não impede a assimetria estrutural. Zeus concentra a palavra final, distribui funções, define destinos.

Afrodite nasce da violência que funda o mundo. Surge do trauma da separação entre Céu e Terra, personificando o desejo como força primordial. Contudo, ao integrar-se à ordem olímpica, o eros deixa de ser ruptura cósmica e passa a operar dentro de limites. O desejo não é eliminado, mas regulado. Torna-se parte do sistema que Zeus organiza.

Não se anula a potência feminina: ela é reorganizada dentro da hierarquia.

É nesse universo que emerge Ariadne. Ela age, decide, salva o herói. Oferece o fio que permite a Teseu sair do labirinto. Sem sua inteligência, não há triunfo masculino. Ainda assim, é ela quem permanece na praia. O herói retorna à cidade. A mulher fica na margem.

Como homem, é difícil ignorar o quanto essa estrutura atravessou séculos. Mulheres como suporte invisível das narrativas heroicas. Contribuições femininas absorvidas na glória masculina.

A transcendência de Ariadne ocorre quando Dioniso a integra ao mundo divino. Sua constelação no céu simboliza superação, mas também revela que a passagem do sofrimento à imortalidade se dá por mediação masculina. O mito não é simples instrumento de opressão, mas evidencia como o poder foi simbolicamente organizado.

O patriarcado é antigo. Foi narrado antes de ser naturalizado.

Zeus centraliza a soberania. Afrodite tem seu desejo enquadrado. Ariadne experimenta a dor e só depois ascende.

Reconhecer isso desde meu lugar de fala não é exercício de culpa, mas de consciência histórica. O patriarcado não nasce na modernidade. Ele é narrado, cantado e legitimado nas estruturas simbólicas mais antigas do Ocidente.

O Olimpo torna-se metáfora de uma sociedade que aparenta equilíbrio, mas concentra decisão. Ao revisitarmos esses mitos, não buscamos julgá-los com moral contemporânea. Buscamos compreender como certas hierarquias se tornaram naturais.

Zeus organiza o mundo. A pergunta que permanece é por que o imaginário da soberania foi masculinizado.

Se Afrodite nasce da ferida que cria o espaço e Ariadne transforma abandono em constelação, talvez nossa tarefa hoje seja outra. Transformar leitura em responsabilidade.

O fio ainda está em nossas mãos.

A questão é o que faremos com ele.

Mini bio

Alexandre Machado Rosa é docente do Instituto Federal de São Paulo e doutor em saúde coletiva. Pesquisa cultura, gênero e narrativas simbólicas como formas de compreender as estruturas sociais contemporâneas.

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