A quem pertence o corpo das mulheres? Por Weigma Michely da Silva | Crônicas Feministas

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Weigma Michely da Silva
Professora da SEDUC-TO · Doutora (UFNT) · Mestra (UFT)

A quem pertence o corpo das mulheres?

Por Weigma Michely da Silva
26 de fevereiro de 2026 Crônicas Feministas ACCA
Falar de feminicídio no Brasil, para mim, começa no corpo. No meu corpo.

“Eu sou um corpo, um ser, um corpo só/Tem cor, tem corte/E a história do meu lugar, ô/Eu sou a minha própria embarcação/Sou minha própria sorte” (Luedji Luna).

Falar de feminicídio no Brasil, para mim, começa no corpo. No meu corpo. No corpo de uma mulher negra: um corpo que a história aprendeu a tratar como território disponível. É desse lugar que a canção de Luedji Luna me atravessa: um corpo que fala, que se nomeia, que não se deixa dissolver no silêncio. Um corpo em travessia, mesmo quando o mundo insiste em reduzi-lo, feri-lo, apagá-lo. Um corpo que segue… porque seguir, aqui, já é forma de existir e de resistir.

É a partir desse corpo situado que o feminicídio precisa ser compreendido como expressão de uma estrutura que organiza e sustenta essas violências no cotidiano social. Vivemos em um país que convive, todos os dias, com a morte de mulheres pelo simples fato de sermos mulheres, e que, paradoxalmente, reage com estranhamento quando emergem práticas de cuidado, denúncia e proteção. Agem como se a violência fosse um “caso mal resolvido”, e não um fenômeno social e político de larga escala.

No fundo, o que está em disputa é o valor atribuído a certos corpos: quem merece proteção, quem tem sua dor legitimada, quem pode cuidar e denunciar.

Entre os casos de feminicídio que atravessaram o Brasil com força suficiente para romper o silêncio público, repetem-se histórias sustentadas por motivos absurdos, justificativas miseráveis e uma lógica persistente de posse sobre o corpo feminino:

  • Ângela Diniz, assassinada em 30/12/1976, teve sua morte transformada em espetáculo jurídico sob a tese da “defesa da honra”;
  • Eliza Samudio, morta em 10/06/2010, foi silenciada após exigir o reconhecimento do filho;
  • Em 22/07/2018, Tatiane Spitzner foi jogada da sacada do próprio apartamento;
  • Clara Rodrigues, assassinada em 09/03/2025, morreu por cobrar uma dívida irrisória;
  • Maria Rodrigues dos Santos, grávida, foi morta em casa em 24/03/2024: dois corpos interrompidos, o lar convertido em cenário de extermínio;
  • Tainara Souza Santos, em 29/11/2025 foi cruelmente dizimada enquanto era arrastada, em um ato que levou a violência ao seu grau mais extremo, vindo a falecer em 24/12/2025.

Esses nomes são estilhaços de um cotidiano que mata, fragmentos de um país que consente que mulheres tombem por simplesmente existir. Cada ano inscrito aqui rasga o tempo e abre uma ferida que nos atravessa e expõe que a violência persiste porque o silêncio, tantas vezes, ainda é escolhido.

O feminicídio emerge, assim, como uma das expressões mais cruéis do sistema que organiza nossas relações sociais e de poder. Essa violência se sustenta na força direta e, com igual intensidade, em mecanismos sutis que inscrevem as hierarquias no cotidiano e as fazem parecer parte natural da vida. Trata-se de uma violência discreta, quase imperceptível, que se infiltra nos corpos, nos gestos e nas expectativas socialmente produzidas, dificultando seu reconhecimento, inclusive por nós, que a vivenciamos (Bourdieu, 2012). Esse debate clama: enquanto nossos corpos forem reduzidos a estatística, o país seguirá naturalizando a brutalidade e chamando de normal o que é extermínio.

Os números ajudam a dimensionar a violência: em 2024, o Brasil registrou 1.492 feminicídios, o que significa que quase quatro mulheres foram mortas por dia. Além disso, houve 3.870 tentativas de feminicídio, um crescimento expressivo em relação ao ano anterior, indicando que a violência se intensifica. A maioria das vítimas era mulher negra, morta dentro de casa e por companheiros ou ex-companheiros, alertando que o espaço doméstico segue como um dos lugares mais perigosos para a vida feminina.

Esses dados deixam denunciam a engrenagem que os produz, ao afirmar que o racismo organiza a sociedade brasileira como uma racionalidade fundada na supremacia eurocristã, Lélia Gonzalez (2020) nos instiga a compreender por que a violência se distribui de forma desigual: essa lógica atravessa as relações de gênero, hierarquiza corpos e faz com que as vidas de mulheres, sobretudo mulheres negras, sejam tratadas como menos urgentes à indignação pública, à proteção do Estado e às políticas efetivas de prevenção.

Nesse cenário, o cuidado irrompe como gesto insurgente: cuidar, denunciar, acolher, tecer redes de escuta desloca a indiferença do centro e convoca a responsabilidade coletiva. Como alerta Suely Rolnik (2018), a política começa no corpo, na potência de ser afetado e de responder às forças do mundo. O cuidado incomoda porque reabre essa fenda sensível, e quem se permite ser afetado já não consegue sustentar a ficção de que não vê.

O feminicídio se afirma, assim, como crime político: sua repetição expõe uma sociedade que ainda aceita a desvalorização das vidas femininas e as mantém expostas a uma violência estrutural. A urgência vai além da resposta penal isolada. A efetivação de políticas públicas exige deslocamentos complexos, mudanças culturais concretas, capazes de interromper a lógica que naturaliza a morte.

As perguntas que restam exigem deslocamento de práticas: quantas vidas ainda precisarão ser interrompidas até que a indiferença ceda lugar à responsabilidade coletiva? Quantas formas de cuidado continuarão sendo desautorizadas até que se reconheça que a violência habita a própria estrutura que nos expõe? Enfrentá-la passa por muitas frentes, mas também por admitir que, mesmo quando sobrevivemos, a violência retorna, no descrédito, na culpabilização, no silenciamento que insiste em nos ferir outra vez.

Nesse contexto, algumas mulheres têm escolhido suspender a vida sexual como estratégia de cuidado e autoproteção, um gesto de preservação do desejo diante da exaustão e da violência reiterada. Uma pausa do corpo que desloca a idealização do amor e responde à necessidade de permanecer inteira em um mundo que insiste em ferir, inclusive quando se anuncia como afeto.

Colocar a vida no centro é deslocar o mundo do lugar. Reorganiza prioridades, rasga privilégios, abala o poder que se mantém pelo hábito de não ver. Dói porque exige renunciar à conveniência de viver como se a morte das mulheres não nos atravessasse. Essa ética incomoda porque expõe a fragilidade de um sistema que só permanece enquanto a vida não se torna central.

E, como nos lembra Elza Soares, em Maria da Vila Matilde:

“Cadê meu celular?
Eu vou ligar pro 180,
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço.”

É voz que se afirma. É gesto de potência. É exigência de vida… Sempre.

Mini bio

Weigma Michely da Silva é professora da SEDUC-TO há 25 anos, doutora pela UFNT e mestra pela UFT. Entre linguagem, literatura e educação, constrói percursos de ensino como quem cartografa afetos e resistências. A partir de uma perspectiva afroameríndia, afirma a palavra como gesto político e a sala de aula como território de reinvenção do mundo.

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