A quem pertence o corpo das mulheres?
“Eu sou um corpo, um ser, um corpo só/Tem cor, tem corte/E a história do meu lugar, ô/Eu sou a minha própria embarcação/Sou minha própria sorte” (Luedji Luna).
Falar de feminicídio no Brasil, para mim, começa no corpo. No meu corpo. No corpo de uma mulher negra: um corpo que a história aprendeu a tratar como território disponível. É desse lugar que a canção de Luedji Luna me atravessa: um corpo que fala, que se nomeia, que não se deixa dissolver no silêncio. Um corpo em travessia, mesmo quando o mundo insiste em reduzi-lo, feri-lo, apagá-lo. Um corpo que segue… porque seguir, aqui, já é forma de existir e de resistir.
É a partir desse corpo situado que o feminicídio precisa ser compreendido como expressão de uma estrutura que organiza e sustenta essas violências no cotidiano social. Vivemos em um país que convive, todos os dias, com a morte de mulheres pelo simples fato de sermos mulheres, e que, paradoxalmente, reage com estranhamento quando emergem práticas de cuidado, denúncia e proteção. Agem como se a violência fosse um “caso mal resolvido”, e não um fenômeno social e político de larga escala.
No fundo, o que está em disputa é o valor atribuído a certos corpos: quem merece proteção, quem tem sua dor legitimada, quem pode cuidar e denunciar.
Entre os casos de feminicídio que atravessaram o Brasil com força suficiente para romper o silêncio público, repetem-se histórias sustentadas por motivos absurdos, justificativas miseráveis e uma lógica persistente de posse sobre o corpo feminino:
- Ângela Diniz, assassinada em 30/12/1976, teve sua morte transformada em espetáculo jurídico sob a tese da “defesa da honra”;
- Eliza Samudio, morta em 10/06/2010, foi silenciada após exigir o reconhecimento do filho;
- Em 22/07/2018, Tatiane Spitzner foi jogada da sacada do próprio apartamento;
- Clara Rodrigues, assassinada em 09/03/2025, morreu por cobrar uma dívida irrisória;
- Maria Rodrigues dos Santos, grávida, foi morta em casa em 24/03/2024: dois corpos interrompidos, o lar convertido em cenário de extermínio;
- Tainara Souza Santos, em 29/11/2025 foi cruelmente dizimada enquanto era arrastada, em um ato que levou a violência ao seu grau mais extremo, vindo a falecer em 24/12/2025.
Esses nomes são estilhaços de um cotidiano que mata, fragmentos de um país que consente que mulheres tombem por simplesmente existir. Cada ano inscrito aqui rasga o tempo e abre uma ferida que nos atravessa e expõe que a violência persiste porque o silêncio, tantas vezes, ainda é escolhido.
O feminicídio emerge, assim, como uma das expressões mais cruéis do sistema que organiza nossas relações sociais e de poder. Essa violência se sustenta na força direta e, com igual intensidade, em mecanismos sutis que inscrevem as hierarquias no cotidiano e as fazem parecer parte natural da vida. Trata-se de uma violência discreta, quase imperceptível, que se infiltra nos corpos, nos gestos e nas expectativas socialmente produzidas, dificultando seu reconhecimento, inclusive por nós, que a vivenciamos (Bourdieu, 2012). Esse debate clama: enquanto nossos corpos forem reduzidos a estatística, o país seguirá naturalizando a brutalidade e chamando de normal o que é extermínio.
Os números ajudam a dimensionar a violência: em 2024, o Brasil registrou 1.492 feminicídios, o que significa que quase quatro mulheres foram mortas por dia. Além disso, houve 3.870 tentativas de feminicídio, um crescimento expressivo em relação ao ano anterior, indicando que a violência se intensifica. A maioria das vítimas era mulher negra, morta dentro de casa e por companheiros ou ex-companheiros, alertando que o espaço doméstico segue como um dos lugares mais perigosos para a vida feminina.
Esses dados deixam denunciam a engrenagem que os produz, ao afirmar que o racismo organiza a sociedade brasileira como uma racionalidade fundada na supremacia eurocristã, Lélia Gonzalez (2020) nos instiga a compreender por que a violência se distribui de forma desigual: essa lógica atravessa as relações de gênero, hierarquiza corpos e faz com que as vidas de mulheres, sobretudo mulheres negras, sejam tratadas como menos urgentes à indignação pública, à proteção do Estado e às políticas efetivas de prevenção.
Nesse cenário, o cuidado irrompe como gesto insurgente: cuidar, denunciar, acolher, tecer redes de escuta desloca a indiferença do centro e convoca a responsabilidade coletiva. Como alerta Suely Rolnik (2018), a política começa no corpo, na potência de ser afetado e de responder às forças do mundo. O cuidado incomoda porque reabre essa fenda sensível, e quem se permite ser afetado já não consegue sustentar a ficção de que não vê.
O feminicídio se afirma, assim, como crime político: sua repetição expõe uma sociedade que ainda aceita a desvalorização das vidas femininas e as mantém expostas a uma violência estrutural. A urgência vai além da resposta penal isolada. A efetivação de políticas públicas exige deslocamentos complexos, mudanças culturais concretas, capazes de interromper a lógica que naturaliza a morte.
As perguntas que restam exigem deslocamento de práticas: quantas vidas ainda precisarão ser interrompidas até que a indiferença ceda lugar à responsabilidade coletiva? Quantas formas de cuidado continuarão sendo desautorizadas até que se reconheça que a violência habita a própria estrutura que nos expõe? Enfrentá-la passa por muitas frentes, mas também por admitir que, mesmo quando sobrevivemos, a violência retorna, no descrédito, na culpabilização, no silenciamento que insiste em nos ferir outra vez.
Nesse contexto, algumas mulheres têm escolhido suspender a vida sexual como estratégia de cuidado e autoproteção, um gesto de preservação do desejo diante da exaustão e da violência reiterada. Uma pausa do corpo que desloca a idealização do amor e responde à necessidade de permanecer inteira em um mundo que insiste em ferir, inclusive quando se anuncia como afeto.
Colocar a vida no centro é deslocar o mundo do lugar. Reorganiza prioridades, rasga privilégios, abala o poder que se mantém pelo hábito de não ver. Dói porque exige renunciar à conveniência de viver como se a morte das mulheres não nos atravessasse. Essa ética incomoda porque expõe a fragilidade de um sistema que só permanece enquanto a vida não se torna central.
E, como nos lembra Elza Soares, em Maria da Vila Matilde:
“Cadê meu celular?
Eu vou ligar pro 180,
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço.”
É voz que se afirma. É gesto de potência. É exigência de vida… Sempre.
Mini bio
Weigma Michely da Silva é professora da SEDUC-TO há 25 anos, doutora pela UFNT e mestra pela UFT. Entre linguagem, literatura e educação, constrói percursos de ensino como quem cartografa afetos e resistências. A partir de uma perspectiva afroameríndia, afirma a palavra como gesto político e a sala de aula como território de reinvenção do mundo.
Crônicas Feministas | ACCA
Um espaço de escrita para pensar o mundo desde as mulheres.
Ler no site da ACCA




