Do Estúdio ao Blog transforma as conversas do programa ACCA: Autonomia Feminina em textos que aprofundam contextos, trajetórias e ferramentas de ação. Nestes episódios, Luciana Caetano, primeira bailarina negra de Goiânia, dialoga com Márcia sobre corpo, criatividade, saúde mental, racismo, envelhecimento e liberdade — e mostra por que o movimento é uma linguagem de autonomia.

O corpo feminino — especialmente o corpo feminino negro — sempre carregou marcas, imposições e silenciamentos. Mas também carrega poder, memória e criação. Nos Episódios 19 e 20, Luciana Caetano reconstrói sua história de cinco décadas na dança e revela como movimento, coragem e cuidado podem transformar existência e território.

Corpo como resistência: quando a dança abre caminhos

Logo no início da conversa, Luciana apresenta o corpo como eixo de tudo: comida, reza, trabalho, criação, cuidado e espiritualidade. Ser mulher preta na dança significou enfrentar racismo institucional, desafios cotidianos e a pressão social sobre o corpo feminino.

Assim como Mercedes Batista, homenageada no doc-pílula que abre o episódio, Luciana ocupa o palco como reinvenção e ruptura.

“Dançar é insurgir. É abraçar a ancestralidade e reconstruir a cidade como território de pertencimento.”

Sua trajetória atravessa grandes grupos, como Quasar, passa pela fundação do Grupo Galpão e do Grupo Solo, e se expande para educação, coreografia, pilates, culinária, rezas e práticas de cura. O movimento não é apenas técnica — é existência.

Luciana Caetano dançando dança contemporânea
Dança, educação, cuidado e resistência: múltiplos territórios no corpo de Luciana.

Redes, coletividade e a “máfia da arte”

Um ponto forte da fala de Luciana é que ninguém constrói nada sozinha. Iluminadores, costureiras, músicos, professores, bailarinos, vizinhos, estudantes: todos formam a rede que sustenta a criação.

Luciana chama isso de “máfia da arte” — uma família ampliada que compartilha potência, inventividade e cuidado. Essa rede é também uma forma de resistência ao racismo, ao machismo e às desigualdades estruturais.

“O que me sustenta é a rede. A autonomia nunca é só minha.”

O impacto do racismo e do machismo no corpo

Luciana narra episódios de racismo institucional — bancos, portarias, processos burocráticos — e destaca como essas violências minam energia e autonomia.

Ao engravidar, ouviu de várias pessoas que jamais dançaria de novo. A maternidade, para ela, revelou outro corpo possível — e outro modo de estar no mundo.

“Parecia que gravidez era doença. Mas eu voltei. Reaprendi o corpo. Reaprendi a minha força.”

Essas experiências mostram como o corpo feminino é vigiado, julgado e limitado — e como se torna revolucionário romper essas cercas.

Quando o corpo vira ação

Em um momento central da conversa, Luciana é direta: para dançar, é preciso coragem. E também terapia — porque a dança começa dentro, nos medos, nas vozes guardadas e nas comparações que paralisam.

A maior prisão é a comparação com outras mulheres. A maior libertação é o próprio gesto.

“O movimento ideal é o seu. Cada corpo dança a partir da sua história.”

A dança contemporânea, segundo ela, acolhe todas as formas, idades e trajetórias. O que importa é permitir-se.

Dançar em casa: o primeiro passo para a autonomia

Antes de buscar escola, mestre ou companhia, Luciana recomenda um começo radicalmente simples:

  • Ligue uma música.
  • Dance sozinha.
  • Dance no banho.
  • Dance sem roupa.
  • Dance no quarto, na sala, no mercado.

A primeira liberdade é íntima. A autonomia nasce quando o corpo deixa de pedir licença.

“Se você consegue dançar sozinha, você consegue dançar em qualquer lugar.”

Corpo, saúde mental e coragem de existir

Para Luciana, corpo e mente são inseparáveis. A dança contribui para a saúde mental porque rompe padrões, cria presença e permite que cada pessoa ocupe o próprio território.

O movimento é cura. E a autonomia é uma desconstrução diária:

  • romper o medo,
  • falar o que incomoda,
  • não guardar violências,
  • ocupar espaço no mundo.
“Quem não ocupa seu lugar é empurrado para fora. Não existe espaço vazio.”

Arte, ativismo e urgência política

Luciana integra corpo, arte e luta: participa da Coletiva Preta, cria a marca Citiciana Natureza e Vida, produz espetáculos, aulas e processos criativos que enfrentam racismo, patriarcado, misoginia e etarismo.

Sua vida é resistência em movimento.

“Eu me apresento inteira. O corpo é território político.”

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