Corpos fabricados, autonomias em disputa: violência digital no cotidiano por Adila Eugênia Brindel | Crônicas Feministas

Corpos fabricados, autonomias em disputa: violência digital no cotidiano | Crônicas Feministas | ACCA
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Ádila Eugenia Brindel

Corpos fabricados, autonomias em disputa: violência digital no cotidiano

08 de janeiro de 2026 Crônicas Feministas ACCA — Associação Cultura, Cidade e Arte
Há violências que se anunciam como “novidade tecnológica”, mas operam como rotina. E a rotina, quando normaliza a violação, reorganiza o corpo, o tempo e o silêncio.

Há dados que ferem. Um deles insiste em retornar: o Grok está gerando cerca de uma imagem sexualizada não consensual por minuto. Tento repetir a frase em silêncio, como quem testa o peso de uma palavra nova. Um minuto. Outro. Mais um corpo fabricado. Não se trata de erro técnico nem de mau uso excepcional. Trata-se de funcionamento cotidiano. Integrado à plataforma X, o chatbot da xAI, empresa de Elon Musk, responde com eficiência a comandos simples: “coloque-a em lingerie”. A máquina obedece. O corpo aparece. O consentimento não.

O que circula na tela fica no corpo.

O caso da cantora Sabrina Carpenter, amplamente noticiado, não chama atenção por sua gravidade, mas por sua banalidade. No Brasil, a prática ganhou repercussão quando a jornalista Julie Yukari denunciou à polícia que teve fotos manipuladas pela mesma ferramenta, no último dia 2 de janeiro de 2026. Pela lei brasileira, a criação e o compartilhamento de imagens íntimas falsas sem autorização é crime e pode levar à punição dos responsáveis

Uma foto pública, um pedido explícito, uma resposta imediata da máquina. Sem hesitação, sem mediação, sem freio. O que assusta não é apenas o resultado, mas a fluidez do processo. Tudo acontece rápido demais, como se despir mulheres fosse apenas mais uma função disponível no menu.

Nem toda conexão é encontro. Às vezes é captura.

Mas a violência não se detém nas figuras públicas. No Brasil, mulheres anônimas descobrem versões falsas de seus corpos circulando nas redes. Algumas reconhecem o próprio rosto; outras reconhecem apenas a sensação: choque, vergonha, sujeira. Como relatou uma das vítimas ao jornal g1 em 8 de janeiro de 2026, “na foto original eu estava de calça”, um detalhe que pesa mais que qualquer tecnicismo, porque o corpo real não escolheu e o corpo fabricado circula sem permissão. A violência não acontece na imagem, mas acontece no corpo que permanece aqui, tentando compreender o que foi arrancado sem toque.

É nesse ponto que algo precisa ser entendido com clareza incômoda: a violência digital não exige contato físico para produzir efeitos materiais, emocionais e políticos profundos. Ela opera à distância, mas não é abstrata. Ela atravessa o cotidiano, reorganiza gestos, instala medo, ensina silêncios.

A violência mais eficaz é a que não precisa se explicar.

O alerta da Organização das Nações Unidas, reiterado no Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, não é apenas mais um lema institucional: ele confirma, uma vez mais, o que muitas já sentem na pele e no corpo. Em 25 de novembro de 2025, a ONU destacou que tecnologias digitais e ferramentas de inteligência artificial podem exacerbar padrões existentes de violência e criar novas formas de abuso que atingem desproporcionalmente mulheres e meninas, tornando o ambiente digital um dos espaços mais intensamente vividos dessa violência, e não uma exceção a ela.

O que esses episódios revelam, portanto, não é apenas abuso individual nem desvio moral de usuários isolados. Revelam uma estrutura cotidiana de violência, sustentada por plataformas que operam sem responsabilização proporcional aos danos que produzem.

A pergunta não é só “o que aconteceu?”. É “como se repete?”.

Quando se observa com mais atenção, fica difícil sustentar a ideia de que a violência digital seja um conjunto de episódios isolados, desvios morais ou usos indevidos de tecnologias neutras. O que emerge, ao contrário, é um padrão: ataques coordenados, silenciamentos recorrentes, exposição seletiva de certos corpos, vigilância concentrada sobre determinadas vidas. A violência não aparece como exceção que rompe o sistema, mas como parte de sua engrenagem cotidiana. Ela se distribui de forma desigual, seguindo linhas conhecidas de gênero, raça, classe, sexualidade e território.

Pesquisas das geografias digitais feministas têm mostrado que o digital não inaugura essas hierarquias, ele as reorganiza espacialmente, deslocando-as para novas escalas, ritmos e formas de circulação. Ataques online funcionam como extensões de violências históricas, agora mediadas por plataformas, algoritmos e economias de atenção. O que muda não é a lógica da dominação, mas seus modos de operação: mais rápidos, mais difusos, menos localizáveis. O linchamento não precisa mais de praça pública; basta uma timeline. A perseguição não exige proximidade física; basta um perfil, um print, um compartilhamento.

Há corpos que pagam o preço da visibilidade.

Nesse sentido, a violência digital se sustenta por códigos, técnicos e morais. Assim como o código computacional organiza o que pode ou não circular, normas sociais regulam quais corpos são considerados legítimos, desejáveis ou descartáveis no espaço online. Corpos dissidentes, femininos, racializados ou empobrecidos tornam-se mais expostos, mais governáveis, mais vulneráveis à captura. A tecnologia não apenas hospeda essas dinâmicas: ela aprende com elas e as reproduz. A violência deixa de ser apenas um ato e passa a ser uma condição de existência no ambiente digital para muitos sujeitos.

O que se revela, então, é uma forma de governo do cotidiano. Plataformas que prometem conexão operam simultaneamente como infraestruturas de vigilância, normalização e controle. Mulheres, pessoas racializadas e grupos historicamente marginalizados são sobre-expostos à observação, à avaliação e à punição, seja pelo Estado, seja por mercados de dados, seja por multidões digitais mobilizadas pelo ódio ou pelo desejo. A violência, nesse contexto, não é um acidente a ser corrigido posteriormente, mas um efeito previsível de sistemas desenhados para extrair valor da visibilidade e da circulação incessante.

Autonomia não é coragem infinita. É escolha possível.

Reconhecer a violência digital como estrutura cotidiana exige deslocar o olhar: sair da pergunta “o que aconteceu?” e insistir em “como isso se repete?”. Exige também aceitar uma constatação incômoda: viver no digital, para muitos corpos, significa negociar continuamente com o risco. É a partir dessa negociação permanente, entre exposição e retirada, presença e silêncio, que a questão da autonomia se torna inevitável. Não como promessa abstrata, mas como problema concreto.

Autonomia em disputa

Durante anos, o discurso da transformação digital insistiu em associar conectividade à liberdade. Aprender, compartilhar, colaborar, tudo parecia possível, mais rápido e mais acessível. A autonomia, nesse imaginário, aparecia como consequência natural do acesso: bastaria estar conectada, ter um dispositivo, criar um perfil. Mas essa promessa começa a ruir quando observada de perto. Para muitas mulheres, estar online não é sinônimo de ampliação de possibilidades, mas de exposição constante, vigilância difusa e necessidade permanente de cálculo. A autonomia, longe de ser dada, torna-se algo a ser negociado todos os dias.

Há um silêncio que não é ausência. É estratégia.

Essa negociação não acontece em condições iguais. Barreiras econômicas, desigualdades educacionais, normas culturais, responsabilidades domésticas e o próprio desenho masculinizado das tecnologias moldam quem pode usar o digital com relativa segurança e quem paga um preço mais alto por essa presença. Em muitos contextos, o obstáculo já não é apenas o acesso, mas o sentido: por que permanecer em um espaço que produz medo, cansaço e deslegitimação? A ausência, nesse caso, não é desinteresse, mas resposta. Quando o ambiente digital se apresenta como hostil, retirar-se pode ser um gesto racional, ainda que esse gesto seja lido como exclusão ou fracasso.

Falar em autonomia, portanto, exige deslocar o conceito. Autonomia não é autonomia se depende da tolerância à violência. Não é autonomia se pressupõe adaptação infinita a sistemas que não protegem. Ela emerge, quando emerge, como prática situada, coletiva e imperfeita: no aprendizado compartilhado, na escolha de quando falar e quando calar, na construção de redes de apoio que tornam a presença possível sem anular o corpo. Nesse sentido, a autonomia não se opõe à vulnerabilidade; ela nasce justamente do reconhecimento de que existir no digital é, para muitas, um exercício contínuo de risco administrado.

Cuidado também é tecnologia.

É no cotidiano, longe das grandes promessas e dos discursos oficiais, que muitas mulheres inventam formas possíveis de permanecer. A resistência não aparece como gesto heroico, mas como prática miúda: bloquear sem explicar, silenciar grupos, restringir a circulação da própria imagem, falar apenas em espaços de confiança, aprender a desaparecer quando a presença se torna perigosa. Esses gestos, frequentemente interpretados como retraimento ou fraqueza, são, na verdade, estratégias de sobrevivência em territórios digitais hostis. Resistir, aqui, não significa ocupar o centro da cena, mas preservar algum grau de controle sobre o próprio corpo, o próprio tempo e a própria atenção.

O cotidiano também produz tecnologias que raramente são reconhecidas como tais. Redes de cuidado se formam na troca de alertas, no ensino informal de como denunciar, registrar provas, lidar com o medo, reconstruir a confiança depois da violação. Esse conhecimento nasce da experiência compartilhada da violência e circula fora dos vocabulários dominantes da inovação. O cuidado, nesse contexto, opera como tecnologia social: uma infraestrutura relacional que sustenta a autonomia possível. Não elimina o risco, não promete segurança plena, mas cria brechas onde a vida insiste em continuar, mesmo sob vigilância, mesmo sob cansaço, mesmo sem garantias.

Este debate não reivindica neutralidade. Diante da violência digital, o distanciamento analítico pode facilmente se tornar uma cumplicidade silenciosa. Quando plataformas permitem que corpos sejam fabricados, expostos e violados com eficiência técnica, não estamos diante de falhas pontuais, mas de escolhas estruturais. A violência não surge apesar do sistema, ela emerge de um modelo que transforma visibilidade em valor e engajamento em lucro, mesmo quando esse engajamento é produzido pelo medo, pelo ódio ou pelo humilhação.

Nós, geógrafas feministas, recusamos também a lógica que desloca a responsabilidade para quem sofre a violência. A insistência em que mulheres aprendam a se proteger melhor, a configurar corretamente suas contas ou a “usar com cuidado” as tecnologias ignora o fato de que o risco é estrutural e desigualmente distribuído. Posicionar-se politicamente, aqui, é afirmar que autonomia não pode significar suportar violência como condição de participação. É defender uma ética feminista do digital que reconheça o direito ao cuidado coletivo como dimensões legítimas da vida online. Não se trata de imaginar um futuro sem conflito, mas de recusar um presente em que a violação é tratada como custo aceitável da inovação.

Talvez a pergunta não seja como tornar o digital mais seguro, mas como continuar existindo nele sem perder o próprio contorno.

A violência não se anuncia; ela se infiltra. Aparece no gesto interrompido antes de postar, na frase apagada antes de enviar, no cansaço que antecede o silêncio. Nesse cenário, a autonomia deixa de ser promessa abstrata e passa a ser prática delicada, feita de escolhas pequenas, por vezes contraditórias. Permanecer, sair, voltar, falar, calar, reaparecer. Cada gesto é uma negociação com um ambiente que raramente oferece garantias.

O que está em jogo, então, não é apenas a regulação das tecnologias ou a correção de excessos, mas o que aceitamos como normal. Normalizar que mulheres precisam se esconder para não serem violentadas é aceitar um empobrecimento radical da vida pública. Normalizar que a inovação avance deixando corpos feridos pelo caminho é confundir progresso com indiferença. Imaginar outros arranjos digitais talvez não exija grandes promessas futuristas, mas atenção às brechas já existentes: nos gestos de cuidado, nas redes de apoio, nas recusas silenciosas que insistem em afirmar dignidade mesmo quando não há proteção institucional.

Este debate não se encerra porque a autonomia não é garantida, ela é testada diariamente. Pensar violência digital é aceitar que a tecnologia não emancipa por si só, e que a internet pode tanto ampliar quanto restringir possibilidades de vida. A pergunta que insiste, e que atravessa esta reflexão, é: até que ponto, e sob quais condições, as tecnologias digitais podem ser usadas para a autonomia e a emancipação das mulheres? Enquanto essa resposta for atravessada pelo medo, pela vigilância e pela exposição desigual dos corpos, a tarefa de interrogar, resistir e reinventar o digital permanece aberta.

Referências utilizadas para construir o texto

ELWOOD, Sarah; LESZCZYNSKI, Agnieszka. Feminist digital geographies. Gender, Place & Culture, Londres, v. 25, n. 5, p. 629–644, 2018. DOI: https://doi.org/10.1080/0966369X.2018.1465396.

BENÍTEZ LARGHI, Sebastián. Gender Dimension of Digital Technologies. Coordenação: Roseanne Diab; Peter McGrath; Manuela Schipizza. Trieste: GenderInSITE, 2021. ISBN: 978-88-944054-3-9. Disponível em: https://genderinsite.net/sites/default/files/GenderDimensionOfDigitalTechnologies.pdf. Acesso em: 8 jan. 2026.

GROK is generating about “one nonconsensual sexualized image per minute”. Rolling Stone, New York, 6 jan. 2026. Disponível em: https://www.rollingstone.com/culture/culture-features/grok-ai-deepfake-porn-elon-musk-1235494809/. Acesso em: 8 jan. 2026.

HELDER, Darlan. “Sentimento horrível. Me sinto suja”, diz brasileira vítima de foto editada de biquíni pelo Grok, IA de Musk. G1, Rio de Janeiro, 8 jan. 2026, 05h00. Disponível em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2026/01/08/sentimento-horrivel-me-sinto-suja-diz-brasileira-vitima-de-foto-editada-de-biquini-pelo-grok-ia-de-musk.ghtml. Acesso em: 8 jan. 2026.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. ONU alerta: violência digital alimenta nova onda de abuso contra mulheres e meninas. Notícias ONU Brasil, 25 nov. 2025. Disponível em: https://news.un.org/pt/story/2025/11/1851619. Acesso em: 8 jan. 2026.

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