Do Estúdio ao Blog:
A Cidade Como Projeto de Exclusão com Karla Hora
Quando cidades são desenhadas sem mulheres, tornam-se dispositivos de controle, exaustão e violência. Reinventar o urbano é reinventar a vida.
Do Estúdio ao Blog transforma as conversas do programa ACCA: Autonomia Feminina em textos que aprofundam contextos, trajetórias e ferramentas de ação. Nestes episódios, Karla Hora, arquiteta urbanista, professora da UFG e militante social, dialoga com Márcia sobre direito à cidade, racismo ambiental, mobilidade do cuidado e territórios do bem viver, e mostra por que repensar o urbano é condição para autonomia feminina.
As cidades brasileiras, desenhadas por homens brancos para fluxos de capital, não para vidas de mulheres, materializam opressões de gênero, raça e classe. Mas as periferias pulsam, mulheres ocupam praças, constroem lavanderias comunitárias e reinventam territórios. Nos Episódios 23 e 24, Karla reconstrói sua trajetória entre urbanismo, luta por moradia e feminismo, e revela como organização social, política de cuidados e autonomia conquistada podem transformar cidades em espaços de dignidade e existência plena.
De Quem é a Cidade? Urbanismo Patriarcal e Invisibilidade Epistêmica
A pergunta não é retórica: de quem é a cidade? Quem nomeou suas ruas, desenhou suas praças, decidiu onde termina o centro e começa a periferia? Henri Lefebvre, em O Direito à Cidade (1968), argumenta que o urbano foi sequestrado pela lógica capitalista, transformando espaço vivido em mercadoria. Mas Lefebvre, como a maioria dos pensadores clássicos do urbanismo, não perguntou: qual cidade foi sequestrada? A cidade de quem?
Karla Hora, arquiteta urbanista, professora e militante, complementa essa análise: as cidades foram desenhadas sem mulheres e contra mulheres. Não apenas ausentes das equipes técnicas, mas apagadas da história do planejamento urbano. “Todo mundo já ouviu falar de Oscar Niemeyer, Lúcio Costa. Mas quantos ouviram falar de Lina Bo Bardi? Quantas mulheres que discutiram e planejaram a cidade?” A invisibilidade não é esquecimento: é epistemicídio, apagamento sistemático da produção intelectual feminina.
“Se a cidade fosse pensada por nós e para nós mulheres, ela seria outra. Completamente outra.” — Karla Hora
Milton Santos nos ensinou que território é espaço materializado, produto de relações sociais e disputas de poder. Se o território materializa relações, a cidade brasileira materializa patriarcado, racismo e capitalismo. Os nomes das ruas em Goiânia (Pedro Ludovico, Marcha para o Oeste, Bandeirantes) não são apenas topônimos: são narrativas coloniais gravadas no asfalto, lembretes cotidianos de quem teve direito a nomear, ocupar, existir.
Mobilidade do Cuidado: Deslocamentos Invisíveis, Trabalho Não Reconhecido
O planejamento urbano clássico pensa a cidade através do binômio casa-trabalho: trajetos lineares, mobilidade produtiva, sujeitos abstratos que saem de casa pela manhã, trabalham e retornam à noite. Mas esse sujeito universal não existe. Ou melhor: esse sujeito é homem, branco, classe média, sem responsabilidades de cuidado.
Karla desconstrói essa ficção com precisão cirúrgica. Quando uma mulher sai para trabalhar, ela não faz um trajeto linear. Ela faz trajetos em zigue-zague: casa-creche-escola-farmácia-supermercado-trabalho. E à noite, o mesmo percurso invertido. Essa mobilidade do cuidado, invisível para urbanistas que pensam apenas fluxos produtivos, consome horas, energia física e emocional. “Você imagina fazer isso tudo dependendo de transporte público? Você imagina fazendo isso a pé, com ruas sem calçamento adequado, sem acessibilidade?”
“Essa mulher fica inviabilizada do mundo do trabalho, porque ela não consegue chegar na creche, chegar na escola, passar na farmácia, ir no supermercado e chegar em tempo no trabalho. Ela vai ter que fazer opções: ou cuidar da família ou manter a autonomia econômica.” A cidade, portanto, não é neutra. Ela decide quem pode trabalhar, quem pode descansar, quem pode existir plenamente.
Se a cidade fosse desenhada para mulheres, argumenta Karla, essa articulação entre trabalho doméstico, trabalho de cuidados e trabalho remunerado seria equacionada com atividades funcionais acontecendo no mesmo círculo ou nas proximidades. Creches próximas aos locais de trabalho. Supermercados integrados a equipamentos públicos. Lavanderias comunitárias que liberem tempo para formação, lazer, descanso.
Racismo Ambiental: Quando a Cidade Escolhe Quem Vive e Quem Morre
A geógrafa Doreen Massey argumenta que espaço é produto de relações sociais, sempre permeado por poder. Quando perguntamos “onde vivem as mulheres negras e pobres?”, a resposta revela a operação do que Karla nomeia como racismo ambiental: a penalização sistemática de comunidades negras e periféricas através da precarização territorial.
Racismo ambiental não é apenas poluição ou proximidade de lixões (embora também seja isso). É a ausência programada de infraestrutura urbana. É viver em áreas sem esgotamento sanitário, sem acesso frequente à água potável, sem iluminação pública, sem pavimentação, sem microdrenagem. “Chove demais, alaga. Chove demais, dá goteira na habitação. Chove demais, o transporte não passa para levar a criança.”
Karla conecta racismo ambiental com vulnerabilização das mulheres. São elas que caminham em ruas sem iluminação, que carregam água quando falta abastecimento, que improvisam soluções quando a infraestrutura colapsa. São elas que, nos eventos climáticos extremos (cada vez mais frequentes), perdem casas, móveis, documentos. E são elas que, sem rede de proteção, recomeçam do zero.
“As comunidades negras e pobres são penalizadas na cidade. E se olho o perfil dessa comunidade, é uma mulher. Então são as mulheres negras, pretas e pobres que acabam ocupando áreas sem o mínimo de infraestrutura.”
Karla Hora e Márcia Pelá durante a gravação dos episódios 23 e 24 — Foto: ACCA / 2025
Política Nacional de Cuidados: Socializar o Trabalho Reprodutivo
bell hooks nos ensinou que feminismo é para todo mundo. Não se trata de libertar mulheres para que trabalhem mais, mas de reorganizar a sociedade para que o cuidado seja responsabilidade coletiva, não fardo individual feminino. A Política Nacional de Cuidados, reivindicada por movimentos de mulheres e recentemente implementada pelo governo federal, materializa essa compreensão.
Karla destaca especialmente as lavanderias comunitárias, equipamento público gerido pela comunidade que não se resume a lavar e secar roupas. “Nesse edifício, você vai ter sala de formação, biblioteca, cozinha comunitária, brinquedoteca, horta.” A lavanderia é pretexto para criar território de encontro, socializar trabalho doméstico que, isolado dentro de cada casa, exaure mulheres.
Cuidar de Quem Cuida: Equipamentos Urbanos como Infraestrutura de Liberdade
A pergunta que Karla insiste em fazer é: quem cuida de quem cuida? Transformada para a cidade: como a cidade cuida das mulheres? A resposta, até agora, é clara: não cuida. Pelo contrário, a cidade consome mulheres. Extrai trabalho, tempo, saúde mental. As estatísticas de depressão e ansiedade entre mulheres não são desconectadas do desenho urbano que as exaure.
Quando Karla defende lavanderias comunitárias, creches próximas aos locais de trabalho, espaços de lazer acessíveis, ela está defendendo infraestrutura de liberdade. Equipamentos que criem tempo. Tempo para estudar, descansar, criar, sonhar. Tempo que hoje é devorado por deslocamentos impossíveis e trabalho doméstico solitário.
“Se a gente pudesse ter mais espaços de socialização do trabalho doméstico, esse tempo que a mulher faz sozinha de forma exaurida, ela poderia se dedicar a outras coisas, inclusive ao lazer. Como é que a cidade cuida das mulheres? A cidade oferece equipamentos de lazer, equipamentos para que as mulheres possam descansar e desfrutar de artes?”
Territórios do Bem Viver: Periferias que Pulsam, Resistências que Transformam
Apesar da violência estrutural que o urbanismo patriarcal inflige, periferias pulsam. Karla insiste nessa afirmação: “A periferia pulsa mesmo, pulsa muita coisa, muita coisa bacana.” Mulheres periféricas, especialmente mulheres negras, criam redes de apoio mútuo, ocupam praças com hip-hop, constroem hortas comunitárias, organizam brigadas de combate à violência.
O conceito de territórios do bem viver sintetiza essa práxis. Territórios onde pessoas cuidam de pessoas, onde há espaço para encontro, troca de ideias, organização produtiva. Territórios que possibilitam autonomia, não como dádiva do Estado, mas como conquista coletiva. “O que significa autonomia? Dar condição dessa mulher viver a partir dela e por ela, na sua existência, na sua plenitude.”
Karla conecta territórios do bem viver com autonomia econômica como condição de saída do ciclo de violência. “Quantas mulheres não terminam uma relação porque dependem financeiramente do marido? Que são obrigadas a conviver num círculo vicioso de violência psíquica, física, patrimonial?” Autonomia financeira não resolve tudo, mas sem ela, muitas mulheres permanecem presas.
Organização Social: Não Existe Transformação sem Luta Coletiva
Quando perguntada sobre o que dizer para mulheres que têm medo de ocupar espaços públicos, Karla é direta: “Organização social e trabalho coletivo. A gente não faz nada sozinha. Essa cultura do individualismo precisa ser deixada de lado. A gente precisa pegar na mão uma das outras e nos fortalecermos em luta cotidiana.”
As políticas públicas que ela defende (Política Nacional de Cuidados, Periferia Viva, lavanderias comunitárias) não surgiram da benevolência estatal. Surgiram da pressão organizada de movimentos de mulheres, associações de favelas, pastoral da favela, coletivos periféricos. O Estado executa políticas públicas a reboque dos movimentos sociais.
Karla cita o exemplo das meninas do hip-hop que ocupam praças para fazer suas batalhas, transformando espaço público em território de cultura e resistência. Ou as mulheres que, no mutirão de autoconstrução, carregam tijolos nos finais de semana para garantir moradia digna. São práticas de re-existência: inscrever-se na cidade que tentou expulsá-las.
“A gestão urbana tem que conhecer essas periferias, essas múltiplas periferias que pulsam, essas experiências completamente exitosas, seja da arte-cultura, seja da lavanderia, seja do apoio das mulheres.”
Autonomia Feminista: Conquista, Não Concessão
No fechamento dos episódios, Karla explicita sua concepção de autonomia feminista: “Não é eu que dou autonomia para ninguém. A autonomia a gente conquista. Conquista como? Se reconhecendo nas outras mulheres, se reconhecendo na luta social e fazendo a transformação conjunta.” Autonomia não é individual, não é meritocrática, não é dádiva.
É práxis coletiva: ação refletida, politicamente consciente, que transforma simultaneamente sujeitos e estruturas. É garantir que mulheres possam ter não só oportunidades de trabalho e renda, mas também tempo para lazer, descanso, fruição, escolha. “Muitas mulheres têm medo de usar determinadas roupas, com medo de que alguém vai falar ou vai ser agredida. Eu preciso garantir liberdade para fazer as escolhas.”
Karla encerra com uma convocação: direito não se discute, direito se luta por ter. E a cidade, do ponto de vista da gestão, tem que reconhecer isso. Porque transformar a cidade é também transformar a vida. É integral: econômico, social, psicológico, sentimental. Tudo que garante autonomia está materializado na cidade. Então vamos juntas e juntos construir uma cidade que caiba todos e todas.
Leituras e Episódios Relacionados
- 🎧 Episódio 23 — Mulheres na Cidade com Karla Hora (Parte 1)
- 🎧 Episódio 24 — Mulheres na Cidade com Karla Hora (Parte 2)
Cidade se Transforma com Luta Coletiva
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