Mulheres nascem duas vezes por Jade Klaser | Crônicas Feministas

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Mulheres nascem duas vezes

Por Jade Klaser
13 de fevereiro de 2026 Crônicas Feministas ACCA
Mulheres nascem duas vezes: quando chegam ao mundo e quando descobrem que não precisam obedecer a ele.

A primeira, quando chegam ao mundo.
A segunda, quando descobrem que não precisam obedecer a ele.

Algumas aparecem nos livros de história.
Mas muitas vivem na história de todas nós.
Estão no rompimento silencioso das tradições, nos gestos das que ousaram provocar e romper.
Das que abriram rachaduras e se tornaram sementes para as que ainda virão.

São mulheres que aprenderam que a liberdade não nos é dada, é conquistada.
Às vezes nasce da renúncia, das escolhas difíceis, dos fins inevitáveis.

É o risco calculado de perder tudo o que foi imposto para ganhar, enfim, o que nunca foi oferecido.

E sim, é luta. Substantivo feminino.

Mulheres que decidem não ser mãe,
não porque lhes falte amor,
mas porque lhes sobra consciência.
Mulheres que não querem casar, ou continuar em relacionamentos falidos e não precisam e
não querem carregar sobrenomes, expectativas ou alianças que pesam mais do que protegem.

Mulheres que não se medem pela régua de ninguém, porque sabem que essa régua foi feita para caber em um mundo com um molde masculino, estreito, antigo.

E eles chamam isso de egoísmo.
Chamam de rebeldia.
Chamam de problema, de difíceis.

Mas essas mulheres sabem:
o nome verdadeiro disso é autonomia.

E ser autônoma dói.

Dói porque exige desistir.
Desistir de agradar.
Desistir de papéis herdados.
Desistir do conforto da obediência.
Desistir da vida que disseram ser “a correta”.

Mas há desistências que libertam mais do que todas as vitórias.

Há separações que não são fim, são começo.

Há renúncias que não são perda, são respiro.

E, quando respiram, essas mulheres mudam a paisagem.

Nascem como árvores que rompem o cimento, como rios que reencontram o curso original, como fogueiras que insistem em arder, mesmo depois de tantas tentativas de apagamento.

A política delas é desobediência.
A política da vida delas é invenção.
A política do futuro delas é não pedir permissão.
A política do corpo delas é dizer não.

Porque toda vez que uma mulher escolhe o próprio caminho, o patriarcado se fragiliza um pouco.

Toda vez que uma mulher diz “não vou ser mãe”, a maternidade deixa de ser destino e vira escolha.

Toda vez que diz “não vou me casar”, o amor deixa de ser prisão e vira encontro.

Toda vez que uma mulher diz “não me submeto à sua régua”, o mundo é obrigado a medir-se de novo.

Mini bio

Jade Klaser é educadora e comunicadora. Entre a escola e a escrita, publica textos em suas redes e na ACCA. Transita entre poesias e crônicas autobiográficas que interrogam o feminismo, a política e a cultura.

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