As mulheres que ficam quando o território não permite descanso por Jéssica Piani | Crônicas Feministas

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Jéssica Piani
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As mulheres que ficam quando o território não permite descanso

Por Jéssica Piani
29 de janeiro de 2026 Crônicas Feministas ACCA
O que se segue nasce de um território que não ficou para trás.

Aqui, escrever é continuar.

Não fiz do Setor Rosa dos Ventos a minha casa, mas ele sempre fez parte da minha vida. Não habitei aquelas ruas como rotina, mas elas sempre me habitaram como memória, como ferida aberta. Há lugares que não pedem moradia para marcar o corpo, basta que sejam o chão onde a vida de quem amamos insiste, falha e, muitas vezes, se interrompe de forma brusca.

No papel, o nome do meu campo é Setor Rosa dos Ventos. No corpo, ele é outra coisa. Não é categoria nem recorte: é um mapa que não se dobra, um nome que pesa quando é dito. Ali, nada foi garantido. Tudo foi tentativa de viver sem enlouquecer, de criar filhos com pouco, de seguir quando tudo falta. Ser gente ali nunca foi um direito assegurado, mas uma negociação diária.

O Rosa dos Ventos me atravessa porque atravessou mulheres da minha família. Ali, a vida nunca se sustentou sozinha. Sempre precisou de mãos, quase sempre femininas, para não cair de vez. Mãos que cozinham quando falta, que criam quando ninguém cria, que permanecem quando todos vão embora. Ser mulher ali não é identidade: é função imposta.

Minha mãe sempre foi julgada. Não apenas por ter usado álcool e drogas, mas por não caber no modelo de mãe que a sociedade impõe. Foi criticada por desejar liberdade, por “falhar” no desempenho esperado da maternidade abnegada, silenciosa, incansável. Antes mesmo da queda, já era vigiada; depois dela, foi condenada. O uso de álcool e drogas não apareceu como escolha livre ou desvio isolado, mas como anestesia possível diante do cansaço, da dor sem nome. Uma anestesia permitida, disponível, socialmente tolerada desde que servisse para calar. É assim que se mata sem parecer crime: transformando o sofrimento em falha moral e deixando faltar tudo até que o corpo desista por exaustão.

Quando a mãe cai, outras mulheres seguram o chão. Avós, tias, vizinhas recolhem filhos, casas em ruína, histórias quebradas. Assumem responsabilidades que não escolheram.

Tempo curto em cuidado,

Corpos cansados em abrigo.

São elas que impedem o colapso total quando o mundo já se retirou.

Meus irmãos cresceram onde o futuro nasce curto. Não foram exceções. Foram produtos previsíveis de um sistema que primeiro abandona, depois captura, depois elimina. O mesmo poder que faltou apareceu armado. Não para salvar, mas para encerrar. Não houve contradição. Houve método.

A morte ali tem lógica e endereço. Escolhe corpos conhecidos, histórias repetidas. São vidas que aprendem cedo que podem ser interrompidas sem escândalo, sem luto público, sem memória duradoura. Mortes administráveis.

E, mais uma vez, são as mulheres que ficam.

Ficam para reconhecer o corpo.

Organizar o enterro.

Segurar as crianças pela mão.

Ficam para trabalhar no dia seguinte, porque a vida não respeita o tempo do luto.

A permanência feminina não é celebrada; é exigida.

Eu não escrevo porque superei.

Escrevo porque sobreviver não me basta.

Continuar ali não é esperança.

É confronto.

É recusa.

Caminho pelo Rosa dos Ventos sem neutralidade. Carrego o nome da minha mãe, o corpo dos meus irmãos, a memória das mulheres que seguem sustentando a vida com o pouco que têm. Mulheres que escrevem o mundo com as mãos.

A raiva não é descontrole. É lucidez. É o que impede o silêncio de virar túmulo. As palavras são meu território de luta: nelas finco o nome dos meus mortos e desmonto a mentira de que tudo isso é destino. Não é. É escolha. É projeto.

Não busco finais felizes. Busco perguntas que não deixem ninguém em paz. Que Estado é esse que abandona primeiro e mata depois? Que sociedade é essa que naturaliza a dor até que ela pareça paisagem?

Escrevo para que minha raiva não apodreça em silêncio. Para que ela vire memória, denúncia, presença. Para que o Setor Rosa dos Ventos não seja apenas um ponto no mapa, mas um nome que pesa, que incomoda, que não se deixa apagar. Para que as mulheres que ficam sempre não sejam tratadas como detalhe.

Ainda estamos aqui.

E vamos continuar aqui.

Cansadas, feridas, alertas.

E isso, por si só, já é um gesto profundamente político.

Sobre a autora

Jéssica Piani é professora de Geografia, pesquisadora e mestranda em Geografia pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Cora Coralina. Mulher, filha, mãe e neta, escreve a partir do entrelaçamento entre território, memória e experiência.

Esta crônica surge a partir da minha pesquisa de mestrado em andamento, intitulada:

As Rosas dos Ventos contam histórias de mulheres:

interseccionalidade e educação escolar na periferia de Aparecida de Goiânia.

O Setor Rosa dos Ventos, campo da pesquisa, atravessa este escrito não apenas como território de estudo, mas como lugar vivido por mulheres que sustentam a vida onde o descanso nunca foi garantido.

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