Quando a Narrativa Vira Violência
Sobre Itumbiara, a cumplicidade da sociedade e o que recusamos
Violência vicária é quando a agressão contra crianças é usada para atingir a mulher — e a narrativa pública, muitas vezes, continua essa violência.
Não sabemos por onde começar. Porque o que aconteceu em Itumbiara não é apenas crime. É a demonstração de como a sociedade consegue, em tempo real, repetir a violência enquanto assiste. Como consegue culpabilizar a vítima enquanto ela chora.
Um homem matou seus dois filhos. E depois, como se o crime não fosse suficiente, a sociedade culpabilizou a mãe. Ameaçou a mãe. Perseguiu a mãe.
Isso é perplexo. Isso é assombrador.
O Crime Continua Acontecendo
Um homem disparou contra Miguel, 12 anos. Contra Benício, 8 anos. Seus próprios filhos. Depois se matou.
E aqui começa o impossível de compreender: Sarah, a mãe, foi perseguida.
O homem deixou uma carta com acusações. A sociedade acreditou nelas como se fossem verdade. Como se importassem. Como se fossem relevantes para explicar por que matou duas crianças.
Como é possível que uma sociedade inteira acredite que infidelidade justifica assassinato de filhos? Como é possível que jornalistas reproduzam essa narrativa sem questionar? Como é possível que internautas ameacem uma mãe no cemitério?
A perplexidade é o sentimento correto aqui. Porque é indignante demais para explicar com raiva. É estrutural demais para ser acaso. É assombrador demais para ignorar.
Kelly Cristina, advogada criminal feminista, consegue nomear: “Faz parte da lógica do patriarcado, que sempre vai responsabilizar as mulheres.”
Isso não deveria ser surpreendente. Mas de alguma forma continua sendo.
Violência vicária tem nome
Há um nome para o que aconteceu: violência vicária. Quando matar os filhos é forma de matar a mãe. Quando a agressão contra crianças é instrumento de punição à mulher que ousou rejeitar.
Tatiana Machiavelli, psicóloga social, aponta isso como padrão central. Central. Estrutural. E ainda invisibilizado.
Como é possível que violência vicária seja invisibilizada? Como chegamos a um ponto onde matar filhos para punir a mãe é tão comum que ninguém consegue nem nomear?
Quando Redações Escolhem Participar
O assombrador não é que a sociedade culpabilize. É que a mídia profissional, que deveria informar, escolhe reproduzir a narrativa culpabilizadora.
Jornalistas que estudaram ética. Redações que têm políticas editoriais. Que escolhem, dia após dia, reproduzir bilhete de assassino como se fosse contexto legítimo.
Como é possível estar tão indignado e tão perplexo simultaneamente?
A Associação Mulheres na Comunicação foi precisa: “Quando a mídia reproduz bilhetes do autor da violência, trata insinuação como fato e desloca a culpa para a moral sexual da vítima, ela deixa de informar e passa a ferir.”
E ainda mais precisa: “O crime é do autor. A narrativa não pode ser cúmplice.”
Em Itumbiara, a narrativa foi cúmplice. Redações inteiras foram cúmplices. E uma mãe pagou.
Não Estamos Sozinhas Nessa Raiva
O Bloco Não é Não disse com precisão e amor: “A culpa nunca é da vítima.” E foi além: “Estaremos aqui para defendê-la do ódio de quem ainda tem a audácia de tentar culpá-la.”
Kelly Cristina e Tatiana Machiavelli nomeiam o padrão com clareza científica.
A Associação Mulheres na Comunicação cobra responsabilidade ética.
Essas não são vozes isoladas. São vozes de quem entende que a narrativa mata. Que a cultura perpetua violência. Que redações escolhem ser cúmplices ou combativas. Que não há meio-termo.
A ACCA se soma a essas vozes. Engrossamos as fileiras. Dizemos: não. Não à narrativa que mata duas vezes. Não à invisibilização de padrões que matam. Não à culpabilização de mulheres enquanto elas choram seus filhos.
Estamos irmanadas com o Bloco Não é Não, com a AMC, com Kelly, com Tatiana, com cada mulher que recusa ser cúmplice dessa máquina de culpa.
O Que Exigimos
Às redações: parem de reproduzir narrativas de agressores como se fossem contexto legítimo. Nomeiem violência corretamente. Contextualizem dentro de padrões estruturais. Ouçam especialistas em gênero. E se não conseguem fazer isso, parem de cobrir esses casos.
À produção de cultura: parem de romantizar possessividade. Parem de transformar ciúmes em prova de amor. Parem de fazer filmes, séries, músicas que naturalizam controle. Porque cada história que vocês contam é lição para a próxima geração.
Às plataformas digitais: bloqueiem campanhas de perseguição contra vítimas de violência. Do mesmo jeito que bloqueiam conteúdo pedófilo. Do mesmo jeito que bloqueiam terrorismo. Porque isso é terrorismo. Isso é perseguição organizada. E vocês têm responsabilidade.
À sociedade: antes de compartilhar acusação contra uma mulher em luto, pare. Questione. De onde veio essa narrativa? Quem se beneficia dela? Estou reproduzindo a lógica que mata?
Uma Promessa
Sarah Araújo merecia luto em paz. Merecia que a sociedade reconhecesse, com clareza absoluta, que a culpa é do agressor. Apenas dele. Completamente dele.
Nós, da ACCA, prometemos: não reproduziremos narrativas que culpabilizam vítimas. Cobraremos responsabilidade ética jornalística. Nomearemos violência vicária sempre que tentarem apagá-la. Defenderemos a memória de Miguel e Benício. Defenderemos Sarah da perseguição que continua acontecendo.
Porque sabemos que a narrativa importa. Que a história que contamos constrói o mundo que habitamos. E escolhemos contar uma história diferente.
Escolhemos contar que o crime é do autor. Que a vítima não será julgada no lugar dele. Que a culpa nunca é da mãe. Que mães não são responsáveis pela violência de homens. E que a indignação diante dessa estrutura é não apenas justificada, mas necessária. Que a perplexidade é saudável. Que não conseguir compreender como isso continua acontecendo é sinal de que algo está profundamente errado.
Se você está em situação de violência
Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher)
Em emergência, ligue 190
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Referências
- Kelly Cristina e Tatiana Machiavelli, Jornal Opção: jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/apos-caso-de-itumbiara-especialistas-analisam-reacao-nas-redes-que-responsabiliza-mae-793605
- Associação Mulheres na Comunicação: instagram.com/p/DUsnvHijqds/
- Bloco Não é Não: instagram.com/bloconaoenao/
À memória de Miguel e Benício. À mãe. Contra narrativas que perpetuam violência.




