Este texto sustenta a Plataforma Autonomia Feminina.
Ele não propõe exercícios, não orienta comportamentos e não promete transformação individual. Seu objetivo é organizar o pensamento para que a autonomia não seja vivida como cobrança.
Quando a autonomia exige mais esforço individual, ela deixou de ser autonomia.
Autonomia não é força.
É chão.
Por que o cansaço das mulheres não é falta de coragem, é falta de condição
Quando falamos em autonomia feminina, quase sempre estamos falando de força individual. Este texto existe para deslocar essa ideia e recolocar a autonomia como condição, não como cobrança.
Ninguém te perguntou como você estava.
Perguntaram se o relatório saiu. Se o almoço estava pronto. Se você podia resolver só mais uma coisa rapidinho.
E você resolveu. Resolveu cansada. Resolveu sem tempo. Resolveu mesmo quando o corpo já tinha avisado que não dava mais.
Segurou a casa. Segurou o trabalho. Segurou relações. Segurou o choro no banheiro.
E ainda pediu desculpa por estar cansada.
Talvez o que você chama de falta de força seja falta de sustentação.
Autonomia feminina e a palavra que virou armadilha
Autonomia se espalhou. Virou slogan, promessa, virtude, exigência.
Na vida concreta de muitas mulheres, essa palavra passou a produzir culpa antes de produzir liberdade.
Isso acontece quando autonomia é retirada do campo coletivo e colocada inteiramente sobre o indivíduo.
Quando vira sinônimo de dar conta. De se organizar melhor. De ser resiliente. De aguentar.
Nesse deslocamento, a autonomia deixa de ser condição e passa a ser desempenho.
O que falta não é coragem, é condição
Reduzir autonomia à vontade individual é uma forma de violência simbólica.
Desloca para a mulher a responsabilidade por aquilo que é produzido estruturalmente: sobrecarga, fragmentação do tempo, dependência econômica, vigilância constante, precarização do cuidado.
Autonomia não é traço de personalidade. Não é virtude moral. Não é prêmio por esforço.
Autonomia é necessidade estruturante da vida humana.
Sem condição, não há escolha. Há adaptação.
O deslocamento que a Plataforma propõe
A Plataforma Autonomia Feminina não nasce para ensinar mulheres a serem autônomas.
Ela desloca a pergunta.
Não perguntamos o que falta em você. Perguntamos o que está faltando ao redor.
Nenhuma mulher falha sozinha. Ela é atravessada por arranjos de tempo, dinheiro, cuidado, poder e expectativa.
Autonomia não é performance. É sustentação.
Autonomia não é uma coisa só
Autonomia não é um estado único.
Ela se manifesta em dimensões diferentes da vida, que coexistem e se tensionam.
É possível ter autonomia em uma dimensão e estar profundamente limitada em outra.
Reconhecer isso não enfraquece. Interrompe a culpa.
As dimensões da autonomia feminina
- Condições materiais de existência
- Tempo que não está sempre capturado
- Um corpo que pode parar
- Redução da culpa como forma de governo de si
- Compreensão das estruturas de poder
- Segurança para existir no ambiente digital
- Vínculos que não exigem submissão
- Redes que sustentam
Essas dimensões não são etapas. Não são metas. Não formam hierarquia.
Autonomia não é sozinha, é sustentada
Se a autonomia exige que a mulher faça mais esforço sozinha, isso não é autonomia.
É cobrança.
A Plataforma Autonomia Feminina sustenta linguagem, pensamento e rede para que a autonomia deixe de ser obrigação individual e volte a ser condição coletiva.
Talvez você não esteja fraca.
Talvez esteja cansada de sustentar sozinha o que nunca foi só seu.
Autonomia não é força. É chão.
Plataforma Autonomia Feminina, ACCA (Cultura, Cidade e Arte)
Sobre a Plataforma Autonomia Feminina
Ensaios sobre autonomia feminina
Iniciativa da ACCA.





