Consciência de colmeia
Sou uma mulher doente. Uma vaca. Uma bitch. Lanço feitiços errados. O fígado, por exemplo, esteatose nível 3, continua recebendo álcool e gordura à revelia. Alguns dão certo. Chá de capim cidreira quando a noite está calma e consigo escrever. Sei o que me dói. Me dói ter demorado tanto tempo para aceitar o diagnóstico de transtorno afetivo bipolar. Tanto tempo para entender que é genético. Tanto tempo para encarar o fato de que a pessoa que eu acreditava ser – sociável, criativa, temperamental, irritadiça, impulsiva, chorona, desejante, não-desejante, ansiosa, brigona, briguenta, puta, piranha, bitch – talvez não seja personalidade, talvez seja só a doença mesmo. Tanto tempo achando que o fato de ser tão doente, tão perversa, justificava as agressões. Que eu as merecia. Que mereci o aperto asfixiante na garganta, o murro na cara, a palavra insidiosa, cotidiana, a injustiça do tribunal dos homens. Tanto tempo que agora até aceito tratamento psiquiátrico, aceito medicação – faço tudo para descumprir as prescrições metodicamente. Porque além de tudo, sou pusilânime, não tenho força moral. Não sigo dietas. Não consigo parar de fumar. Não, senhor, não quero tratar só da raiva de ser designada como mulher neste mundo de violadores. Queria mesmo era dar conta de entender esse ódio construído. É tão antigo que parece escapar à história. É tão antigo que me sinto fraca. Mas disso duvido, nada é trans-histórico. O ódio é material, como um meteoro, segue no tempo, se avoluma no espaço percorrido, sua energia eletriza cães de diferentes espécies, orienta matilhas uivantes, cria lobos solitários que agem em nome da causa, disso chamado virilidade, masculinidade, honra etc etc etc. não, não senhor, não vou me tratar. Vou mentir. Vou dizer pra todo mundo que me trato. Não quero deixar de sentir. Contra o ódio, a raiva. Reação. O fígado está doendo, que doa ainda mais. Não vou mais deixar que me acreditem uma boa professora, uma boa filha, uma boa mãe. Nunca serei. Não por falta de vontade. Por impossibilidade. Todos se vangloriam de suas qualidades.
Tem um cruzamento diabólico nessa história de nascer mulher, bipolar, numa família cristã, alcoólatra, machista, racista, homofóbica. Ninguém escolhe isso. Nem a própria família escolhe ser isso. E no entanto, no entanto, está tudo aí. Vamos sendo empurradas a seguir roteiros que não escrevemos, a fazer escolhas que não são escolhas. Foi então que me decidi a cometer meus pequenos pecados, esboçar gestos indecorosos, sair em busca daquele olhar reprovador que desmoraliza. Com que propósito¿ já que sabia que machucaria pessoas, pessoas que amo, e quanto mais pensava nisso, mais o esboço transformava o gesto em fato. Em areia movediça de filme de sessão da tarde, eu me afundava. Ao fundo e avante. Afinal isso não é um testemunho de arrependimento no degrauzinho de cerâmica branca improvisado pela igreja em alguma penitenciária. Quanto mais penso no bem que uma mulher deve representar: bela, recatada e do lar, mais quero a lama, a sarjeta, a companhia dos insetos rastejantes, o olhar do boi que entrou no tronco para o abate. Não senhor, não se engane, isso não é desabafo, nem testamento de mulher malcomida. Isso aqui é outra coisa, é consciência de colmeia. Tem um monte de mulher pensando sentindo blasfemando assim. Ouço o zum zum zum. Isso aqui é a assunção da condição mais normal do que muitas de nós vivemos: a raiva da submissão, da humilhação, de sentir medo, e nem vou de dizer do abandono porque certos homens, quando vão embora, o meme já disse, é livramento. Mas viver com medo, ter de desenvolver isso que vocês adoram chamar de intuição feminina – ótima definição para um aprendizado feito de acúmulo de opressões que nos permite antecipar, ou com sorte evitar, o soco, o safanão, o grito que desmonta a casa. Durante muito tempo não sabia que acontecia com outras mulheres. Na verdade, minto de novo, tem uma história de feminicídio na minha família que minha mãe e minhas tias comentavam a boca chiusa. Eu ouvia uns pedaços aqui, uns detalhes desconexos noutro dia, era conhecimento para mulher grande. E parecia que nada acontecia com elas, as guardiãs do segredo. Mas sempre acontece. É que a gente não aprendeu a dar os nomes certos pras coisas. Matar mulher é feminicídio. Vagina é vagina, não é florzinha. Depois lá vem o agregado dizendo que sua florzinha é linda. Vai se fuder! Pênis não é pipiu. Estupro não é “ela me provocou mas desistiu de última hora”. Esfregar o pênis na boca de uma pessoa dormindo é importunação sexual. Fui entendendo tudo isso aos solavancos. Sou mulher branca, tenho privilégios, estou viva. O Brasil está em quinto lugar entre os países que mais matam mulheres no planeta Terra. As mulheres negras brasileiras são mais de 60% das vítimas. Agora entendo que tudo isso acontece de acordo com a lei, que também é materialidade histórica. Nasce de um tipo de vida associada em que a regra é a violência. A agressão doméstica não é um excesso, um desvio, é o cumprimento da lei que todos conhecemos e cumprimos todos os dias com a consciência reforçada pela mídia, pela música, pela igreja, pelos contos de fada, pela medicina, pela escola e por tantas outras instituições: que cada uma cumpra seu papel. Que eu cumprisse o meu, de mulher mãe trabalhadora adoecida, medicada, funcional, pacificada – era esse o meu papel. Mas sou outra mulher e somos muitas.
Sobre a autora
Tarsilla Couto de Brito é professora Teoria Literária e Ensino de Literatura da FL da UFG. Comunicadora/debatedora/mediadora de literatura. Vocalizadora de poesia. Poeta.
Crônicas Feministas | ACCA
Um espaço de escrita para pensar o mundo desde as mulheres.
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