Uma crônica para as mães que o Dia das Mães não comporta | Crônicas Feministas

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O que o calendário não diz

Uma crônica para as mães que o Dia das Mães não comporta
8 de maio de 2026 · Crônicas Feministas · ACCA

No domingo que vem, as floriculturas vão esgotar os girassóis. Os restaurantes vão estar cheios. Os feeds vão transbordar de fotos com mães sorridentes e filhos de roupa nova. É bonito. E é verdadeiro para algumas mulheres.

Mas existe um Brasil de mães que esse domingo não alcança.

Existe a mãe que acorda às cinco da manhã porque é ela, somente ela, quem vai garantir que o filho chegue à escola, que o aluguel seja pago, que tenha comida no fim do dia. Ela não recebeu flores. Ela não saiu para almoçar. Ela trabalhou.

Existe a mãe que passou a madrugada pesquisando terapias, esperando o laudo, brigando com o plano de saúde, chorando no banheiro para não assustar o filho. Ela ama com uma intensidade que o mundo ainda não aprendeu a nomear.

E existe a mãe que não está mais aqui. Que foi morta dentro da própria casa. Pelo homem com quem dividia a cama. E cujos filhos acordaram nessa manhã de domingo sem ela.

Não dá para passar por esse dia sem olhar para tudo isso.

As mães solo: a maioria invisível

O Brasil tem mais de 11 milhões de mães solo. Não é minoria. É uma estrutura familiar que se consolidou enquanto a sociedade fingia que não existia.

Segundo pesquisa da FGV, esse número cresceu 17,8% em dez anos. E 90% das mães solo que surgiram nessa última década são mulheres negras.

Pesquisa do Datafolha mostrou que 55% das mães brasileiras criam seus filhos sem companheiro. Mais da metade. E 44% delas sobrevivem com até um salário mínimo por mês. Sua renda é 39% menor do que a de pais casados com filhos. A mesma criança. O dobro do trabalho. Menos da metade do reconhecimento.

Os dados do IBGE são duros: famílias chefiadas por mães solo pretas ou pardas com filhos de até 14 anos representam o grupo com maior incidência de pobreza no país. 72% delas vivem na pobreza. 22% estão na extrema pobreza.

O que significa criar um filho com um salário mínimo, sem rede de apoio, sem pai presente, sem creche pública suficiente, sem políticas que reconheçam o cuidado como trabalho? Significa fazer o impossível todo dia. Significa se virar. Significa ser chamada de “guerreira” quando o que se precisa é de justiça.

Ser mãe solo não é superpoder. É uma sobrecarga que o Estado não assumiu e que o pai ausente não pagou.

As mães atípicas: amor que batalha

Existe um tipo de maternidade que ninguém ensina, que nenhum livro de gestante descreve e que o sistema de saúde quase sempre ignora: a maternidade atípica.

São as mães de filhos com autismo, paralisia cerebral, síndrome de Down, doenças raras, deficiências físicas e intelectuais. Mães que constroem suas vidas em torno de laudos, terapias, filas no SUS, batalhas judiciais por vagas escolares, negativas de plano de saúde, e o peso de um cuidado integral que nunca para.

Dados do Instituto Baresi mostram que 78% dos pais abandonam as mães de crianças com deficiência antes dos filhos completarem cinco anos. Não é um dado menor. É uma condenação sistemática que recai quase sempre sobre os ombros de uma única mulher.

Estudos indicam que o cansaço físico e emocional dessas mães pode ser comparado ao de soldados em combate. E ainda assim, o Estado não garante jornada reduzida de trabalho. O mercado não oferece flexibilidade real. A sociedade oferece o elogio vazio da “superação”.

“Não quero heroísmo. Quero dignidade.” Essa frase foi dita por uma mãe atípica em pesquisa realizada em 2025. Ela resume o que essas mulheres precisam e o que o país ainda recusa a dar.

O cuidado não remunerado representa 13% do PIB brasileiro, segundo o IPEA. As mulheres são responsáveis por 76% desse trabalho. Nenhuma nota de real foi impressa com o rosto delas.

As mães que não podem ler esse texto

Em 2025, o Brasil registrou 1.568 mulheres assassinadas em razão de sua condição de gênero. O maior número desde que o feminicídio passou a ser tipificado como crime, em 2015. Uma escalada que não para.

Desde 2015, ao menos 13.703 mulheres foram mortas no Brasil por serem mulheres. Treze mil, setecentas e três. Cada uma tinha nome. A maioria tinha filhos.

Segundo estudos do Laboratório de Estudos de Feminicídios da UEL, 59% das vítimas de feminicídio são mães. Em média, cada mulher assassinada deixa três filhos menores de idade. São milhares de crianças que crescem carregando uma ausência que não foi natural, que não foi acidente, que foi crime.

Em 43% dos casos com testemunhas, o filho era quem estava presente no momento do assassinato. Cerca de 80% desses órfãos ficam sob a responsabilidade de avós e tias maternas — mulheres que, muitas vezes, precisam deixar seus empregos para recomeçar uma maternidade que não planejaram.

62,6% das vítimas de feminicídio são mulheres negras. O racismo não deixa de operar nem na morte. E 148 mulheres foram assassinadas em 2025 enquanto estavam protegidas por uma Medida Protetiva de Urgência. O Estado as protegeu no papel. O homem que as matou não leu o papel.
O feminicídio não termina com a morte. Ele se espalha pelas gerações. Ele mora nos pesadelos das crianças que viram.

O que esse dia deveria ser

O Dia das Mães foi criado para homenagear. Mas homenagem sem política é decoração.

Honrar as mães significa exigir creches públicas em tempo integral. Significa responsabilizar o Estado pelo cuidado. Significa cobrar dos pais ausentes. Significa punir efetivamente quem mata. Significa financiar redes de apoio para mães atípicas. Significa reconhecer que o cuidado tem valor econômico e que esse valor precisa ser redistribuído.

Significa parar de chamar de guerreira a mulher que está, na verdade, sobrevivendo ao abandono de uma estrutura inteira.

A maternidade no Brasil não é um dom que algumas mulheres recebem. É uma responsabilidade que a sociedade despejou sobre os ombros de certas mulheres, de forma seletiva e brutal, enquanto retirava os recursos que tornariam esse trabalho possível.

Nesse domingo que se aproxima, não vamos fingir que tudo está bem.

Vamos lembrar das mães que estão exaustas demais para comemorar. Das que estão em um consultório esperando um laudo. Das que estão em uma delegacia registrando boletim de ocorrência. Das que não estão mais aqui.

E vamos dizer, com toda a clareza que a crônica feminista permite: amor de mãe não basta quando o Estado falha. Resistência de mãe não basta quando o Estado mata. E flor nenhuma substitui política pública.

Fontes: Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2026); FGV-Ibre; IBGE — Síntese de Indicadores Sociais; Datafolha (2023); Laboratório de Estudos de Feminicídios/UEL; IPEA; ONU Mulheres; Instituto Baresi; Agência Patrícia Galvão.

Os textos publicados na coluna Crônicas Feministas expressam a posição institucional da ACCA e de suas colaboradoras. A coluna se propõe como uma arena democrática, crítica e coletiva de circulação de ideias, provocando reflexões sobre cultura, direitos humanos, feminismos, território, trabalho, saúde, autonomia e justiça social.

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