As Sombras dos Aviões
O Araguaia ainda corre, mas, desde aquele dezembro de 1957, nunca mais correu do mesmo jeito. Às vezes parece manso, preguiçoso, mas eu sei: o leito estremeceu com o peso dos aviões. É como se até a água tivesse aprendido a temer o céu.
Eu tinha vinte e poucos anos. Viúva cedo demais, mãe cedo demais. José, meu menino, já com oito, parecia maior que eu em coragem. Corria descalço no quintal com o caderno mal fechado debaixo do braço.
Pedi que não fosse ao rio naquele dia, que ficasse em casa até o almoço. Ele disse que sim, mas o corpo já estava de saída. Beijei sua testa como quem tenta segurar o tempo — e o tempo sempre escapa.
Aqui em Aragarças, a Fundação Brasil Central era meu refúgio. Papéis, relatórios, carimbos. O barulho seco do carimbo me dava a ilusão de ordem. A cada batida, eu acreditava que a vida ainda podia ser domada, numerada, arquivada.
Era uma fé pequena, mas era a minha.
No meio de um relatório, veio o barulho. Pensei em trovão, mas o céu estava limpo, azul queimado de dezembro. A vidraça vibrou. Outro estrondo, mais baixo, mais fundo. Aviões. Baixos demais, pesados demais para a cidade pequena.
A sombra deles cobriu tudo, e o que mais me lembro não é do barulho, mas do silêncio. Até a feira calou. Nenhuma voz, nenhum som.
Só o ronco dos motores atravessando o ar como se o próprio chão tivesse prendido a respiração.
Voltei para a mesa. O relatório pela metade, e o hábito mandava mais que o instinto. Foi assim que eles entraram: botas lustradas, fardas pesadas, vozes afiadas. O cheiro de pólvora grudou no café frio.
Um deles jogou mapas sobre a minha mesa. Outro arrancou o telefone da parede como quem arranca erva daninha.
O que parecia o chefe entre eles bateu a mão na madeira e disse apenas:
— Continue escrevendo.
A frase caiu em mim como pedra no rio. Afundou sem som, mas me arrastou junto.
E a mão obedeceu. Não era escolha, era reflexo. A caneta pesava mais que um tijolo. O carimbo batia, e cada batida me arrancava pedaços.
Tinta borrando, escorrendo — não era só tinta, era meu próprio medo impresso no papel.
Eles falavam, alto, de Brasília, de nomes, de ordens. Eu fingia não ouvir, mas a voz deles entrava, como prego na madeira da sala.
Atrás de mim, botas arrastadas. A arma roçou na cadeira e foi como se tivesse encostado em mim.
Não era ferro: era febre. Não era metal: era morte.
A morte, talvez, fosse isso — mesmo viva e a alma estava ausente.
O prédio respirava. Madeira estalando como osso. Papéis se agitando com o vento que entrou pela fresta. Um lápis rolou no chão, e o som explodiu dentro de mim como granada.
Eu não sabia mais se era fora ou dentro. Se o céu tremia ou se era eu.
Escrevi, copiei, repeti. Copiei até não saber o que copiava. As letras já não eram palavras, eram cordas me segurando por um fio.
Cada carimbo era um coração batendo fora do corpo. Cada ruído, sentença.
E, no meio disso, José. O rosto dele surgia sem eu chamar.
Estaria em casa? Teria corrido para o rio? Ouvia o mesmo barulho que eu ouvia?
O medo maior não era morrer. Era não voltar para ele.
O tempo se quebrou. Minutos ou horas, não sei. A cada batida da máquina, eu sentia que uma parte de mim se apagava.
Como se fosse possível morrer aos poucos e continuar sentada.
Quando enfim nos deixaram sair, o céu sangrava vermelho e cinza. A fumaça tinha cheiro de medo.
Caminhei rápido, tropeçando nas próprias pernas, até a porta de casa.
José veio correndo.
Abracei-o com tanta força que o corpo dele doeu contra o meu. Respirei fundo, tentando acreditar que ainda estávamos vivos.
Aragarças virou manchete, manchete de jornal, de rádio. Mas nada disso importa.
O que ficou não foi a notícia. O que ficou foi a letra torta, a tinta manchada, o carimbo borrado.
O que ficou foram as sombras, as sombras dos aviões.
Até hoje, quando escuto um motor baixo demais, a mão treme. O corpo escapa. A sombra volta.
E dezembro de 1957 nunca termina.
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