A Voz que Rasga o Véu por Rosa Gonçalves | Crônicas Feministas

A Voz que Rasga o Véu | Crônicas Feministas | ACCA
Crônicas Feministas · ACCA
Rosilene Gonçalves de Oliveira
Rosilene Gonçalves de Oliveira
Educadora · Escritora · Comunicadora popular
Presidenta da FM Comunitária de Independência e da Rede de Mulheres da AMARC

A Voz que Rasga o Véu

Há mulheres que atravessam o silêncio e desaparecem. E há mulheres que atravessam o silêncio e voltam com uma voz ainda mais forte.
26 de junho de 2026 Crônicas Feministas ACCA

Ninguém percebe o momento exato em que uma voz começa a ser apagada.

Com Helena aconteceu aos poucos. Primeiro, pediam que ela tivesse paciência. Depois, que esperasse sua vez. Mais tarde, que não criasse conflitos. Quando percebeu, já passava mais tempo ouvindo do que sendo ouvida.

Na mesma diretoria estavam Lúcia, Rosa, Marta, Celina e Joana. Mulheres acostumadas à luta, às assembleias demoradas, às viagens cansativas, às reuniões que atravessavam a noite. Mulheres que conheciam o chão da categoria, as dores dos trabalhadores e a importância da organização coletiva.

Sentavam-se à mesa junto com uma maioria de homens. Oficialmente, todos tinham voz. Na prática, algumas vozes pesavam mais que outras.

Helena apresentava uma proposta. O silêncio ocupava a sala. Minutos depois, um homem repetia a mesma ideia e recebia elogios. Lúcia questionava uma decisão e era chamada de “emocional”. Marta insistia em participar dos debates estratégicos e logo aparecia alguém para explicar, pacientemente, aquilo que ela já sabia há anos.

Pareciam pequenas coisas.

Mas pequenas pedras também afundam barcos quando são muitas.

Vieram as eleições sindicais. E junto delas vieram as disputas por espaço, poder e reconhecimento. A entidade, que durante anos buscara construir uma representação equilibrada entre mulheres e homens, viu os cargos majoritários serem ocupados exclusivamente por homens.

As mulheres assistiram à mudança como quem vê uma porta se fechar lentamente.

Algumas ouviram que precisavam aceitar o resultado. Outras escutaram que estavam exagerando. Houve quem dissesse que aquilo era apenas política, como se política não fosse feita de relações humanas.

Rosa lembra até hoje de uma frase que ouviu num corredor:

Mas era.

E talvez fosse justamente isso que incomodava.

Os meses seguintes foram difíceis. Vieram as crises de ansiedade, as noites mal dormidas, o sentimento de fracasso e a pergunta dolorosa que tantas mulheres fazem a si mesmas quando são excluídas:

“O problema sou eu?”

Celina chegou a acreditar que sim. Joana quase desistiu de tudo. Helena passou semanas sem conseguir escrever uma linha sequer.

Até que algo começou a mudar.

Primeiro veio uma conversa entre amigas. Depois uma roda de mulheres. Mais tarde um grupo terapêutico. Aos poucos, elas descobriram que suas histórias se pareciam demais para serem apenas coincidência.

A dor tinha endereço coletivo. E a cura também começava a ter.

Lúcia encontrou espaço em um programa de rádio comunitária. Marta voltou a escrever. Rosa passou a participar de encontros de mulheres. Celina transformou sua experiência em palestras. Joana reaprendeu a confiar na própria voz.

Sem perceber, começaram a costurar umas às outras.

E foi assim que o véu começou a rasgar.

Não de uma vez só. Nenhum véu antigo se rompe sem resistência.

Rasgou quando Helena falou em público sobre o que viveu.
Rasgou quando Rosa deixou de pedir desculpas por ocupar espaço.
Rasgou quando Joana compreendeu que firmeza não é sinônimo de agressividade.
Rasgou quando Marta escreveu aquilo que durante anos tentaram fazê-la calar.

Hoje, elas seguem caminhos diferentes. Algumas permanecem na militância, outras construíram novos espaços de atuação. Nenhuma saiu ilesa daquela experiência.

Mas todas carregam a mesma certeza.

A de que não foram derrotadas.

Foram transformadas.

Quando o poder tentou apagá-las, elas encontraram umas às outras. E quando encontraram umas às outras, rasgaram o véu.

E, depois que um véu é rasgado, nunca mais volta a esconder a mesma verdade.

Selo Marca Aliada

🎤 Destrave seu Medo de Falar em Público

Encontro presencial · 27 de junho, 15h · Goiânia · entrada gratuita
Selo Marca Aliada
Realização do encontro Destrave seu Medo de Falar em Público

No dia 27 de junho acontece o encontro Destrave seu Medo de Falar em Público. Uma experiência criada para mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ que desejam fortalecer sua comunicação, ampliar sua confiança e transformar sua voz em uma ferramenta de autonomia, oportunidades e geração de renda. Mais do que aprender técnicas de oratória, será uma experiência prática, acolhedora e transformadora.

📌 Data: 27 de junho

📌 Horário: 15h

📌 Local: Holanda Centro de Educação Musical – Premium Música e Saúde

📌 Entrada gratuita mediante inscrição pelo Sympla

Garanta sua vaga, inscreva-se no Sympla Vagas limitadas, inscrição gratuita.

Realização: Plataforma Autonomia Com Elas e ACCA, Associação Cultura, Cidade e Arte.
Marca Aliada da ACCA: Holanda Centro de Educação Musical – Premium Música e Saúde.

Sua voz tem valor. Sua história importa. E o mundo precisa ouvir o que você tem a dizer.
Autonomia não é força. É condição.

Comece o seu caminho agora

A Plataforma Autonomia Com Elas nasce de uma ideia simples: ninguém se faz sozinha. Cursos, formações, e-books e conteúdos sobre cultura, autonomia e geração de renda, pensados para mulheres que constroem caminhos junto.

Conheça a Plataforma