Coragem e Política nas Imagens e Palavras com Jota Aguiar | Do Estúdio ao Blog

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Coragem e Política nas Imagens e Palavras

Com a fotojornalista Jota Aguiar, falamos da comunicação como ato político, da arte que nasce da dor e da autonomia de ocupar espaços que insistem em barrar as mulheres.

Convidada: Jota Aguiar Série: Autonomia Feminina 26 de julho de 2026

Comunicar não é neutro

No Brasil, 58% dos jornalistas são mulheres, mas só 21% chegam à chefia; 73% já sofreram violência online. No fotojornalismo, o desequilíbrio é ainda maior: só 8% são mulheres, e 2% mulheres negras. Uma profissão feminilizada na base e masculinizada no topo, onde as mulheres entram, mas são silenciadas.

Márcia Pelá recebe Jota Aguiar, jornalista, fotógrafa documental, cineasta e produtora cultural, premiada no Dom Tomás Balduino e finalista do Fotodoc. Ela se define como uma pessoa disruptiva e corajosa, filha de jornalistas que a criaram para ser uma mulher livre e independente. Até a assinatura é gesto político: Jota adotou o nome neutro, rompendo com os estereótipos de feminilidade impostos.

Esse nome, conta, também é uma armadura, uma persona construída para se manter firme em ambientes machistas e misóginos. Uma força que ela reconhece vir da mãe, hoje com sessenta anos, que lhe ensinou desde cedo que ser mulher é ser dona de si. Ninguém, lembra o programa, senta nessa cadeira sozinha.

“A comunicação não é neutra. É disputa, é denúncia, é cuidado.”

Metamorfose: jornalismo livre num tempo censurado

O Metamorfose nasceu no pós-golpe de 2016, da recusa em aceitar a narrativa engessada da imprensa tradicional, que não deixava os jornalistas contarem o que estava acontecendo no país. Rebelde e inovador, foi um jornal muito além do seu tempo: brincava com a semiótica das palavras e com a forma do site, para uma leitura mais dinâmica e menos encaretada.

Durou oito anos e foi majoritariamente feito por mulheres, com forte protagonismo do fotojornalismo feminino. Teve edição impressa, rádio e online, cobriu cultura, política e economia, deu furos e foi um veículo relativamente grande em Goiás. Para Jota., o maior aprendizado foi de que é possível: fazer jornalismo independente, ser mulher e cobrir política e economia é possível.

“Foi um relance de esperança de que existe espaço para um jornalismo livre, democrático e bem posicionado.”

Quando a dor vira memória coletiva

No ensaio Atotô, palavra em iorubá que é uma saudação ao orixá da cura, das doenças e da morte, Jota. fotografou o enterro do próprio pai durante a pandemia, quando não se podia velar, com caixão fechado e sem cerimônia. Foi através do fotojornalismo que ela pôde se despedir. Ela é do candomblé, e trouxe essa palavra para nomear um processo de cura.

A exposição revelou que o luto não era só dela. Era o de mais de 700 mil famílias, num país que foi o que mais perdeu jornalistas para a Covid no mundo. Muita gente chegava chorando, tendo perdido alguém sem poder se despedir, e encontrava ali uma forma de fechar o ciclo. Antes disso, em Encerrado, ela já defendera o cerrado como espaço de vida e cultura; agora dirige seu primeiro longa, sobre destruição ambiental e história familiar.

“A arte cura. E percebi que aquilo não era um processo só meu.”

Fotojornalismo, insiste ela, é arte e política na mesma imagem, e responsabilidade. Não se usa Photoshop; a foto constrói a memória coletiva. Como lembra sobre Gaza, fotojornalistas são mortos justamente porque são o aparato de memória de um povo. Retratar a realidade é dizer de que lado se está, e isso fica claro nas fotos.

O bloco da ação: o olhar vale mais que o equipamento

No segundo episódio, a conversa vira prática. E o conselho começa por um gesto simples e difícil: começar. Quando a gente começa, diz ela, as coisas vão acontecendo. Ela conta que uma fotógrafa mais experiente, numa manifestação, lhe disse para sempre dar um jeito de estar nos lugares que julgasse importantes, e foi indo, fotografando e publicando de forma independente, até chamar atenção.

Autonomia Feminina • Ação
Conselho de olhar

“O importante é começar. E, se for com medo, vai com medo mesmo.”

“Esteja nos lugares que você acha que precisa estar. Publique, nem que seja com o celular.”

“O mais importante do fotógrafo não é a câmera, é o olhar.” (a dica que veio da mãe dela)

Jota também fala do erro sem vergonha. Fazendo agora a curadoria de dez anos de fotos de manifestação, vê a própria evolução e entende que foram os acertos e os erros da fotógrafa que ela era que a trouxeram até aqui. Errar é humano e faz parte do processo. Buscar referências e fazer rede também.

Autonomia é motivo para existir

Jota vem de um berço de luta: pai que enfrentou a ditadura, mãe sindicalista, pais ambientalistas. Foi na militância de rua e nas ocupações que o fotojornalismo entrou na sua vida, cobrindo manifestações. Diante de um mundo em que o fascismo avança, ela se informa em muitas fontes para construir sua noção de realidade e enfrentá-la, movida pela convicção de que existe para ajudar a construir um mundo mais justo para todas as pessoas.

Trabalhar com política e comunicação sendo mulher jovem exige garra e, ao mesmo tempo, sensibilidade, porque os ataques vêm, e há quem faça de tudo para que mulheres não ocupem esses espaços. O que ela deseja é estabilidade emocional para caminhar com firmeza, e reconhece a terapia como parte disso.

“Ser autônoma é o que me faz estar viva, sendo a mulher que eu sou.”

É também uma aposta coletiva. Quando as mulheres param de se ver como ameaça umas às outras e passam a agregar, quebrando a misoginia internalizada, o mundo fica mais habitável. Como atravessa todo o programa: juntas, somos mais fortes. Quanto mais mulheres, mais fácil fica.

Sua marca pode apenas comunicar. Ou pode assumir um compromisso.

Programa Marcas Aliadas • ACCA
Selo Marca Aliada

A ACCA está reunindo empresas, profissionais e instituições numa rede pública de compromisso com a vida e a autonomia das mulheres. Porque, diante da violência, o silêncio também comunica. E porque autonomia é condição coletiva, ninguém constrói esse caminho sozinha.

Quer descobrir o que a sua marca tem a ver com essa história?

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A Plataforma Autonomia Com Elas nasce de uma ideia simples: ninguém se faz sozinha. Cursos, formações, e-books e conteúdos sobre cultura, autonomia e geração de renda, pensados para mulheres que constroem caminhos junto.

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