Autonomia, Maternidade Atípica e o SUS com Vânia Vieira | Do Estúdio ao Blog

Autonomia, Maternidade Atípica e o SUS com Vânia Vieira | ACCA

Autonomia, Maternidade Atípica e o SUS

Com Vânia Vieira, mãe e artesã, exploramos a jornada de descobrir e aceitar os diagnósticos de TOD e TDD, o papel transformador do CAPSi, e como construir autonomia em meio aos desafios da maternidade atípica.

Do Estúdio ao Blog transforma as conversas do programa Autonomia Feminina da ACCA em textos que aprofundam contextos, trajetórias e ferramentas de ação política. Nesta edição especial, portanto, recebemos Vânia Nonato Vieira, mãe, artesã e uma das produtoras do programa, para uma conversa íntima e corajosa sobre sua experiência como mãe atípica de Vítor, criança diagnosticada com TOD e TDD, e sobre como o Sistema Único de Saúde, através do CAPSi, foi fundamental para transformar suas vidas.

Entre o Artesanato e a Maternidade: Quem é Vânia

Vânia Vieira não consegue falar de quem ela é hoje sem voltar às suas origens. Filha de Bento e Leonora, cresceu observando como seus pais, mesmo diante de dificuldades, sempre encontravam um jeito de cooperar com os outros e de resolver problemas com criatividade. Dessa forma, esses dois aspectos se tornaram pilares da sua própria vida: a certeza de que sempre há um caminho e a habilidade de olhar a mesma situação por múltiplas perspectivas.

Atualmente, Vânia equilibra sua vida entre a maternidade de Manuela e Vítor, o Ateliê Manu Malu (onde produz peças artesanais), e a produção do programa Autonomia Feminina. Entretanto, esses papéis não são separados: eles se entrelaçam constantemente, cada um alimentando o outro com aprendizados e desafios.

“Eu não consigo falar da Vânia de hoje sem vir da Vânia lá de trás. Sempre tem um jeito, e a criatividade me faz olhar a mesma coisa por várias perspectivas.”

Para Vânia, portanto, a maior dificuldade é olhar para o outro e entender que ele existe com seu próprio jeito, que não é sobre ela enquanto mãe ou sobre sua autoridade. É sobre reconhecer a autonomia do outro, especialmente de seu filho Vítor, e entender como ele precisa existir no mundo.

Os Primeiros Sinais: Quando Algo Parece Diferente

Vânia começou a perceber diferenças em Vítor desde muito cedo. Como mãe de segunda viagem, já tinha a experiência com Manuela, uma criança tranquila que dormia e comia bem. Assim, quando Vítor nasceu, ela imaginou que já sabia mais ou menos como funcionava. Mas logo percebeu que cada criança é única.

O bebê dormia pouco, comia com dificuldade e demonstrava irritação constante. Consequentemente, à medida que crescia e começava a se comunicar, as diferenças ficavam mais evidentes: ele não ia no colo de outras pessoas (só dos pais), reagia com agressividade quando alguém tentava pegá-lo, e não seguia os padrões sociais esperados de uma criança.

“As pessoas esperam de uma criança beijinho, abraço, tem que ir no colo de todo mundo. O Vítor não fez isso, porque ele tem o TOD: o Transtorno Opositor Desafiador.”

Nesse sentido, o TOD faz com que a criança desafie tudo e todos sem conseguir processar antes: ela já desafia automaticamente. Por outro lado, essas diferenças foram interpretadas pela sociedade como falta de educação, e Vânia ouviu inúmeras vezes frases como: “Você está sendo muito permissiva”, “Isso precisa de educação”, “No meu tempo não era assim”, “Um cinto resolve isso”.

O Peso do Julgamento Social

Essas falas externas atrapalharam muito o processo de compreensão do que realmente estava acontecendo. Além disso, a convivência de Vítor foi ficando cada vez mais limitada, porque levar uma criança atípica a ambientes sociais se tornava constrangedor para Vânia.

Com efeito, crianças atípicas não são bem recebidas em meios familiares, sociais ou escolares. Elas têm um jeito diferente de existir, e a sociedade ainda não sabe lidar com essa diferença. Consequentemente, o ciclo se retroalimenta: a criança não é acolhida, o ambiente fica hostil, os comportamentos se intensificam, e o isolamento aumenta.

Importante compreender: Uma criança com TOD e TDD não é birrenta, malcriada ou mimada. São diagnósticos reais de transtornos de comportamento que precisam de acompanhamento especializado. Julgar e punir apenas agrava o sofrimento da criança e da família.

O Divisor de Águas: A Chegada ao CAPSi

Durante muito tempo, Vânia intuía que algo estava diferente, que a afronta de Vítor era, na verdade, um pedido de ajuda. No entanto, sem ter um nome para isso e com Vítor ainda muito pequeno, a comunicação era difícil. Ela passou por alguns profissionais, mas foi uma conversa casual com uma amiga que mudou tudo.

Essa amiga tinha um filho com comportamentos parecidos e havia sido indicada pela tia psicóloga para um lugar público com atendimento excelente: o CAPSi (Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil). Inicialmente, Vânia hesitou, carregando o preconceito social comum sobre os CAPS, alimentado por memes e piadas que ridicularizam esses espaços de saúde mental.

“Fiquei assim: CAPS? Aquele preconceito que a gente tem, né? Inclusive, é muito problemático essa cultura de memes. ‘Vai pro CAPS’. Isso é muito ruim, porque é um lugar muito bom. Estamos falando de saúde, de acolhimento, de direito.”

Quando finalmente foi, Vânia percebeu imediatamente a diferença. Na primeira consulta, levou brinquedos e celular, armada de recursos para que Vítor não explodisse ali. Entretanto, a psicóloga simplesmente disse: “A gente só vai conversar. Eu quero te ouvir. O que te trouxe aqui? Como é o Vítor? Pode deixar ele brincar.”

Dessa forma, aquele foi o momento em que Vânia sentiu, pela primeira vez, que estava sendo realmente ouvida sem julgamentos.

Entendendo o TOD e o TDD

No CAPSi, após a triagem completa, Vítor recebeu os diagnósticos de TOD e TDD. Portanto, é fundamental entender o que são esses transtornos:

TOD – Transtorno Opositor Desafiador:

• Comportamentos impulsivos e desafiadores constantes

• A criança desafia regras, limites e autoridades de forma automática

• Dificuldade em processar pedidos antes de reagir com oposição

• Exige presença inteira e estratégias específicas de manejo

TDD – Transtorno Disruptivo de Desregulação do Humor:

• Emoções intensas e difíceis de regular

• Explosões emocionais desproporcionais às situações

• Irritabilidade persistente e mudanças bruscas de humor

• Com acolhimento e tratamento adequados, essas tormentas se tornam navegáveis

Além disso, é importante destacar que o CAPSi atende especificamente transtornos de comportamento e de humor. Casos de autismo, por exemplo, que têm características mais fisiológicas, são encaminhados para outros locais especializados.

A Transformação Através do Cuidado Público

Após o diagnóstico, Vítor começou a frequentar os grupos terapêuticos para crianças, enquanto Vânia e o pai, Henrique, passaram a participar dos grupos para famílias. Ali, Vânia descobriu um universo completamente novo.

“Nossa, tem um monte de gente que passa por isso! E não é fracasso da educação que eu estou dando. Isso é uma coisa dele. Ele precisa de ajuda, e eu também, porque a gente também precisa de estratégia.”

Consequentemente, no CAPSi, Vânia compreendeu que não estava sozinha e que o comportamento de Vítor não era resultado de falha dela como mãe. Similarmente, aprendeu que existem estratégias científicas e acolhedoras para conviver melhor, educar de forma mais efetiva e mostrar ao Vítor outros jeitos de existir que sejam mais leves e divertidos.

Atualmente, Vítor é uma criança que tem amigos, estuda, tira notas boas e, principalmente, sorri. Ele não sorria antes. Hoje ele abraça e consegue viver sua infância com leveza.

O Impacto na Família: Manuela e as Redes de Cuidado

Manuela, a filha mais velha de Vânia, também foi profundamente afetada pela situação. Como irmã de uma criança atípica, ela vivenciou a irritabilidade e, às vezes, a violência de Vítor nas dificuldades de comunicação dele.

Dessa forma, Manuela começou a se fechar emocionalmente. Na escola, passou a falar sobre o desconforto com o irmão para os professores, mas em casa tentava preservar a mãe, não falando tudo o que sentia. Assim, ela começou a se ausentar mentalmente, estando fisicamente presente na sala de aula mas em outro universo.

Quando a escola chamou Vânia, ficou evidente a importância da parceria entre educação, casa e família. Portanto, ninguém sozinho consegue dar conta: são necessárias redes de apoio. A escola passou pelas dificuldades junto com a família, construindo estratégias conjuntas.

Vânia levou Manuela para atendimento psicológico e também para participar de reuniões no CAPSi, no grupo das crianças. Por conseguinte, toda a família passou a receber cuidado: Vítor, Manuela, o pai e a própria Vânia.

Com o tempo, Manuela encontrou na dança e na música formas de se expressar e extravazar sentimentos. Afinal, a arte consegue acessar lugares que as palavras não alcançam.

Artesanato e Autonomia Econômica

A maternidade atípica também impõe desafios profissionais específicos. Durante diversas entrevistas de emprego, Vânia percebeu que boa parte do tempo era focada em perguntas como: “E se seu filho adoece, você tem com quem deixá-lo?” Essa realidade mina a autonomia econômica das mulheres, especialmente das mães de crianças atípicas.

Nesse sentido, o artesanato surgiu como uma porta para a autonomia. O Ateliê Manu Malu (nome que homenageia Manuela e um apelido carinhoso) oferece a flexibilidade necessária para que Vânia possa prover financeiramente enquanto observa e cuida de Vítor com a atenção diferenciada que ele precisa.

“O artesanato me permite fazer das minhas próprias mãos o sustento. A gente transforma essa dor em algo para entregar pro mundo.”

Dessa forma, Vânia enxerga sua autonomia em três pilares fundamentais. Como artesã, consegue prover financeiramente; como mãe, desenvolve plenamente esse papel sem negligenciar suas responsabilidades; e como cidadã, exerce seu direito ao SUS e exige saúde de qualidade para ela e seu filho.

Dicas Práticas para Mães que Estão Iniciando

Com base em sua experiência, Vânia oferece orientações concretas para mães que percebem algo diferente em seus filhos e não sabem por onde começar:

Passo a Passo para Buscar Ajuda:

• Documente tudo: peça relatórios da escola, encaminhamentos do pediatra, qualquer registro que você tenha

• Vá direto ao CAPSi mais próximo: não precisa de encaminhamento prévio, o próprio serviço faz a triagem

• Leve comprovante de endereço, documentos pessoais e todos os relatórios que conseguir reunir

• Prefira ir em horário oposto ao da escola: se seu filho estuda à tarde, vá pela manhã para a triagem (e vice-versa)

• Priorize o atendimento presencial: não conte apenas com ligações telefônicas, vá diretamente com as cópias dos documentos

• Tenha paciência: pode demorar uma semana ou um mês, mas funciona. Eles vão te chamar e atender

Finalmente, Vânia ressalta: é melhor pecar pelo excesso do que pela falta. Se você vê que seu filho está com algum sofrimento, dificuldade para brincar, se relacionar ou aprender na escola, procure ajuda. Se depois for constatado que está tudo dentro do desenvolvimento normal, ótimo. Mas você procurou, e isso faz toda a diferença.

A Criança Não é o Diagnóstico

Um dos pontos mais importantes que Vânia faz questão de destacar é que, por mais que os diagnósticos sejam fundamentais para entender e buscar o tratamento adequado, a criança não pode ser reduzida a eles.

“O diagnóstico não é tudo. Vítor não é só irritado o tempo todo, ele não é um furacão. Vítor é carinhoso, Vítor é alegre, e ele sempre foi. A percepção das pessoas é que não atingia isso.”

Portanto, não use o diagnóstico para rotular a criança. Não diga para ela: “Você é assim porque você tem isso”. O diagnóstico é uma ferramenta para compreensão e tratamento, não uma sentença definitiva sobre quem a criança é ou será.

Como o próprio psiquiatra de Vítor explicou, esses transtornos estão sendo tratados exatamente para que, na vida adulta, ele consiga conviver com eles de maneira saudável. O objetivo não é curar ou apagar quem ele é, mas dar ferramentas para que ele possa lidar melhor com suas características e viver plenamente.

Reflexão importante: Assim como alguém com fibromialgia não é definido pela doença, uma criança com TOD e TDD não é definida pelos transtornos. O diagnóstico nomeia para libertar, não para aprisionar. Ele oferece caminhos para uma vida mais feliz e tranquila, mas não determina os limites de quem essa pessoa pode ser.

O SUS Como Direito, Não Como Favor

Ao longo de toda a conversa, Vânia reforça constantemente que o SUS é um direito de todos os brasileiros. O CAPSi, especificamente, é um serviço público gratuito e de qualidade, que salva vidas e transforma famílias inteiras.

Entretanto, ainda existe muito preconceito em relação aos serviços de saúde mental pública. Memes e piadas sobre “ir pro CAPS” perpetuam estigmas que impedem pessoas de buscarem a ajuda que precisam e têm direito.

Similarmente, é fundamental entender que buscar saúde mental no SUS não é luxo, não é favor, não é motivo de vergonha. É exercício de cidadania, é cuidado com a saúde integral, é direito constitucional.

Por Que o CAPSi é Fundamental:

• Atendimento multidisciplinar gratuito (psicólogos, psiquiatras, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais)

• Grupos terapêuticos para crianças e famílias

• Abordagem que não rotula, mas acolhe e oferece estratégias concretas

• Rede de apoio entre famílias que passam por situações semelhantes

• Acompanhamento longitudinal, não pontual

• Direito garantido pelo SUS, sem necessidade de encaminhamento prévio

Recados Finais: Para Mães, Para a Sociedade

Vânia encerra sua participação com recados diretos para diferentes públicos. Para as mães, especialmente aquelas que estão no início dessa jornada e se sentem perdidas, culpadas ou isoladas, ela diz:

Em primeiro lugar, confie na sua intuição. Se você percebe que algo não está bem, procure ajuda. Não se deixe paralisar pelos julgamentos externos. As cobranças são enormes, mas você não está errada em não bater, em buscar compreensão em vez de punição, em querer entender em vez de simplesmente controlar.

Além disso, documente tudo e vá diretamente aos serviços públicos de saúde mental. O caminho pode parecer tortuoso, mas funciona. Vânia mesma reconhece que fez curvas desnecessárias por falta de informação. Por isso ela insiste: informação é libertação.

Por fim, respire e entenda qual é o real problema. Isso não é fracasso seu, não é falta de educação, não é manha. Trata-se de uma condição que precisa ser nomeada, compreendida e acompanhada. Além disso, há ajuda disponível e acessível.

Para a sociedade em geral, o recado é de empatia e respeito. Crianças atípicas existem, têm direito de existir plenamente, e precisam de ambientes acolhedores, não hostis. Antes de julgar uma mãe ou uma criança, pare e se questione: você realmente entende o que está acontecendo? Sua atitude contribui para o acolhimento ou para o isolamento?

Finalmente, é fundamental combater o preconceito contra os serviços de saúde mental pública. O CAPS não é piada, não é ameaça, não é vergonha. Pelo contrário, representa saúde, direito e vida.

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