O fim das coisas dói
O dia começa como se nada tivesse acabado. A luz entra pela janela. O celular vibra. E eu continuo.
O tempo não explica. Não consola. Ele apenas passa. Lento. Silencioso. Essencial. É ele quem constrói a ponte entre o que feriu e o que, um dia, já não dói tanto.
Por enquanto, uma dor recente ocupa todo o quadro. As cicatrizes antigas ficam fora de foco. Por um tempo.
Talvez seja verdade que os fins fazem amadurecer. Como uma fruta que cresce no galho, atravessa sol, vento, tempestade… e só depois é colhida.
Quem morde não vê a chuva. Só sente o gosto. Depois da aceitação, surgem frestas. Lugares novos. Rostos novos. Risos que chegam sem aviso. O coração, ainda desconfiado, testa seus próprios batimentos.
E então aparecem histórias. Esquinas. Ônibus. Conversas simples. A vida em estado bruto.
Como a borboleta que sai do casulo sem mapa, aprendo a existir fora da dor.
Quando um capítulo termina, o livro não acaba. Ele muda de forma. Às vezes ganha continuação. Vira filme.
Às vezes é escrito com um lápis gasto. Ou com a câmera do celular.
Os finais vão acontecer. Mais de uma vez. Mas enquanto o último corte não chega, fica a promessa de renascer.
Cansaço.
Medo.
Furos no roteiro.
uma sequência de recomeços
entre um fim e outro.
Mini bio
Ottair é ator, cantor, performer, drag queen e produtor musical. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena (PPGAC/UFG). Licenciado em Teatro pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Essa crônica foi escrita a partir de um texto resgatado do TCC da graduação, “FÚRIA: depoimento autobiográfico e experiência vivida como material para criação performática e colaborativa de um videoclipe”.
Crônicas Feministas | ACCA
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