Saúde Mental da Mulher: Desconexão, Sobrecarga e Caminhos de Autonomia
Com Kellen Lima, psicoterapeuta e contoterapeuta, exploramos como a jornada tripla, a desconexão do corpo e o medo da liberdade afetam a saúde mental feminina, e descobrimos ferramentas práticas de transformação através do cuidado coletivo.
Do Estúdio ao Blog transforma as conversas do programa Autonomia Feminina da ACCA em textos que aprofundam contextos, trajetórias e ferramentas de ação política. Nesta edição, portanto, recebemos Kellen Lima, psicoterapeuta individual para mulheres adultas, mentora de lideranças femininas e facilitadora de grupos terapêuticos através da contoterapia. Juntas, exploramos uma conversa profunda sobre por que a saúde mental da mulher ainda é invisibilizada, como a sobrecarga se manifesta no corpo e na mente, e quais caminhos concretos existem para reconexão, autonomia e transformação.
Por Que a Saúde Mental da Mulher Ainda É Invisibilizada?
Esses números carregam histórias de sobrecarga, jornadas triplas e solidão emocional. Além disso, revelam mulheres que cuidam de tudo, mas esquecem de cuidar de si. Por outro lado, enfrentam violências sutis e explícitas todos os dias.
Kellen em Construção: Mulheres que Lideram e Cuidam
Kellen não consegue falar de quem é hoje sem voltar às suas raízes. Filha e neta de mulheres liderantes e sensíveis, cresceu observando sua avó parteira e tesoureira, e sua mãe cuidadora. Essas mulheres tinham autonomia para ser o que eram e, ao mesmo tempo, exerciam o cuidado na comunidade.
Dessa forma, foi nesse ambiente que desenvolveu seu interesse pela psicologia. Formada desde 2004, com 21 anos de trajetória profissional, ela vem dedicando sua escuta principalmente às mulheres. Afinal, são elas o público que mais procura terapia.
“Kellen está em construção. A gente vai mudando à medida que a gente vai avançando com a vida. A vida vai ensinando muito a gente.”
Ao longo desses anos, construiu uma carreira acadêmica e clínica com especializações em psicodrama, psicologia analítica e contoterapia. São três abordagens que se complementam no trabalho de reconexão feminina com o corpo, a intuição e a autonomia emocional.
A Linha do Tempo da Exploração Feminina
Para entender o impacto da sobrecarga na saúde mental das mulheres, Kellen propõe uma linha do tempo histórica. Primeiramente, ela retoma a época das parteiras, quando as mulheres eram as únicas que entendiam sobre seus próprios corpos e processos. Naquela época, os médicos da província não aceitavam mulheres. No entanto, tiveram que inseri-las justamente porque eram as únicas que compreendiam a fisiologia feminina.
Consequentemente, hoje ainda existe esse legado de colocar a mulher no lugar exclusivo de cuidadora. Além disso, há uma dimensão de exploração dessa mulher em todos os segmentos. Por exemplo, ela é explorada como mãe (devendo ser perfeita) e como líder (recebendo salários 20 a 40% menores que homens em posições equivalentes). Similarmente, também sofre exploração como esposa e como dona de casa.
Dessa forma, essa carga cultural se manifesta diretamente na saúde mental feminina. No consultório, chegam mulheres com depressão altíssima, crises de ansiedade e burnout em níveis alarmantes. Isso acontece porque hoje a mulher faz jornada tripla de trabalho. Ou seja, ela é mãe, trabalha fora e cuida da casa simultaneamente.
A Desconexão do Corpo e o Adoecimento Feminino
Um dos pontos centrais da análise de Kellen é que a sobrecarga não afeta apenas a mente: o corpo também apresenta sintomas. Mulheres chegam ao consultório relatando que estão deprimidas. Entretanto, ao aprofundar a escuta, desencadeiam uma série de outros sintomas físicos além da depressão.
Assim, a mulher desconectou do próprio corpo. Ficou nesse lugar de ter que dar conta de tudo e, consequentemente, desconecta do corpo porque não cuida mais de si. Em outras palavras, parou completamente de cuidar de si mesma.
“A primeira fonte que a gente tem de contato feminino é o corpo da gente, porque foi através dele que a gente se descobre muita coisa.”
Sintomas Físicos Recorrentes em Mulheres Sobrecarregadas:
• Depressão e ansiedade
• Câncer de mama
• Endometriose
• Fibromialgia
• Distúrbios do climatério
Portanto, tudo isso carrega uma carga emocional e cultural que atravessa o corpo feminino. Por essa razão, o feminismo entra justamente para olhar esse lugar também. Trata-se da questão de saúde pública, de políticas públicas para mulher, de direitos básicos ao cuidado integral.
Atualmente, Kellen atende uma faixa significativa de mulheres que estão entrando no climatério. Essas pacientes apresentam sintomas específicos dessa fase. Nesse sentido, a psicoterapeuta observa que o capitalismo sabe trazer essa desconexão da mulher com o corpo, com ela mesma, com suas intuições. Como resultado, a mulher vira uma máquina.
O Tempo Rápido e a Ausência de Reflexão
Existe uma dimensão temporal que intensifica todo esse processo. Vivemos num tempo rápido que é exigido para dar conta de necessidades impostas. Quando você tem esse tempo acelerado, não há espaço para reflexão, para pensar, para sentir. Nesse ritmo frenético, você age sem nenhum desses processos essenciais.
Nesse sentido, Kellen volta ao corpo para simbolizar o processo. Primeiramente, quando entramos na puberdade, temos uma transformação e ali começa a menstruação. Portanto, começamos por ali: entender nosso ciclo. Da mesma forma, quando progredimos na vida, se não conseguimos fazer essa nova conexão com o corpo, entender nossos ciclos e nossos tempos, viramos essa máquina enlouquecida.
O Medo da Liberdade e da Autonomia
Um dos achados mais impactantes da prática clínica de Kellen é perceber que muitas mulheres, quando começam a se reconectar e vislumbrar autonomia, recuam com medo. Esse processo de opressão é tão pesado que algumas mulheres, por causa dessa formação social arraigada, não dão conta de conviver com essa liberdade.
Além da desconexão, há uma fragmentação: “Ah, eu quero ser daquele jeito”. Mas como construir esse caminho? Nesse contexto, a psicoterapeuta trabalha com suas pacientes justamente esse processo de reconexão gradual com a essência feminina.
“A gente está no resgate desse feminino, porque durante muito tempo esse feminino, todo mundo tinha medo dele, até nós mulheres temos medo dele, do potencial que ele tem.”
Consequentemente, por uma questão histórica, as mulheres foram queimadas na Inquisição. Se tinham contato com a natureza, se mexiam com ervas, se tinham intuição ou premunição, eram queimadas. Portanto, hoje a mulher ficou tão reprimida em relação a essa conexão com ela mesma. Isso acontece porque o feminino traz esse potencial de intuição, de previsões, de provisões.
Através dessa desconexão que observa no consultório, Kellen tenta trazer esse resgate. Em primeiro lugar, para a mulher entender esse potencial que ela tem. Entretanto, muitas recuam. Dizem: “Não, Kell, eu não escolho essa vida mesmo. Do jeito que está está bom, porque eu vou ter que romper com muita gente.”
A Armadilha dos Micropoderes:
Aí entra a questão: se eu sair desse papel, do controle que esse papel me dá, como fica o outro? É tão condensada essa questão de ter que cuidar do outro e achar que o outro está na minha mão. São os micropoderes que Foucault tanto discute. Afinal, qual é o poder que a mulher também ganha ao estar num lugar de subjugação?
Kellen Lima e Márcia Pêla no estúdio do programa Autonomia Feminina: uma conversa sobre reconexão, autonomia e saúde mental feminina.
Contoterapia: Reconexão Através das Histórias
A contoterapia chegou depois do psicodrama na vida de Kellen. Primeiramente, sua formação e especialização foi em psicodrama, que traz o teatro, a expressão, entrar nos papéis. Posteriormente, veio a psicologia analítica com Jung, com os mitos, histórias dos deuses e deusas.
Dessa forma, nossa psique trabalha muito com imagens, com histórias, com contos. Por essa razão, Kellen trouxe a contoterapia para seus atendimentos. Quando a paciente estava no processo terapêutico, ela contava uma história ou um mito. Alternativamente, perguntava qual era o desenho animado que a paciente mais gostava na infância. Ali, trazia as imagens para o inconsciente. Consequentemente, revelando fenômenos que a psique trazia como informação inconsciente.
“A contoterapia trabalha as questões emocionais e inconscientes, mas também esse senso de comunidade, de pertencimento. E isso acelera um pouco mais o processo.”
Atualmente, Kellen aplica a contoterapia em grupos de mulheres. Como são várias mulheres, existem muitas histórias parecidas, e uma ajuda a outra. Portanto, esse senso de comunidade, de pertencimento, que a contoterapia ajuda a resgatar, além de trabalhar as questões emocionais e inconscientes, também trabalha essa relação entre eu e o outro. Em suma, trabalha o coletivo.
Caminhos Práticos: Onde Buscar Ajuda
Além da terapia individual, Kellen destaca a importância de buscar grupos terapêuticos. Em Goiânia, ela observa uma formação crescente de redes de mulheres que se encontram e discutem temas específicos. Por exemplo, grupos focados em maternidade, onde as participantes vão tendo essa conexão com a história e com elas mesmas.
Entretanto, para a questão de saúde mental propriamente dita, o processo é terapêutico. Ou seja, buscar ajuda profissional quando precisa, encontrar-se com outras mulheres para essa transformação.
Primeiros Passos Para Quem Quer Começar:
• Grupos de yoga e atividades físicas coletivas
• Grupos de viagens e encontros entre mulheres
• Participar de coletivos feministas e culturais
• Ir sozinha para conhecer novos ambientes (bares, eventos culturais, espaços públicos)
• Sair da lógica de “só vou se uma amiga for”
Dessa forma, esse movimento de autonomia já começa a desconstruir o assujeitamento. Afinal, a lógica predominante é: eu só existo a partir do outro (normalmente o pai, o marido, o filho). Quando você sai com amigas, vai para o bar, para o estádio de futebol, quando já faz esse movimento, você já está desconstruindo alguma coisa.
Além disso, é sobre como você se percebe nesse lugar onde não tem controle. Você se percebe vulnerável. E a grande dificuldade nossa também é aceitar essa vulnerabilidade. No espaço público, ela não tem o poder que tem dentro de casa.
Serviços Públicos e Gratuitos de Saúde Mental
Para mulheres que precisam de apoio psicológico e não têm recursos financeiros, existem diversas portas de entrada no serviço público. Felizmente, há muitas opções gratuitas ou de baixo custo disponíveis:
Onde Buscar Atendimento Gratuito ou de Baixo Custo:
• CAPS (Centros de Atenção Psicossocial): atendimento público gratuito pelo SUS
• Ouvidoria da Mulher: atende mulheres com violência doméstica e psíquica
• Clínicas-escola de psicologia: atendimentos supervisionados por valores acessíveis
• Sogépica do Psicodrama: atendimentos em grupo com abordagem psicodramática
• Instituto Olhos da Alma: psicologia analítica junguiana
• IGEP da Gestalt: psicoterapia gestáltica
• CESC e Senac: atendimentos com preços reduzidos
• Faculdades de psicologia: clínicas-escola com atendimento supervisionado
Importante destacar que são linhas de atendimento terapêutico diferentes, abordagens distintas. Todas trabalham com saúde mental. No entanto, são escolas que se especializam nessas linhas, assim como existem diferentes especialidades médicas.
O Processo de Individuação: Encontrar a Própria Essência
Kellen trabalha com a psicologia analítica de Jung, que fala da individuação. Nesse processo terapêutico, quando chegamos a uma certa idade, vamos conseguindo quebrar padrões. Esses padrões foram construídos desde o inconsciente pessoal (com pai, mãe, sociedade) até chegar ao que é da nossa essência.
“Na psicoterapia é isso: o que é da minha essência? Eu quero ser mãe? OK, você escolhe ser mãe. Não quero ser mãe? Eu atendo muitas mulheres que decidem não ser mãe, que não querem viver a maternidade.”
Portanto, é sobre ela entender como funciona no processo terapêutico. E é um processo. Ou seja, não é do dia para a noite, não é fórmula milagrosa ou instantânea. Pelo contrário, são muitas dores e muitas camadas.
Além disso, a vida vai apresentando para a gente o que temos que viver. Por exemplo: “Ah, eu não quero ser mãe, mas aconteceu, agora sou mãe.” Então a vida está te apresentando isso. Nesse caso, como você vai querer desenvolver esse papel?
Por essa razão, fala-se do indivíduo na questão da individuação. Não como individualista, mas como atuante. Em outras palavras, sendo protagonista da própria vida. Isso significa escolher da maneira que quer e aceitar o preço que está disposto a pagar por suas escolhas.
Autonomia Feminina: Cuidar de Si Para Cuidar do Outro
Ao falar sobre como a autonomia feminina fortalece a mulher quando ela assume o controle emocional e financeiro da própria vida, Kellen compartilha que vê isso no dia a dia. Mulheres chegam fragilizadas, com dificuldade de relacionamento, com a maternidade, ou fazendo jornada tripla de trabalhar, trabalhar e ainda cuidar da casa.
Dentro desse processo, uma virada de chave acontece quando ela se torna responsável pelas próprias escolhas. “OK, eu vou sair desse lugar porque esse lugar está me adoecendo. Vai ter uma consequência, mas se eu cuidar de mim, estou cuidando da minha saúde, da minha saúde mental, do meu emocional.”
“Se eu cuidar de mim, vou dar conta de fazer pelo outro. A autonomia está nesse lugar: quando aprendo a cuidar de mim, aprendo a fazer minhas escolhas, e consigo buscar minha individuação. Ali consigo ser autônoma em muita coisa.”
Dessa forma, cuidar de si não é egoísmo. Cuidar de si é um ato político, é construir autonomia. Em outras palavras, é transformar-se mesmo em meio às tempestades.
Para as mães especificamente, Kellen é direta: “Ah, não tenho tempo de cuidar de mim porque tenho que cuidar dos filhos, trabalhar…” E se acontecer alguma coisa com você, o que vai acontecer?
Portanto, é essencial encarar quem a gente é, enfrentar as dores, sair do sofrimento homeopático e escolher: você quer ficar nesse sofrimento ou quer sair dele? Afinal, como vai dar alguma coisa ao outro se não tem? Como vai cuidar do outro se não tem condição de cuidar de si?
Informação Como Libertação
A informação é fundamental nesse processo. Kellen reforça que as mulheres precisam se conectar com essa informação. Você pode escolher o papel que quiser, o que quiser. Entretanto, desde que tenha consciência do que está fazendo.
Se você quer ser essa mulher do poder, mandar e repetir padrões, que saiba do que está fazendo. Nesse contexto, a psicologia contribui justamente oferecendo esse espaço de descoberta. Nesse ambiente, a mulher vai se encontrando no processo terapêutico.
Desmistificar a Terapia:
É importante desmistificar a questão de analista, psicólogo, tratar da saúde mental. Não tenha vergonha. Afinal, é um direito, é um ato político.
Você faz parte de um todo. Além disso, tem um monte de gente igual a você passando pelas mesmas dificuldades. Portanto, não está sozinha, e há caminhos de reconstrução.
Redes de cuidado crescem onde antes só havia silêncio. A superação não é mágica. Pelo contrário, ela nasce do direito à escuta, ao cuidado e à autonomia.
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Episódio 29: Saúde Mental da Mulher com Kellen Lima – Parte 1 Episódio 30: Saúde Mental da Mulher com Kellen Lima – Parte 2Fortaleça Vozes que Transformam Cuidado em Direito
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