Os cabelos de Alzenira
Alzenira, mulher parda, olhos arregalados como duas jabuticabas no pé, cabelos longos e pretos, aprendeu cedo um silêncio pesado, que se deitava sobre a casa e não deixava ninguém respirar direito. O pai tinha mãos grandes e ameaçadoras; uma voz que chegava antes dele entrar pela porta. Os tios repetiam os mesmos gestos, os mesmos risos grossos, a mesma certeza de que o mundo tinha sido feito para homens e que
Alzenira cresceu aprendendo a desviar os olhos, a encolher os ombros, a pedir desculpa por coisas que nem havia feito. Ninguém chamava aquilo de violência. Chamavam de “educação”. Chamavam de “coisa de família”. E assim, sem perceber, Alzenira foi sendo moldada como um vaso frágil que todos podiam manipular. Quando conheceu o homem que viria a ser seu marido, acreditou que o amor fosse finalmente a porta de saída daquele mundo. Ele falava baixo no começo.
Chamava-a de “minha rainha”. Dizia que iria protegê-la. Alzenira não sabia ainda que
Com o tempo, o amor começou a ter regras. Primeiro vieram os ciúmes. Depois as perguntas.
Depois as proibições.
— Por que você sorriu para aquele homem?
— Por que demorou tanto para voltar?
— Por que está usando esse vestido?
Quando Alzenira percebeu, já não sabia mais onde terminavam os pensamentos dela e onde começavam as ordens dele. Ele dizia que batia porque amava. Dizia que gritava porque se importava. Dizia que ela era dele. E o pior de tudo é que ela quase acreditava. Anos se passaram assim, como se a vida fosse um corredor estreito onde Alzenira caminhava sempre com medo. Até o dia da faca.
A discussão começou pequena, como sempre começam as tragédias domésticas. Uma palavra atravessada, um prato batendo na pia, um olhar interpretado como desafio. O aço brilhou na mão dele. A facada veio rápida, como se o mundo tivesse piscado. Alzenira não morreu naquele dia. Mas algo dentro dela sangrou para sempre. Além da dor física, o medo, a humilhação, a confusão mental lhe oprimia. No hospital, enquanto os pontos fechavam sua pele, ela pensava que sobreviver também pode ser uma forma de luta. Mas a violência ainda não tinha terminado.
Alguns meses depois, numa crise de ciúme, o ex-marido pegou uma tesoura e perseguiu-a; segurou os cabelos de Alzenira, aqueles cabelos que ela cuidava desde menina, que caíam pelas costas como um pedaço de dignidade. E começou a cortar. Mecha por mecha. Os fios caíam no chão como pequenas derrotas. Ele dizia que era para ela “aprender”. Mas o que Alzenira aprendeu naquele dia foi outra coisa.
Nem no tapa. Ela começa muito antes. Começa na infância, quando uma menina aprende que deve obedecer. Que não pode andar de bicicleta e nem jogar bola porque é brinquedo de menino. Começa na família, quando dizem que homem é assim mesmo. Começa na sociedade, quando se espera que mulheres agüentem tudo em silêncio.
Durante anos, Alzenira foi ensinada a suportar. Mas ninguém nasce para suportar violência. Um dia, olhando seus cabelos curtos no espelho, irregulares, tortos, quase arrancados, Alzenira percebeu algo que nunca tinha percebido antes:
A história de Alzenira não é rara. Ela mora em muitas casas, atrás de muitas portas fechadas. Está nas manchetes que chamam feminicídio de “crime passional”. Está nas frases que dizem “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Mas talvez seja hora de entender algo simples. Igualdade não é pedir que mulheres sejam fortes o tempo todo. Não é sobrecarregá-las com a obrigação de resistir.
Igualdade é criar oportunidades para que elas não precisem sobreviver o tempo inteiro. É garantir segurança. Voz. Autonomia. É desmontar, tijolo por tijolo do velho edifício chamado patriarcado. Porque cada mulher que sofre em silêncio é um espelho quebrado da sociedade inteira. E porque, no fundo, o mundo só será realmente humano no dia em que nenhuma mulher precise perder o cabelo, o corpo ou a vida para provar que merece respeito.
E talvez seja exatamente aí que mora a contradição que tantas vezes tentam suavizar com flores, frases prontas e artes cor-de-rosa nas redes sociais. Porque ser mulher nunca foi apenas sobre celebrar, foi, sobretudo, sobre atravessar. Atravessar silêncios impostos, expectativas herdadas e culpas que não lhes pertencem. A voz de mulheres que já não aceitam mais ocupar o lugar da falta, do apagamento ou da docilidade conveniente está viva.
No dia 8 de março não é apenas um dia de homenagens, de mobilizar o mercado de cosméticos ou de compartilhar mensagens bonitas na internet. É, antes de tudo, um dia de resistência. Um lembrete de que existir como mulher ainda exige coragem, consciência e posicionamento. É o dia de questionar estruturas, de nomear injustiças, de sustentar a própria voz mesmo quando ela incomoda. É sobre resiliência coletiva, sobre não aceitar o silêncio como destino, e sobre transformar memória em movimento. Que o 8 de março seja um convite permanente para ocupar espaços, confrontar desigualdades e lembrar que a luta das mulheres não cabe em um post, ela se constrói todos os dias, na palavra, no gesto e na coragem de se posicionar.
Mini bio
Aline de Fátima Marques é feminista, doutora em Geografia, mestre em Geografia pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), especialista em Psicopedagogia Institucional, graduada em Geografia e Pedagogia, professora efetiva da rede municipal de educação e pesquisadora dos territórios do Cerrado. Atua com geoliteratura, literogeografia, dinâmica territorial, agricultura camponesa, produção de alimentos saudáveis e agroecológicos e educação geográfica. É representante discente na ANPEGE, colunista do blog Multiplicadores de Vigilância em Saúde do Trabalhador (FIOCRUZ/RJ), integrante do Grupo de Estudos Saúde do Trabalhador – Multiplicadores de VISAT/FIOCRUZ-RJ, secretária e pesquisadora do grupo “Espaço, Sujeito e Existência – Dona Alzira” (UFG/IESA), sócia da AGB Goiânia e acadêmica imortal da CILA – Confraria Internacional de Literatura e Arte, ocupando a Cadeira 87 da Patrona Toni Morrison.
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