O que fica quando o mês vira
Tem uma hora estranha no fim de maio. Não é o último dia. É antes, quando você já sente que o mês está acabando mas ainda não acabou, e fica com aquela sensação de coisa inacabada, de conversa que ficou pela metade.
Minha mãe fazia aniversário no dia 5 de maio. Todo ano o mundo resolvia homenagear as mães justamente no dia em que eu já estaria pensando nela. Esse ano, com ela ausente, foi diferente. E foi igual.
Foi assim esse maio para mim. A ACCA passou o mês falando das mães. E eu fui lembrando, a cada texto, da minha.
Estou com saudades dela. E pensando nisso, me veio uma coisa que demorei anos para entender: o momento mais importante da nossa relação foi quando eu a dessacralizei. Quando parei de ver nela a mãe perfeita, a que nunca errava, a que existia só para mim, e comecei a ver a mulher. Com história própria. Com desejos que eu nunca perguntei. Com medos que ela nunca mostrou. Com uma vida inteira que aconteceu antes de eu chegar.
Foi quando o amor ficou real. Menos bonito em alguns momentos, mais verdadeiro em todos.
Todo mundo tem mãe. Ou teve. Ou carrega dentro de si alguém que exerceu esse amor. E esse mês foi uma oportunidade de olhar para esse amor com a seriedade que ele merece, sem romantizar, sem diminuir, sem transformar mulher em símbolo.
Mas ao longo do mês, me dei de frente com números que eu já sabia. Que não me surpreendem mais. Que me indignam.
Treze mil mulheres assassinadas desde 2015. Cada uma com filhos. Cada uma com uma conta de luz no nome ou não, um aluguel vencido ou não, um homem que controlava a renda ou não.
Foi esse “ou não” que ficou me rondando o mês inteiro.
Tem uma coisa que atravessou quase todas as histórias que a gente contou em maio, e que ficou debaixo da superfície o tempo todo. Uma coisa que aparece na vida da mãe solo, da mãe atípica, da mulher que sabe exatamente o que precisa fazer e que acorda de manhã olhando para a situação sem conseguir ir.
Não é fraqueza. Não é falta de coragem. É a ausência de uma estrutura mínima que torne possível a escolha que ela já tomou dentro de si, várias vezes.
das mães solo brasileiras sobrevivem com até um salário mínimo por mês. Sua renda é 39% menor do que a de pais casados com filhos. A mesma criança. O dobro do trabalho. Menos da metade do que seria justo.
Esses números não são acidente. São o resultado de uma distribuição deliberada, do cuidado, do tempo, do risco, que recai de forma seletiva sobre as mulheres. O feminismo sabe disso. A divisão social da riqueza é uma preocupação central do movimento — e é por isso que nomear a renda não é reduzir a pauta. É ir ao centro dela.
Mas renda é conceito político. É o que se constrói, o que se conquista, o que garante saída.
No Brasil, 72% das famílias chefiadas por mães solo pretas ou pardas com filhos de até 14 anos vivem na pobreza. 22% estão na extrema pobreza. Não como dado isolado: como estrutura que se mantém por omissão, do Estado, do mercado, do pai ausente, da lei que existe no papel e não chega na vida.
dos pais abandonam as mães de crianças com deficiência antes dos filhos completarem cinco anos. Elas ficam sozinhas com o cuidado integral, com as filas no SUS, com as batalhas judiciais por vagas escolares, e com uma renda que o mercado não flexibiliza porque nunca reconheceu o cuidado como trabalho.
O IPEA calcula que o cuidado não remunerado representa 13% do PIB brasileiro. As mulheres são responsáveis por 76% desse trabalho. Nenhuma política pública foi desenhada à altura desse número.
E sobre as que não puderam escolher: em 2025, 1.568 mulheres foram assassinadas no Brasil em razão de sua condição de gênero, o maior número desde que o feminicídio foi tipificado como crime. Em 59% dos casos, a vítima era mãe. Em média, cada mulher assassinada deixa três filhos menores de idade. 148 dessas mulheres estavam protegidas por Medida Protetiva de Urgência quando foram mortas.
O controle da renda aparece como mecanismo recorrente nesses casos. A pobreza aprofunda a violência, e a dependência econômica é uma das ferramentas que o agressor usa para fechar as saídas. Renda própria não é garantia de segurança. Mas a ausência dela é, com frequência, o que mantém a porta trancada por dentro.
Existe uma resposta pronta para essa mulher que não consegue ir. A gente conhece bem: fale sobre seus limites, invista em você mesma, empreenda, construa sua marca pessoal. Você tem o poder de mudar sua história.
É uma resposta que soa bonita, e que absolve todo mundo. O Estado não precisa garantir creche. O mercado não precisa pagar salário igual. O parceiro ausente não precisa responder. A responsabilidade cai, inteira, sobre os ombros de uma mulher que já carrega mais do que deveria, e que agora também precisa ser sua própria solução.
Quando a renda vira produto de prateleira, ela deixa de ser condição e vira meta individual. Deixa de ser política e vira consumo. E a mulher que não consegue sair da situação em que está passa a carregar também o peso do próprio fracasso.
A ACCA não acredita nisso. E se você está lendo esse texto, provavelmente também não acredita mais.
Fiquei pensando numa mulher específica ao longo de maio. Que sabe exatamente o que precisa fazer. Que já tomou a decisão dentro de si, várias vezes. Que acorda de manhã e olha para a situação e não vai.
Não porque não quer. Porque não tem como bancar o não vai.
Essa mulher não precisa de mais coragem. Ela já tem coragem de sobra, usa toda manhã só para continuar de pé. Ela precisa de renda própria. De uma base econômica que não dependa de ninguém que a controla. De um chão mínimo que torne possíveis todas as outras escolhas.
E essa mulher existe também em outro momento. Quando encontra outra que passou pelo mesmo. Quando descobre que o que ela sabe fazer tem valor, e que esse valor pode ser nomeado, negociado, recebido. Quando percebe que construir renda não precisa ser solitário, não precisa ser heroico, não precisa caber num curso de cinco módulos que promete mudar sua vida.
Pode ser coletivo. Pode ser gradual. Pode começar pequeno e ainda assim ser real.
Maio me deixou com essa clareza. E clareza honesta exige que a gente faça alguma coisa com ela.
Junho vai ser o mês da renda na ACCA e, consequentemente, na Plataforma Autonomia Com Elas. Não como pauta motivacional. Não como receita de empreendedorismo individual. Não com a estética do antes-e-depois que transforma estrutura em escolha e escolha em mérito.
Conversa franca sobre renda como condição. Sobre o que torna possível todas as outras escolhas. Sobre o que o Estado deveria garantir e não garante, e sobre o que é possível construir coletivamente enquanto essa conta não é paga.
Maio falou de mães. O que ficou foi essa palavra que a gente pronuncia baixo demais, porque parece pequena demais para uma pauta tão grande.
Não é pequena. É o nó que amarra quase tudo. E é também o fio que, puxado com cuidado, pode começar a soltar.
Junho vai ser isso aqui: a gente puxando esse fio junto. Com franqueza, com dados, com história real, e com a convicção de que mulher que entende sua própria situação já está, de alguma forma, se movendo.
A gente te espera em junho.
Renda é condição. Autonomia é coletiva.
A Plataforma Autonomia Com Elas não vende empoderamento. Constrói, junto com você, as condições reais para que autonomia deixe de ser conceito e vire vida.
Conteúdos sobre renda, produção cultural, direitos e território. Sem fórmula. Sem culpa. Com profundidade.
Se você chegou até aqui, já sabe que esse é o seu lugar.
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