Macho em Xeque: O Caminho Além do Ódio com Luciano Montalvão | Do Estúdio ao Blog

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Macho em Xeque: O Caminho Além do Ódio com Luciano Montalvão

Uma conversa urgente sobre masculinidade hegemônica, saúde mental masculina, machosfera, violência de gênero e os caminhos possíveis para além do ódio.

Convidado: Luciano Montalvão
Série: Autonomia Feminina
25 de maio de 2026

Quando a masculinidade entra em crise

A crise das masculinidades contemporâneas tornou-se um dos debates mais urgentes da sociedade atual. Entre violência, solidão, misoginia, adoecimento emocional e radicalização digital, cresce o número de homens incapazes de lidar com vulnerabilidade, afeto e fracasso.

No programa ACCA Autonomia Feminina, o psicólogo e pesquisador Luciano Montalvão propõe um debate necessário: compreender como a masculinidade hegemônica impacta mulheres, pessoas LGBTQIAPN+ e os próprios homens.

Mais do que um debate sobre gênero, a conversa revela uma sociedade adoecida por modelos rígidos de poder, dominação e silêncio emocional.

“O homem não fala sobre sofrimento.”

Masculinidade hegemônica e socialização masculina

Segundo Luciano, os homens aprendem desde cedo que ser masculino significa negar fragilidade, vulnerabilidade e sensibilidade. A masculinidade hegemônica continua sendo construída sobre ideias de virilidade, poder, domínio e controle emocional.

A família, a escola, a cultura, as redes sociais e os dispositivos tecnológicos reforçam diariamente esses estereótipos através do que pesquisadores chamam de pedagogias afetivas.

Desde a infância, meninos aprendem que existem profissões “de homem”, comportamentos “de homem” e emoções que devem ser reprimidas.

Essa socialização produz homens incapazes de nomear o próprio sofrimento, criando um cenário marcado por compulsões, isolamento emocional e violência.

“Ser homem ainda gira em torno da virilidade, do poder e da dominação.”

A clínica dos excessos

Ao falar sobre sua experiência clínica, Luciano descreve a clínica masculina como uma clínica dos excessos. Álcool, drogas, pornografia, violência e comportamentos compulsivos aparecem frequentemente como formas de compensar silêncios emocionais profundos.

Ao mesmo tempo, cresce também uma clínica marcada pela falência do ideal masculino. Homens adoecidos pela incapacidade de sustentar expectativas irreais de força, sucesso e controle absoluto.

A dificuldade de pedir ajuda ainda é uma barreira central. Muitas vezes, são mulheres que procuram atendimento psicológico para maridos, filhos, irmãos ou companheiros.

A escuta terapêutica surge então como um espaço para que homens possam simbolizar suas dores, reconhecer vulnerabilidades e romper com padrões violentos de masculinidade.

Machosfera, misoginia e radicalização digital

Durante o programa, Luciano também analisa o crescimento da machosfera — ecossistema digital formado por grupos masculinistas, comunidades Redpill e discursos misóginos que capturam adolescentes e jovens homens através de promessas de poder, pertencimento e validação masculina.

A lógica dos algoritmos potencializa conteúdos violentos, extremistas e discriminatórios porque o ódio gera engajamento, visibilidade e lucro.

Enquanto jovens enfrentam solidão, insegurança e ausência de espaços de escuta, esses grupos oferecem uma identidade simplificada baseada em superioridade masculina, desprezo às mulheres e hostilidade contra pessoas LGBTQIAPN+.

Para Luciano, existe hoje uma disputa discursiva acontecendo nas redes sociais. De um lado, adolescentes recebem discursos acusatórios e punitivos. Do outro, a machosfera oferece acolhimento emocional distorcido e senso de pertencimento.

“Precisamos disputar as mentes e os corações desses meninos.”

Masculinidade como questão de saúde pública

Luciano defende que a discussão sobre masculinidades precisa ultrapassar o campo individual e ser tratada como questão de saúde pública.

Os dados mostram que homens morrem mais em acidentes, são maioria na população carcerária, praticam mais homicídios e também lideram os índices de suicídio.

A masculinidade hegemônica produz homens que evitam autocuidado, recusam ajuda psicológica e reproduzem comportamentos autodestrutivos.

Além da escuta clínica, o pesquisador aponta a necessidade urgente de políticas públicas, educação emocional, letramento de gênero e estratégias institucionais de enfrentamento às violências de gênero.

Escuta, acolhimento e transformação

Ao longo da conversa, o programa reforça que discutir masculinidade não significa atacar homens, mas compreender como estruturas patriarcais adoecem toda a sociedade.

A autonomia masculina, segundo Luciano, começa quando o homem consegue reconhecer sua própria fragilidade sem transformar sofrimento em violência.

Reconhecer limites, aceitar fracassos e abandonar a obrigação constante de poder e controle são movimentos fundamentais para construir relações mais saudáveis.

Mais do que uma discussão sobre homens, o debate revela uma humanidade em crise, atravessada por desigualdade, isolamento emocional e dificuldades profundas de convivência coletiva.

“A autonomia masculina é ter coragem de olhar para as próprias vulnerabilidades.”

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