Palhaça, Corpo Político
Dalila Rodrigues (Mundiquinha) fala sobre palhaçaria feminina, circo social, maternidade e o riso como ferramenta de autonomia e resistência.
Quando o riso vira linguagem política
O picadeiro sempre foi marcado por hierarquias e por um imaginário masculino. Mas mulheres têm ocupado esse território e transformado a palhaçaria em voz, em crítica e em gesto de resistência. No episódio, a ACCA propõe um olhar direto: o riso não é só entretenimento, é também uma forma de disputar o mundo, a cena e o direito de existir.
“O riso como arma contra o machismo, a alegria como ferramenta de luta.”
Quem é Dalila por Dalila
Dalila Rodrigues se apresenta como uma mulher em processo de descoberta, como pessoa e como artista. Ela é produtora cultural na Escola de Circo Laheto e também é a palhaça Mundiquinha. O nariz (seu “amuleto da sorte”) acompanha cada apresentação: é símbolo de presença, coragem e identidade.
Criada “sobre a lona”, Dalila viveu desde cedo um tipo de formação que mistura prática, coletividade e autonomia: costurar lona, fazer figurino, construir personagem, aprender a se autoproduzir. E esse aprendizado vira tese central do episódio: autonomia não nasce do discurso, nasce de processo.
Crescer no circo: magia, trabalho e autonomia
O circo é lúdico e mágico, mas também é duro. Dalila descreve um cotidiano em que se aprende “um pouco de tudo”. Esse “tudo” não é improviso: é disciplina, trabalho, convivência e uma ética coletiva. Para ela, as escolas de circo, especialmente as de circo social, abriram um espaço mais acolhedor e seguro para mulheres ocuparem papéis historicamente negados.
A experiência de viver em coletivo, respeitar diversidade e conviver com diferentes identidades atravessa a formação humana tanto quanto a artística. E isso explica por que o Larretô não é só um lugar de espetáculo, é um lugar de vida.
O circo tradicional e os limites impostos às mulheres
Dalila nomeia o problema sem rodeio: ainda há um modelo de circo em que a mulher é reduzida a “adereço”, empurrada para papéis de exposição do corpo e afastada de funções de liderança e protagonismo. Nessa estrutura, a disputa por espaço vira disputa por dignidade.
E, quando a maternidade entra na equação, o mundo artístico costuma punir ainda mais: sem carteira assinada, sem garantia financeira, sem proteção de tempo e cuidado, o corpo (que é o instrumento de trabalho) vira campo de pressão.
Como nasce Mundiquinha
Mundiquinha surge depois da maternidade e de episódios que atravessaram corpo e mente. Dalila conta que, antes, seu papel era o de bailarina, e os palhaços, no circo, eram homens. A virada para a palhaçaria acontece como um processo de desconstrução e reencontro.
“A palhaçaria me salvou. Ela literalmente me salvou.”
Ser palhaça, para ela, é aceitar o humano, inclusive o ridículo, aquilo que a sociedade tenta domesticar. E transformar dores, alegrias e incômodos em arte: levar para a cena o que é vivido, e não o que é “bonito”.
Humor contra o preconceito: a cena como confronto
Dalila lembra que a comicidade foi historicamente usada para reforçar preconceitos, contra mulheres, pessoas negras, LGBTQIAPN+ e tantos outros. Mas ela escolhe operar ao contrário: usar o improviso e o riso para constranger o abuso, romper a indiferença e disputar o sentido do que é “engraçado”.
Seja em uma apresentação (quando chama a atenção de quem desrespeita a cena) ou na rua, ela usa a palhaçaria como ferramenta de correção do mundo: militância em forma de riso.
Circo social: quando uma criança volta a sonhar
No segundo bloco, Dalila fala de ação: como o circo social transforma realidades de meninas e jovens em vulnerabilidade. Ela descreve um trabalho baseado em escuta e observação, sem impor: entender a criança, seus medos, sua vaidade, sua retração e oferecer caminhos dentro da arte.
Às vezes, a mudança não é “estar em cena”. É encontrar um lugar na produção, no figurino, na organização, no coletivo. Autonomia também é isso: pertencer.
Dicas para mulheres que querem começar
Dalila deixa um conselho simples e poderoso: arrisca. Ousar, se colocar, buscar rede de apoio, criar grupos, construir lugar seguro. A formação pode começar onde dá: em cursos gratuitos, em pesquisa na internet, em prática na feira, no teatro, no encontro com outras artistas.
“O riso é um passo em direção à sua liberdade.”
Autonomia feminina: aprender fazendo, em coletivo
A autonomia que Dalila descreve não é individualista. Ela é coletiva, construída na experiência, na formação, na prática e na possibilidade de experimentar “um pouco de tudo” até descobrir afinidade. E, no circo, isso vira método: tema anual, debate com crianças, teoria e prática, espetáculo de encerramento, formação humana pelo riso.
🎧 Episódios do Programa
Episódio 69, Palhaça, Corpo Político com Dalila Rodrigues (Parte 1) Episódio 70, Palhaça, Corpo Político com Dalila Rodrigues (Parte 2)🌱 Vem aí o Sorteio Colmeia
Em junho, a ACCA aposta na renda como caminho de autonomia e apresenta sua primeira Marca Aliada, a Unidade de Produção Agroecológica Colmeia, UPAC, no Assentamento Canudos, na região entre Palmeiras de Goiás, Guapó e Campestre de Goiás. Integrada ao MST, a Colmeia é uma iniciativa de agricultura regenerativa e agroecologia, referência regional na produção de alimentos sem agrotóxicos. Ali, produzir alimento é também gerar renda no território, porque renda e território são condição coletiva, não meta individual. Uma mulher da nossa comunidade vai receber uma cesta agroecológica produzida por lá.
Comece o seu caminho agora
A Plataforma Autonomia Com Elas nasce de uma ideia simples: ninguém se faz sozinha. Cursos, formações, e-books e conteúdos sobre cultura, autonomia e geração de renda, pensados para mulheres que constroem caminhos junto.
Em junho, nossa programação é dedicada à renda como condição coletiva: falar de sustento é falar de quem produz, coopera e sustenta redes.
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