A mapeadora de ausências
*Esta é uma crônica literária, baseada na tragédia que ocorreu na Venezuela no dia 24/06/2026. O governo venezuelano acredita ter ocorrido a morte de 10 mil pessoas. Este texto é uma homenagem às vítimas.
Algumas pessoas passam a vida inteira procurando alguém. Às vezes, o que se procura é um rosto que nunca foi visto, uma voz que nunca foi ouvida ou uma história que chegou até nós faltando páginas. Foi por isso que uma jornalista desembarcou na Venezuela.
Tinha nascido ali, mas foi adotada ainda criança. Durante anos, imaginou que bastaria voltar para lá pra descobrir quem havia sido a mulher que lhe deu a vida.
Como toda boa jornalista investigativa, acreditava que nenhuma história desaparece completamente.
Então ela começou a busca de seu passado na cidade em que, segundo seus registros nasceu, em La Guaira. Vieram cartórios, igrejas, bairros antigos.
Em sua busca descobriu que a memória de um país nunca está guardada num único lugar. Ela sobrevive espalhada pelas pessoas. Cada uma conserva um pedaço. Ninguém possui a história inteira.
Então, quando estava mais próxima de encontrar a sua própria, a terra tremeu.
Os geólogos saberão explicar a profundidade do epicentro, a intensidade dos abalos, o movimento das placas. Mas quem esteve ali sabe que um terremoto começa de verdade quando alguém passa a chamar por outra pessoa.
Primeiro um nome.
Depois outro.
Em poucas horas, a cidade inteira parecia conversar apenas por nomes.
Costumamos chamar terremotos de desastres naturais.
O tremor, talvez.
Mas nenhuma cidade chega a uma tragédia carregando apenas a força da natureza. Chega trazendo também o peso de sua história. Há desabamentos que acontecem em segundos; outros levam décadas. Hospitais que nunca foram concluídos. Instituições enfraquecidas. Desigualdades que se acumulam em silêncio, ou aos berros. Disputas de poder que atravessam gerações. Sanções que perfuram territórios. Quando o abalo sísmico acontece, ele encontra um país que já vinha resistindo a tudo isso… A jornalista sentiu essas camadas todas desabarem sobre seu corpo. Por sorte, ela saiu rapidamente e ilesa dos escombros. O que doeu, no entanto, foi o seu espirito…
Na praça onde os sobreviventes se reuniram, voluntários improvisaram mesas com folhas de papel e canetas. Era preciso registrar quem havia sido encontrado e quem ainda era esperado.
A jornalista sentou-se para ajudar.
Ela escreveu nomes durante horas.
Conferia sobrenomes, corrigia endereços, perguntava a última vez em que alguém havia sido visto.
Percebeu que as pessoas não descreviam apenas quem procuravam.
Descreviam quem eram:
“Meu marido.”
“Minha filha.”
“Meu irmão.”
“Meu neto.”
Um senhor levou a fotografia de um cachorro. Ninguém riu, nem achou inconveniente.
Naquele momento, qualquer ausência era grande demais para ser medida.
Dias depois, alguém finalmente trouxe notícias sobre a mulher que ela procurava.
Escutou tudo em silêncio.
Agradeceu.
Guardou a fotografia de volta na carteira.
E voltou para a praça.
Há revelações que chegam tarde demais para reorganizar uma vida.
Mas há encontros que acontecem exatamente quando deveriam.
Ela tinha atravessado um continente acreditando que procurava uma única pessoa.
Descobriu, entre os escombros, que toda cidade ferida procura pelos seus.
Talvez seja por isso que listas de desaparecidos sempre me comovam.
À primeira vista, parecem apenas folhas cobertas de nomes.
Mas basta olhar um pouco mais para perceber que ali não estão escritos apenas os que faltam.
Estão, também, todos aqueles que se recusam a esquecê-los.
Costumamos chamar isso de resgate.
Talvez também seja uma forma de mapear ausências.
Sua marca pode apenas comunicar. Ou pode assumir um compromisso.
A ACCA está reunindo empresas, profissionais e instituições numa rede pública de compromisso com a vida e a autonomia das mulheres. Porque, diante da violência, o silêncio também comunica. E porque autonomia é condição coletiva, ninguém constrói esse caminho sozinha.
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