Amor romântico: a armadilha invisível
Com a psicóloga e psicanalista Isana Braz, falamos de como o amor romântico se tornou armadilha no patriarcado, e de como transformar o afeto em prática de liberdade.


Você já se descabelou por amor?
A pergunta abre o programa quase como provocação: você já chorou, já sofreu, já se descabelou por amor? O tema do episódio é o amor romântico e a armadilha que ele pode ser. Desde meninas, nos ensinam que o amor é destino, que ser amada é conquista e que amar é obrigação. No patriarcado, diz o documentário, esse amor virou um roteiro em que as mulheres sempre servem.
Márcia Pelá recebe Isana Braz, psicóloga, psicanalista e pesquisadora feminista da Universidade Federal de Goiás, autora de uma dissertação sobre o amor romântico na sociedade capitalista e patriarcal. Como lembra Bell Hooks, amor baseado em hierarquia adoece, e amor baseado em reciprocidade liberta. Os números ajudam a dimensionar: uma em cada quatro mulheres brasileiras já sofreu violência psicológica em relações afetivas, e as mulheres sofrem 1,7 vez mais ansiedade e depressão que os homens.
“Amar, para as mulheres, também é gesto político: recusar a prisão, reconhecer-se inteira.”
Quem é Isana por Isana
Isana se apresenta a partir das mulheres que a formaram: uma família de avós, tias, mãe, madrinha e primas de presença forte, agregadoras, implicadas em se descobrir como mulheres. E também de homens sensíveis e presentes. De Palmas, no Tocantins, veio para Goiânia fazer psicologia, movida pela mesma vontade dessas mulheres de desbravar o mundo.
“Sou uma mulher curiosa com a vida, e curiosa com o que é ser mulher.”
Por que estudar o amor
Foi na psicologia, nos estudos de gênero e na militância do movimento estudantil que Isana percebeu uma lacuna. Falava-se muito de como o machismo e o patriarcado incidem na vida afetiva, mas a conversa ficava na superfície. O amor parece a coisa mais distante da ciência, um sentimento tido como natural, e talvez por isso quase não fosse pesquisado.
Na clínica, ela já escutava a queixa recorrente das mulheres nas relações amorosas: a cobrança, as situações de violência. Foi ficando intrigada e decidiu se arriscar a investigar pela perspectiva feminista.
“Será que o amor é uma coisa natural mesmo? Ou tem algo na história que foi fazendo a gente amar do jeito que ama?”
O amor romântico é uma construção
A ideologia do amor romântico, explica Isana, é a do amor eterno, da pessoa certa para o resto da vida, do outro como única salvação, do amor como sacrifício em que pelo amor vale tudo. Mas nem sempre amamos assim. A família e o casamento monogâmicos são instituições que não existiram desde sempre: foram se constituindo junto com o capitalismo e o patriarcado.
“Quando a gente sabe que é uma coisa que a gente produziu, também sabe que pode experimentar o amor de outro jeito.”
É esse o ganho de estudar o tema: perceber que o modo como amamos não é natural, e sim construído. E, se é construído, pode ser reinventado, mesmo diante das barreiras sociais.
Divisão do trabalho, herança e o peso sobre as mulheres
Até certo momento da história, lembra Isana, a divisão do trabalho não significava opressão. Ela passa a significar quando surgem a propriedade privada, o excedente e a necessidade de garantir a herança na família. Nasce a monogamia, para que o filho tenha um pai certo, e com ela as ideologias do instinto materno e do homem como chefe de família, todas construídas para reforçar esses papéis.
Assim o campo do privado vira território da mulher, e é por isso que o amor romântico pesa mais sobre ela. Na clínica, diz Isana, isso aparece o tempo todo: é a mãe quem procura ajuda, quem sabe que o filho está ansioso, quem lembra da vacina. É a mulher quem cuida do familiar doente do marido, e é ela quem é responsabilizada quando o casamento não vai bem.
“Todos esses cuidados vão sendo colocados muito mais para as mulheres.”
As consequências: exaustão, permanência e dependência
Os impactos são sociais, emocionais e econômicos. A pesquisadora Valeska Zanello, referência no tema, aponta que o casamento pode piorar a saúde mental de uma mulher enquanto melhora a de um homem. No dia a dia, isso vira exaustão física e mental, aquele cansaço de quem se sente responsável por tudo, pelos filhos, pelo marido, pela família estendida.
É também esse ideal que faz muitas mulheres permanecerem em relações violentas, na crença de que o amor supera tudo, de que o amor delas vai mudar aquele homem, de que não podem ficar sozinhas. E há a dimensão econômica: privadas de trabalho e de autonomia financeira, muitas ficam sem condições de sair. Não por acaso, é no espaço privado, tido como o mais seguro, que se concentram a violência e o feminicídio.
O reino do lar e a misoginia internalizada
Há ainda um outro lado, mais difícil de enxergar. O espaço privado foi construído como o reino da mulher, e não é fácil abrir mão desse reinado, o único lugar onde ela sente que tem controle e dá conta. Aparece no familiar e no cotidiano: é a mãe que sabe fazer, é a mulher que arruma a casa direito, um certo mini-poder.
A família tradicional, tão cara aos discursos conservadores, coloca a mulher como sua célula central, aquela que faz tudo acontecer. É uma experiência que parece poderosa e que, justamente por isso, mantém escondida a relação mais exploradora. Por trás do “só eu dou conta”, observa Isana, muitas vezes há uma estima baixa e um esgotamento no limite.
O bloco da ação: amar como prática de liberdade
Na segunda parte, a conversa vira caminho. O primeiro passo é estar ciente de que essa ideologia nos acompanha, inclusive na pressão para estar em uma relação, aquela que chama a mulher solteira de encalhada e o homem solteiro de desejado. Isana recupera o amor-camaradagem da russa Alexandra Kollontai: um amor de parceria, que faz o outro crescer e que divide as tarefas domésticas e de cuidado.
A psicanálise ajuda a desmistificar a complementariedade. Quando Lacan diz que a relação sexual não existe, explica ela, é para lembrar que a ideia de dois virarem um é falsa: somos dois indivíduos, e a metade da laranja não existe. Silvia Federici, por sua vez, mostra como o Estado manda no corpo. E os homens também sofrem, presos ao ideal de masculinidade de quem tem que prover e dar conta.
“Estar ciente de que essa ideologia opera na nossa vida já é um caminho para viver o amor pela via do desejo, e não da pressão.”
Não deixe o amor só no campo do sentimento: há uma estrutura social que interfere em como a gente ama.
A vida amorosa importa, mas não é o centro da vida. A amizade e as realizações também satisfazem, e o afeto se espalha por tudo.
Isana faz questão de deixar claro, e Márcia reforça, que não se trata de ser contra a família nem contra o amor. Trata-se de entender como essas instituições se formam e de repensar o amor, para que ele possa ser parceria e não dominação. Porque o afeto atravessa tudo, e não há educação nem relação sem ele. Amar sem opressão é possível, e é também uma forma de autonomia, vivida de muitas mãos.
Assista aos episódios
Episódio 97 • Amor romântico: a armadilha invisível, com Isana Braz (Parte 1) Episódio 98 • Amor romântico: a armadilha invisível, com Isana Braz (Parte 2)Entre para a ACCA
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