Eu me sinto ofendida quando alguém diz que eu quero um relacionamento por Jade Klaser|Crônicas Feministas

Eu me sinto ofendida quando alguém diz que eu quero um relacionamento — Parte 1 | Crônicas Feministas | ACCA
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Jade Klaser
Colaboradora · Crônicas Feministas
Educadora e comunicadora · jade@culturacidadeearte.org

Eu me sinto ofendida quando alguém diz que eu quero um relacionamento

Parte 1: Escolher, não obedecer
11 de setembro de 2026 Crônicas Feministas ACCA
A diferença entre desejar um relacionamento e estar “atrás de” um. Entre escolher uma pessoa e obedecer a um roteiro social.

Calma. Eu explico.

Não tem nada de errado com relacionamentos. Eu adoro me relacionar.

Gosto de companhia, de intimidade, de trocas, de ter alguém para dividir momentos, o dia, a noite, as alegrias e os pesares da vida.

E gosto também da ideia de construir alguma coisa com outra pessoa. Então, que fique bem claro: eu quero, sim, um relacionamento. Ou, melhor dizendo, eu quero vários.

Relacionamentos profissionais, com amigos, com mulheres, com homens, com gente e com bichinhos também. Eu adoro bichinhos. Mas também gosto de gente. Tem gente que não gosta de gente. Eu gosto.

Eu gosto de me relacionar.

Mas existe uma diferença enorme entre desejar uma relação e organizar a própria vida em torno da necessidade de ter uma. Afinal, ninguém passa a vida procurando um amigo. Passa a vida fazendo amigos. Ninguém deveria também passar a vida procurando amor.

Quando alguém diz que eu estou “atrás de um relacionamento”, muitas vezes não está apenas constatando um desejo. Está insinuando uma falta.

Como se eu estivesse procurando alguém que viesse completar alguma coisa.

Como se a minha vida estivesse em suspenso, esperando um homem chegar para finalmente começar.

Tem outra coisa que me incomoda nessa frase.

Quando eu digo que quero estar com alguém e a resposta é “ah, você está procurando um relacionamento?”, alguma coisa do encontro desaparece.

Porque não é necessariamente um relacionamento que eu estou procurando.

Pode ser você, apenas.

Eu posso ter olhado para uma pessoa específica e pensado: eu gosto de você. Gosto da maneira como você pensa, da maneira como você ri, da sua companhia, do que acontece comigo quando estou perto de você. Sinto desejo. Sinto curiosidade. Sinto afeto. Quero descobrir até onde essa experiência pode ir.

Isso não é estar atrás de um relacionamento.

Isso é escolher alguém.

E, quando essa escolha é imediatamente traduzida como “ela quer um relacionamento”, duas coisas são retiradas de mim.

Primeiro, a minha agência.

Como se eu não tivesse escolhido aquela pessoa, mas estivesse simplesmente obedecendo a um roteiro social: mulher adulta, para ser feliz, precisa de um relacionamento, encontra um homem, precisa fazê-lo caber nesse lugar.

Eu não estou obedecendo a roteiro de conto de fadas nenhum. Não estou esperando um príncipe para me salvar.

Eu estou escolhendo.

Essa lógica, à qual todas as mulheres são submetidas desde que nascem, também elimina uma segunda coisa: o reconhecimento do outro.

Porque, se você entende que eu só estou com você porque quero “um relacionamento”, talvez não consiga enxergar que eu poderia ter escolhido você entre tantas outras possibilidades.

Que existe alguma coisa em você que me atraiu. Alguma virtude, alguma beleza, algum humor, alguma inteligência, alguma delicadeza, algum desejo, alguma coisa que é só sua e que me fez pensar:

eu quero essa pessoa.

E isso, para mim, é a parte mais bonita de um encontro.

Não somos duas pessoas procurando desesperadamente preencher papéis.

Somos duas pessoas que se encontraram e, por alguma razão que nem sempre sabemos explicar, reconheceram alguma coisa uma na outra.

Eu escolho as pessoas pelo afeto, pelo desejo, pelo prazer da companhia, pela admiração, pela possibilidade de construir alguma coisa boa.

E também escolho sair quando aquela relação deixa de me fazer bem, quando deixa de existir reciprocidade, quando o prazer é substituído por angústia ou sofrimento, ou quando percebo que estou deixando de ser quem sou para permanecer.

Porque existe um compromisso que vem antes de qualquer relacionamento: o compromisso da minha vida comigo mesma. O compromisso de ser feliz.

É esse compromisso que me permite escolher alguém sem me perder nessa escolha.

“Tirar” essa escolha de mim me ofende.

Como se minha vida estivesse incompleta.

Como se houvesse uma espécie de ponto final, como nos filmes, reservado para nós depois que um homem nos escolhe.

E isso vai contra praticamente tudo aquilo em que acredito sobre ser mulher hoje.

Continua na próxima semana com a Parte 2: Alianças
Sobre a autora

Jade Klaser é educadora e comunicadora. Entre a escola e a escrita, publica textos em suas redes e na ACCA. Transita entre poesias e crônicas autobiográficas que interrogam o feminismo, a política e a cultura.

Este texto expressa a opinião de sua autora. As Crônicas Feministas são um espaço de vozes plurais: autoras e autores convidados que gentilmente contribuem com a coluna, em compromisso com a vida e a autonomia das mulheres.
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