
Eu me sinto ofendida quando alguém diz que eu quero um relacionamento
O problema não é o relacionamento.
O problema é que homens e mulheres ainda chegam aos relacionamentos carregando posições sociais muito diferentes.
Para uma mulher, historicamente e ainda hoje, uma relação heterossexual pode significar riscos concretos: dependência econômica, sobrecarga de cuidado, trabalho doméstico, violência, perda de autonomia, interrupção profissional, maternidade compulsória, controle sobre o corpo.
Por isso, quando dizemos a uma mulher “cuidado para não colocar sua felicidade em um relacionamento”, existe uma verdade política importante nessa advertência.
Porque amor, afeto, intimidade e pertencimento não são necessidades femininas.
O que precisa ser questionado não é o desejo de se relacionar.
É a forma social que damos às relações.
A UNICEF estima que cerca de 650 milhões de mulheres e meninas vivas hoje foram casadas antes dos 18 anos. Todos os anos, milhões de meninas ainda entram em uniões precoces. Em muitos contextos, elas não estão escolhendo o casamento; estão sendo conduzidas a ele por estruturas familiares, econômicas, culturais e jurídicas que limitam radicalmente sua autonomia.
Eu tenho o privilégio de viver do outro lado dessa fronteira.
Eu posso dizer que não.
Posso dizer que sim.
Posso escolher com quem quero estar.
Posso escolher não estar.
Posso casar.
Posso não casar.
Posso casar e me divorciar.
Posso amar um homem e continuar sendo dona da minha vida.
E é importante lembrar que isso nem sempre foi possível.
O casamento já foi uma condição jurídica para a existência social de uma mulher. Em diferentes países e até poucas décadas atrás, mulheres casadas precisavam da autorização do marido para trabalhar, abrir uma conta bancária, viajar, administrar patrimônio ou exercer determinadas atividades profissionais. Em alguns lugares, o próprio casamento podia significar a perda de direitos que uma mulher solteira possuía.
Ainda hoje, o Banco Mundial identifica economias em que o estado civil altera os direitos econômicos das mulheres.
É por isso que me incomoda tanto a ideia de que ser escolhida por um homem seja apresentada como uma espécie de coroação feminina.
Porque conhecemos a história dessa escolha.
Sabemos que, durante muito tempo, “ser esposa” significou também ser subordinada. Sabemos que houve mulheres que precisaram se casar para ter proteção, patrimônio, reconhecimento ou acesso a determinados direitos, e mulheres que perderam autonomia justamente porque se casaram.
Eu não quero que um homem me conceda uma vida.
Quero ter uma vida e, a partir dela, escolher compartilhá-la com alguém.
Talvez essa seja a diferença entre o casamento como instituição patriarcal e o casamento como escolha: não é o vínculo que me interessa negar.
É a desigualdade que historicamente foi colocada dentro dele.
Por isso, eu não aceito a ideia de que uma mulher precise ser escolhida por um homem para ter valor.
É como se me colocassem uma camiseta dizendo:
“Eu aceito tudo aquilo que o patriarcado me faz engolir.”
Eu não aceito.
Não aceito que amor seja sinônimo de submissão.
Não aceito que uma relação de afeto seja sinônimo de dependência.
Não aceito que maternidade seja destino.
Não aceito que cuidado seja uma obrigação feminina.
Não aceito que o corpo de uma mulher seja propriedade de alguém.
Não aceito que uma menina precise aprender a ser escolhida antes de aprender a escolher.
Mas isso não significa que eu não acredite no amor.
Ao contrário.
Talvez seja justamente porque eu acredito tanto no amor que me recuso a aceitá-lo organizado pela lógica da posse.
Eu acho bonito quando duas pessoas se escolhem.
Aliás, no mundo em que vivemos, talvez escolher amar alguém seja uma das coisas mais subversivas que ainda podemos fazer.
Mas é preciso entender o que significa escolher.
Escolher não é possuir.
E desejar permanecer, ou desejar que alguém permaneça, não deveria significar perder a própria liberdade.
Durante séculos, para muitas mulheres, amar significou abrir mão: do próprio nome, do dinheiro, do trabalho, da autonomia, do corpo, do tempo, das escolhas.
E, para muitos homens, ser amado significou receber: cuidado, organização, acolhimento, disponibilidade, sexo, filhos, uma casa funcionando.
É por isso que o patriarcado não prejudica apenas a maneira como as mulheres são amadas.
Ele também empobrece a maneira como os homens aprendem a amar.
Ensina mulheres a temer que, sem um homem, lhes falte alguma coisa.
E ensina homens a temer que, ao amar uma mulher, lhes falte liberdade.
Existe uma diferença enorme.
Eu não quero um homem menos livre para poder me amar.
Quero um homem livre o suficiente para compreender que amar não é dominação.
Que cuidado não é obrigação feminina.
Que vulnerabilidade não é fraqueza.
Que ser amado não significa ter poder sobre quem ama.
E talvez seja por isso também que eu defenda o casamento entre pessoas do mesmo gênero.
Não porque ache que casamento seja o ápice da existência humana.
Não é.
Mas negar a determinadas pessoas o direito de escolher esse vínculo é dizer que o amor delas merece menos reconhecimento político e social.
Quando duas pessoas escolhem construir uma vida juntas, não estão apenas fazendo uma declaração romântica.
Estão reivindicando o direito de existir.
E eu acho profundamente bonito que o amor possa também ser uma forma de reivindicação política.
Porque amar é, sim, revolucionário em uma sociedade que historicamente decidiu quem podia amar quem, quem podia casar com quem e quem deveria pertencer a quem.
Há alguns dias, uma das minhas alunas pegou aqueles pequenos arames usados para fechar embalagens de pão.
Fez quatro pequenas alianças.
Depois foi até três amigas e entregou uma a cada uma.
Por último, veio até mim.
Eu sou a professora. Sou adulta. Ela é uma criança.
Mesmo assim, ela se agachou diante de mim, colocou a pequena aliança no meu dedo e pediu que nós fôssemos juntas para sempre.
Eu olhei para aquele pequeno arame enrolado no meu dedo.
Quatro alianças.
Quatro escolhas.
Nenhum príncipe.
Nenhum casamento.
Nenhuma promessa de salvação.
Apenas uma menina dizendo:
“Vocês são importantes para mim. Eu escolho vocês. Quero que continuem comigo.”
E talvez esse seja o futuro que eu desejo.
Um futuro em que meninas aprendam que existem muitas maneiras de amar.
Que podem escolher amigas.
Escolher mulheres que admiram.
Escolher comunidades.
Escolher famílias.
Escolher homens, se quiserem.
Escolher mulheres, se quiserem.
Casar, se quiserem.
Não casar, se quiserem.
Mas que nunca precisem ser escolhidas por alguém para descobrir o próprio valor.
Porque talvez o que devêssemos ensinar às crianças não seja a não precisar de ninguém.
Talvez seja outra coisa.
Aprender a amar sem desaparecer.
Aprender que vínculo não é posse.
Que afeto é recíproco.
Que liberdade não acaba quando começa uma relação.
Que ninguém é metade de ninguém.
Que ninguém é prêmio de ninguém.
E que escolher se relacionar com alguém pode ser uma das formas mais bonitas de dizer:
Eu quero um relacionamento.
Quero, sim.
Mas não quero que ele seja o lugar onde finalmente descubro que tenho valor.
Quero que seja um dos lugares onde meu valor encontra o valor de outra pessoa e onde duas pessoas livres possam escolher, todos os dias, permanecer.
Eu não estou atrás de alguém que me dê um final feliz.
Eu já tenho uma vida.
E é justamente porque tenho uma vida que posso escolher dividi-la com alguém.
Posso escolher você.
Posso escolher ficar.
Posso escolher ir embora.
Posso escolher amar.
Posso escolher não amar.
E quero que essa escolha seja sempre minha.
Talvez seja isso que eu queira para todas nós.
Que nenhuma mulher precise ser escolhida para se sentir valiosa.
Que nenhuma menina cresça acreditando que seu futuro começa quando um homem chega.
Que nenhum homem aprenda que ser amado significa perder a liberdade.
Que ninguém precise transformar o outro em propriedade para se sentir seguro.
Que possamos escolher nossos amores, nossas amizades, nossas famílias, nossas comunidades e nossos caminhos sem que essas escolhas sejam determinadas pelo gênero, pelo medo ou pela necessidade de sobreviver.
Que possamos dizer você sim.
E também dizer você não.
Que possamos permanecer porque queremos.
E partir quando já não quisermos.
Que possamos amar sem desaparecer.
Porque talvez a liberdade não esteja em não precisar de ninguém.
Talvez esteja em poder precisar, desejar, amar e escolher alguém sem deixar de pertencer a si mesma.
Foi isso que aquela menina me ensinou quando colocou um pequeno arame no meu dedo e pediu que fôssemos juntas para sempre.
Ela não estava procurando um príncipe.
Estava fazendo alianças.
E talvez seja essa a palavra que eu queira guardar.
Não como promessa de posse.
Não como garantia de que alguém ficará para sempre.
Mas como reconhecimento.
Eu vejo você.
Eu escolho você.
Eu gosto de estar com você.
E, enquanto estivermos juntas, quero que sejamos livres.
Talvez seja esse o amor que eu quero.
Um amor que não me salve.
Um amor que não me complete.
Um amor que não me possua.
Um amor que me encontre inteira.
E que encontre o outro inteiro também.
Porque eu não estou atrás de um relacionamento.
Estou escolhendo como quero viver.
E, nessa vida, eu escolho amar.
Só não abro mão de escolher como.
Jade Klaser é educadora e comunicadora. Entre a escola e a escrita, publica textos em suas redes e na ACCA. Transita entre poesias e crônicas autobiográficas que interrogam o feminismo, a política e a cultura.
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