
Escreve crônicas na plataforma da ACCA · @weigma01
A mulher envergada I
Toda vez que vejo o corpo dela, sinto que o mundo se encontra em crise. Passando por ela, percebo a envergadura de um corpo infeliz, movido pela gravidade, uma juventude pesarosa, inconsciente, inerte, sem verbos, mas em ação. Ela anda em sua motoca pequena e disforme para seu corpo alto, magro, descompassado, uma imagem que reflete a dissonância entre quem ela é e o que a sociedade espera dela. Acorda cedo, o evento de organizar o próprio café permite que o corpo fique ereto. Sem saber do que se trata, organiza o armário com os ingredientes matinais, como açúcar e café, tão necessários aos encaminhamentos cotidianos, no lugar mais alto da prateleira. Nesse momento, ela vive um pequeno ato de autonomia, uma rara sensação de controle sobre sua vida. Incompreende a grandiosidade do evento: estica todo o corpo e, naquele momento único do dia, sente-se dona das ações, faz sentido ocupar lugar no mundo. O corpo coordena esses movimentos numa ação que automatiza o corpo. Em breves minutos, após a cerimônia do café, vai se curvar, se enrijecer, tornar-se duro, fechar-se, virar ostra, e como ostra vai para o trabalho.
A condição do trabalho explorado desconstrói a condição do ser humano, conduzindo-a a uma situação de inexistência, de apagamento, de despedaçamento do sujeito. Retorna a pensar no café, na família, no companheiro e filhos, nas contas, na desestrutura da casa, nas (in)condições de pagamento. Fica muito zangada, espalha verborragia por onde passa, não tem por que facilitar a convivência em um mundo incoerente, desacolhedor, violento, que nunca ouve seus gritos silenciosos (?). Passa pela catraca do trabalho como uma máquina, um ser que já não reflete as próprias ações.
No fim do expediente, o corpo cansado e a mente exausta voltam à motoca que, apesar de indesejada, é o que lhe permite algum grau de mobilidade, de autonomia. No caminho de casa, seus pensamentos são um turbilhão, as ruas que percorre se mostram mais sombrias a cada dia, refletem a própria desesperança. As janelas das casas não oferecem consolo, apenas a indiferença de uma cidade que parece não notar sua existência.
Ao chegar em casa, a rotina prossegue. Os filhos aguardam, necessitados de atenção e cuidado, mas ela, esgotada, mal consegue oferecer um sorriso. O companheiro, também marcado pelo cansaço do dia, troca poucas palavras, ambos envolvidos em suas próprias batalhas silenciosas.
Durante o jantar, os ruídos de talheres e pratos são intercalados por murmúrios de preocupações cotidianas. As contas continuam a chegar, implacáveis, e a pressão para manter um teto sobre a cabeça e a comida na mesa tornam-se insuportáveis. Cada nova fatura é um lembrete cruel das limitações e desafios que enfrentam. Depois de colocar as crianças para dormir, senta-se na mesa da cozinha, olhando fixamente a parede. Pensa em todas as decisões que trouxeram aquele instante, em todos os sonhos sacrificados na esperança de obter estabilidade….
O trabalho doméstico realizado por mulheres é frequentemente invisibilizado e desvalorizado. Precisamos com Federici (2019, p. 48), “Dizer que nós queremos salários para o trabalho doméstico e expor o fato de que o trabalho doméstico já é dinheiro para o capital, que o capital ganhou e ganha dinheiro enquanto cozinhamos, sorrimos e transamos”. O nosso trabalho não remunerado subsidia o capitalismo, que lucra às custas de nossas atividades cotidianas sem oferecer reconhecimento ou salários adequados. A alienação do trabalho é ainda mais complexa em nossa experiência feminina, a dupla jornada torna o descanso um luxo inalcançável. Enfrentamos um ciclo incessante de atividades que nos deixa sem tempo para nós mesmas, intensificando a sensação de isolamento e esgotamento.
Hannah Arendt (2007 [1975], p. 74) observou que a emancipação simultânea da classe trabalhadora e das mulheres na modernidade revelam uma época que não mais esconde as funções corporais e materiais, o que resta de privacidade está ligado às necessidades fundamentais do corpo. Além disso, a divisão sexual do trabalho nos mantém presas a responsabilidades que extrapolam o âmbito profissional, sem reconhecimento ou apoio adequado. Federici (2019, p. 48) argumenta que “pedir responsabilidade social é pedir que aqueles que se beneficiam do trabalho doméstico (as empresas e o Estado como ‘coletivo capitalista’) paguem por isso”. Sem essa compensação, perpetua-se o mito oneroso de que educar crianças e servir aqueles que trabalham é uma questão privada e individual.
Uma raiva silenciosa surge diante do descompasso social entre a valorização de homens e mulheres, uma raiva que supera o instinto inicial. Embora muitos homens se declarem aliados, percebemos que as condições estruturais que perpetuam a desigualdade de gênero permanecem inalteradas. Contradição representada nos desafios que impedem a equidade de gênero, a participação nos espaços de decisão e o respeito às nossas singularidades. Estereótipos persistentes nos rotulam: somos “loucas” quando intelectuais, “desleixadas” quando exaustas, “agressivas” quando assertivas e “frágeis” quando emocionais. Esses estigmas desrespeitam nossa individualidade e servem para nos silenciar e desacreditar.
Agora, lá fora, a noite avança, mas dentro dela o tempo parece estagnado. Sem final feliz à vista, apenas a continuidade implacável da vida. A sujeita se levanta, prepara o café para o dia seguinte, organiza os ingredientes como um ato de sobrevivência, um pequeno ritual que lhe permite manter algum controle sobre sua existência – gesto que pode ser lido como uma forma de resistência cotidiana, uma maneira de afirmar sua identidade em um mundo que tenta negá-la.
E assim, a dinâmica da vida assujeitada segue num ciclo repetitivo de ações e pensamentos, o único rompimento é o breve momento de sentir-se altiva das próprias ações ao alcançar a prateleira mais alta. Mas até quando vai encontrar significado nesses pequenos gestos? Até quando seu corpo resistirá à gravidade da existência? O mundo lá fora continua girando, independente de suas dores e conquistas, enquanto a sujeita, em sua luta silenciosa, busca maneiras de continuar. Sua luta é nossa!!! É de muitas!!! É um reflexo das estruturas sociais que precisam ser questionadas e transformadas.
Arendt, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
Federici, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e lutas feministas. São Paulo: Editora Elefante, 2019.
A mulher envergada continua na próxima sexta-feira, 28 de agosto.
Sua escrita tensiona, provoca, escuta. Desenvolve na crônica um território de encontro, em que afeto e pensamento coexistem em fricção criadora. Integra o Coletivas Raimundas e o Grupo Dona Alzira, lugares de partilha, invenção e presença. Publica regularmente na coluna Opinião do Blog: Multiplicadores de Vigilância em Saúde do Trabalhador. Integra o Anuário de Poetas e Escritores do Tocantins (Editora Veloso, 2025) e o livro Contos Eróticos do Sertão (Le Coq, 2025).


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