A mulher envergada II por Weigma Michelly da Silva |Crônicas Feministas

A mulher envergada II | Crônicas Feministas | ACCA
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Weigma Michelly da Silva
Colaboradora · Crônicas Feministas
Mãe do João e filha da Zeza · Docente da SEDUC-TO, entre Penedo (AL) e o Tocantins · Escreve na ACCA · @weigma01

A mulher envergada II

A memória da vó Maria, inclinada sobre a pia e coordenando uma casa inteira: a economia doméstica invisível que sustenta a vida.
28 de agosto de 2026 Crônicas Feministas ACCA
Segunda parte de A mulher envergada. A primeira parte foi publicada em 21 de agosto. Ler a primeira parte.

Lembro-me bem da vó Maria, a filha de uma mulher também exausta, inclinada sobre a pia de uma casa modesta, baixa, feita de pau a pique. A pia, virada para uma janela, obrigava-nos a inclinar para visualizar o pequeno pomar de laranjas num terreno inclinado. O olhar terno, solitário, as mãos trêmulas entre pratos e panelas, o cheiro do café, a chaleira sempre cheia de água quente em cima do fogão a lenha, pronta para coar outro, a qualquer momento que chegassem visitas. O aroma de uma comida simples transmite afetos que alimentavam tantos corpos. Corpos que tinham que lidar com a terra todos os dias. Corpos que levavam marmitas que os alimentava de forma fracionada durante a lida na roça e na casa de farinha. Serviço não faltava: precisava alimentar todos, a maioria crianças, uma prole de 14 bocas. Cada uma tinha uma tarefa a realizar. Na roça, alguns cavavam buracos regulares em linhas retas; outros vinham logo atrás jogando sementes, normalmente feijão de corda e amendoim, mas principalmente enterravam a maniva da mandioca. O terreno era dividido, tudo ali mantinha uma regularidade. Em outro lote do pequeno sítio, outro grupo desenterrava mandioca e levava para a casa de farinha. Raspavam-na magistralmente, uma a uma, empurrando-as no caititu, operação que exigia três pessoas: dois giravam a manivela enquanto outra empurrava. Depois, prensavam-na na palha de coco ouricuri para tirar a água da mandioca, o manipuera, para em seguida peneirar e colocar no forno. A base da comida de minha família provinha das raízes, do que se extrai da terra. Meu avó fazia a venda nas feiras: ia de pau de arara, vendia a farinha e comprava o que não podia se extrair da terra, numa espécie de escambo. Minha avó coordenava toda aquela gente, numa operação logística com o propósito de alimentar as 14 bocas e mais as que chegassem.

Minha avó coordenava toda aquela gente, numa operação logística com o propósito de alimentar as 14 bocas e mais as que chegassem.

A narrativa sobre minha vó ilustra as dinâmicas de trabalho e cuidado que historicamente recordam as mulheres, particularmente em contextos rurais e de subsistência. Ao descrever a rotina dela e sua gestão da casa e da produção agrícola, reflito a sobreposição de tarefas que transformam a mulher em eixo central de uma economia doméstica invisível ao mercado. O trabalho reprodutivo desempenha um papel central na sustentação do sistema capitalista, mas sua importância é sistematicamente desvalorizada e relegada ao espaço privado. Confirmamos com Federici (2017, p. 74) que o “trabalho reprodutivo continuou sendo pago — embora em valores inferiores — quando era realizado para os senhores ou fora do lar. No entanto, a importância econômica da reprodução da força de trabalho realizada no âmbito doméstico e sua função na acumulação do capital se tornaram invisíveis, sendo mistificadas como uma vocação natural e designadas como trabalho de mulheres”. A avó Maria, gestora invisibilizada de uma operação complexa que articulava terra, trabalho e alimentação, encarna essa contradição, buscamos tornar visível a lógica pela qual o cuidado e a produção são protegidos, sem reconhecimento, como sustentáculos de uma economia ampla, que ocorre atualmente, não é uma coisa do passado, embora tenhamos avançado um pouco.

O papel da mulher como organizadora de um sistema produtivo familiar nos provoca a refletir como o trabalho feminino é frequentemente naturalizado em contextos de subsistência. Numa sociedade patriarcal como a nossa, as mulheres desempenham papéis produtivos, além de assumir a responsabilidade pelo bem-estar emocional e físico das comunidades em que vivem, sem que essas funções sejam entendidas como trabalho legítimo. O esforço de minha avó para coordenar o plantio, a colheita e a transformação dos alimentos demonstram como uma divisão de tarefas, embora, eficientemente relacionada a uma carga desproporcionalmente atribuída a ela, o que reforça a ideia de que as mulheres, sobretudo em contextos rurais e de baixa renda, assumam papéis indispensáveis ​​à sobrevivência coletiva, enquanto suas contribuições são interpretadas como obrigações naturais.

A trajetória de minha avó exemplifica a complexidade de uma economia doméstica que, embora fundamental para a manutenção da vida, permanece invisível aos olhares hegemônicos, a aparente contradição entre a valorização afetiva desse trabalho e sua contínua marginalização econômica ressalta a centralidade do trabalho feminino, cujos saberes e práticas compõem alicerces da memória social e da sobrevivência coletiva. Reconhecer essa dimensão abre possibilidades de compreender a multiplicidade de funções que as mulheres exercem na estrutura social, evidenciando a importância de seu papel na produção e na reprodução da vida.

Ao rememorar a cena de minha avó inclinada sobre a pia, trêmula de cansaço, mas ainda assim provendo alimento e cuidado, percebo que sua história não é caso isolado: ela reflete a realidade de inúmeras mulheres que, após geração a geração, carregam tarefas que parecem inescapáveis. Mesmo que algumas encontrem rotas individuais para lidar com essa condição própria do campo (?), há uma estrutura que segue firme, ancorada em valores que se reproduzem no tempo. Contemplar hoje o retrato daquela mulher, à beira do fogão, mostra como cada prato lavado e cada ferida ignorada GRITAM a continuidade de injustiças.

Referência

Federici, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva / Sivia Federici. Título original: Caliban and the Witch: Women, the Body and Primitive Accumulation. Tradução: coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017.

Sobre a autora

Sua escrita tensiona, provoca, escuta. Desenvolve na crônica um território de encontro, em que afeto e pensamento coexistem em fricção criadora. Integra o Coletivas Raimundas e o Grupo Dona Alzira, lugares de partilha, invenção e presença. Publica regularmente na coluna Opinião do Blog: Multiplicadores de Vigilância em Saúde do Trabalhador. Integra o Anuário de Poetas e Escritores do Tocantins (Editora Veloso, 2025) e o livro Contos Eróticos do Sertão (Le Coq, 2025).

Texto publicado originalmente na coluna Opinião do blog Multiplicadores de Vigilância em Saúde do Trabalhador. Ler a publicação original.
Este texto expressa a opinião de sua autora. As Crônicas Feministas são um espaço de vozes plurais: autoras e autores convidados que gentilmente contribuem com a coluna, em compromisso com a vida e a autonomia das mulheres.

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