
Doutoranda em Geografia (UFJ) · Coordenadora Pedagógica do CASER de Rio Verde (GO)
O Tempo de Ser Mulher
Lá no interior de Goiás, a gente aprende cedo que o tempo tem seus modos. Tem tempo de chuva, tempo de seca, tempo de plantar e tempo de colher. Minha avó dizia que “cada coisa tem seu tempo, minha filha, e apressar o rio não faz ele chegar mais depressa no mar”. Naquele tempo, eu achava que era só jeito de falar. Hoje, já crescida, compreendo que talvez ela estivesse falando de uma das coisas mais difíceis da vida: o direito de cada pessoa viver no seu próprio tempo.
Mas existe um relógio que ninguém pendura na parede. Não tem ponteiro, não faz barulho e ninguém sabe ao certo quem o construiu. Ainda assim, ele acompanha a vida de muitas mulheres desde muito cedo. É uma espécie de ampulheta invisível, cheia de areia fina, que vai escorrendo enquanto o mundo pergunta: E agora? Quando você vai estudar? Quando vai trabalhar? Quando vai casar? E os filhos? E a família? E a casa? E a carreira?
É como se a mulher tivesse recebido, sem pedir, um calendário pronto para a própria existência.
Desde menina, aprende-se que é preciso correr.
Primeiro, estudar.
“Minha filha, você precisa ser alguém na vida.”
E ela vai.
Estuda, faz faculdade, trabalha, faz especialização, mestrado, doutorado. Aprende a escrever projetos, cumprir prazos, apresentar trabalhos, enfrentar bancas, reuniões e madrugadas. Vai juntando diplomas como quem junta sacos de café na tulha: um depois do outro, esperando que, em algum momento, alguém diga: “Agora chega. Você já fez o bastante.”
Mas quase nunca dizem.
Quando chega uma conquista, logo aparece outra cobrança.
“Mas e o casamento?”
A pergunta vem assim, mansinha, no meio do café, acompanhada daquele sorriso de quem acha que está apenas puxando conversa.
E, se a mulher responde que está feliz sozinha, alguém logo pergunta:
“Mas você não sente falta de ter alguém?”
Se diz que quer se casar, perguntam:
“E quando vêm os filhos?”
Se diz que não quer filhos:
“Mas você vai se arrepender.”
Parece até que existe uma estrada única, dessas estradinhas de chão batido do interior, e que toda mulher precisa passar exatamente pelos mesmos lugares, na mesma idade, na mesma ordem.
Simone de Beauvoir, filósofa e escritora francesa, ao discutir a construção social da condição feminina, mostrou que muitos dos papéis atribuídos às mulheres não são simplesmente naturais, mas são construídos socialmente ao longo da vida. A mulher aprende, desde cedo, aquilo que esperam que ela seja. E talvez seja justamente aí que comece o funcionamento dessa ampulheta: não é o tempo do corpo que pesa sozinho, mas o tempo produzido pelas expectativas sociais.
E essas expectativas vão mudando de nome conforme a idade.
Aos vinte, é preciso construir uma carreira.
Aos trinta, aparece a pergunta sobre o casamento.
Depois, a maternidade.
Depois, a casa.
Depois, os filhos.
Depois, os netos.
E, no meio de tudo isso, ainda esperam que ela esteja bonita, saudável, sorridente, disponível, equilibrada e, se possível, sem reclamar.
É uma conta que não fecha.
Pierre Bourdieu, sociólogo francês, ao discutir a dominação simbólica, ajuda-nos a compreender como determinadas expectativas sociais se tornam tão naturalizadas que parecem fazer parte da própria ordem do mundo. Ninguém precisa mais dizer o tempo todo o que uma mulher deve fazer. Ela aprende a cobrança por meio dos olhares, das comparações, das conversas familiares, das propagandas, das redes sociais e até das brincadeiras aparentemente inocentes.
É como aquelas cercas antigas de fazenda: depois de tantos anos no mesmo lugar, a gente quase esquece que alguém um dia colocou a cerca ali.
E então chega a maternidade.
Ah, a maternidade!
Essa palavra que para algumas mulheres é sonho, para outras escolha, para outras possibilidade e, para tantas, simplesmente não faz parte do caminho que desejam percorrer.
Mas a sociedade insiste em tratar a maternidade como se fosse uma estação obrigatória da vida feminina.
“Seu relógio biológico está correndo.”
E a ampulheta vira de cabeça para baixo.
A mulher que escolhe ser mãe escuta que precisa tomar cuidado para não abandonar a carreira.
A que escolhe trabalhar escuta que está deixando a família de lado.
A que decide não ter filhos precisa explicar sua decisão.
A que tem filhos e trabalha precisa ser excelente em tudo.
E, se não conseguir, vem a culpa.
A culpa parece ser uma das grandes companheiras dessa caminhada.
Culpa por trabalhar.
Culpa por não trabalhar.
Culpa por sair.
Culpa por ficar.
Culpa por estudar.
Culpa por descansar.
Culpa por querer mais.
Culpa por não querer aquilo que disseram que deveria querer.
Djamila Ribeiro, filósofa, escritora e intelectual brasileira, ao discutir as experiências sociais atravessadas por gênero, raça e desigualdade, nos ajuda a perceber que não existe uma única experiência de ser mulher. As cobranças não chegam da mesma maneira para todas. Há mulheres que enfrentam, além das expectativas de gênero, desigualdades econômicas, raciais e sociais que tornam essa corrida ainda mais pesada.
É preciso, portanto, perguntar: quem construiu essa ampulheta? E para quem ela foi feita?
Talvez essa seja a pergunta mais importante.
O Tempo de Ser Mulher continua na próxima sexta-feira, 2 de outubro.
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