Feminismo e Memória do Brasil Profundo
Com a jornalista e escritora Nonô Noleto, falamos sobre a história do Brasil contada por mulheres, a ditadura vivida por dentro e o feminismo como forma de existir.


Quando a história oficial apaga as mulheres
A história do Brasil quase sempre é contada por homens, em datas, guerras e nomes de presidentes. Fica de fora quem enfrentou coronéis, ditaduras e a violência dentro de casa. Quando a história não vê essas mulheres, ela as apaga, e o apagamento também é uma forma de violência.
Foi para romper esse silêncio que Nonô Noleto escreveu Roda de Saia, livro que reúne histórias de onze mulheres do chamado Brasil profundo. Márcia Pelá recebe a jornalista, escritora e ativista de direitos humanos, primeira mulher na redação do Jornal O Popular e primeira editora chefe de um telejornal em Goiás, testemunha da Constituinte de 1988 e da criação de Palmas, com mais de 40 anos enfrentando machismo, coronelismo e silenciamento.
“Se a história oficial insiste em apagar as mulheres, é preciso reescrever com afeto, coragem e luta.”
Nonô: uma vida contestando desde o berço
O apelido nasceu antes do nome: ainda bebê, ela repetia “não, não, não” quando as irmãs tentavam ensiná-la a falar. Filha de uma família de onze irmãos, cresceu sob a severidade de um pai que corrigia com surras, um costume comum à época. Nonô apanhou até a faculdade, sempre por dizer não quando discordava, até o dia em que passou a lecionar para o próprio pai, virando sua professora de português e literatura.
Escolheu o jornalismo como caminho para se tornar escritora, mas só depois de ter conteúdo para contar. Saiu de casa para morar sozinha, algo ousado para a época, e viveu a virada da revolução sexual e das primeiras liberdades femininas. Sua trajetória, ela reconhece, se confunde com a própria história do Brasil.
Flores no Quintal: a ditadura vivida por dentro
No livro Flores no Quintal, Nonô conta sua história de amor com Vilmar, companheiro perseguido e preso pela ditadura. Enquanto acompanhava as prisões, mudanças de local e torturas do companheiro, vivia também a censura dentro da redação, impedida de escrever sobre o que testemunhava. Foram dois lados da mesma violência: a que corria solta nos porões e a que era calada pela imprensa.
O livro também registra pequenas revoluções culturais que foram formando o feminismo e a contracultura no Brasil, além da história de amigos torturados durante o regime. Para Nonô, contar essas histórias é uma obrigação enquanto testemunha viva de um período que parte da sociedade insiste em negar ou romantizar.
“O livre arbítrio só existe a partir de quem tem informação para decidir.”
Roda de Saia: as mulheres que a história esqueceu
Roda de Saia nasceu do desejo de contar histórias de mulheres reais que atravessaram a vida de Nonô: sua avó, estuprada e depois expulsa da própria família por isso; guerrilheiras de Trombas e Formoso; uma cantora exilada durante a ditadura; uma sogra que sobreviveu à loucura e virou fortaleza; uma tia vítima da maior violência que Nonô testemunhou de perto, quando o marido sumiu com os filhos por ciúme.
O livro também expõe a prática histórica das chamadas “irmãs de criação”, meninas pobres criadas em casas mais abastadas como mão de obra doméstica gratuita disfarçada de parentesco. E fecha com a homenagem a uma amiga que não resistiu ao assédio moral sofrido por defender árvores antigas de sua cidade.
“Se a gente não denunciar, isso se naturaliza como se fosse normal. E não é normal.”
Nonô defende que cada história de superação deveria virar roda de conversa, para transformar memória individual em consciência coletiva.
Ela integra o bloco carnavalesco Não é Não, que atua o ano inteiro em ações contra a violência às mulheres, quebrando o estereótipo de que feminismo é sinônimo de amargura.
Autonomia é continuar tendo sonhos
Prestes a completar 77 anos, Nonô diz não parar de ter projetos nem sonhos. Sua mensagem final é para as mulheres que, em algum momento, deixam de enxergar possibilidade, rede ou afeto ao redor: que continuem criando alternativas para acolher umas às outras, em vez de reproduzir a subjugação que a sociedade impõe.
“Não paro de ter sonhos. Eu penso projeto, projeto, o tempo todo. Isso é o que me faz aberta para a vida.”
Quantas mulheres da sua própria família guardam uma história parecida com a da avó de Nonô, silenciada por décadas dentro de um pacto de vergonha que nunca foi delas? Quantas Marinas, Dircés e Franciscas existem ao seu redor, sem que ninguém tenha ainda contado a história delas?
Assista aos dois episódios completos abaixo e conheça, na íntegra, as histórias que atravessam o Brasil profundo pela voz de Nonô Noleto. Depois, compartilhe com uma mulher da sua família: talvez seja hora de perguntar quais histórias ela também guarda em silêncio.
Assista aos episódios
Episódio 93 • Feminismo e Memória do Brasil Profundo, com Nonô Noleto (Parte 1) Episódio 94 • Feminismo e Memória do Brasil Profundo, com Nonô Noleto (Parte 2)Sua marca pode apenas comunicar. Ou pode assumir um compromisso.


A ACCA está reunindo empresas, profissionais e instituições numa rede pública de compromisso com a vida e a autonomia das mulheres. Porque, diante da violência, o silêncio também comunica. E porque autonomia é condição coletiva, ninguém constrói esse caminho sozinha.
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