Feminismo e Memória do Brasil Profundo com Nonô Noleto | Do Estúdio ao Blog

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Feminismo e Memória do Brasil Profundo

Com a jornalista e escritora Nonô Noleto, falamos sobre a história do Brasil contada por mulheres, a ditadura vivida por dentro e o feminismo como forma de existir.

Convidada: Nonô Noleto Série: Autonomia Feminina 16 de agosto de 2026

Quando a história oficial apaga as mulheres

A história do Brasil quase sempre é contada por homens, em datas, guerras e nomes de presidentes. Fica de fora quem enfrentou coronéis, ditaduras e a violência dentro de casa. Quando a história não vê essas mulheres, ela as apaga, e o apagamento também é uma forma de violência.

Foi para romper esse silêncio que Nonô Noleto escreveu Roda de Saia, livro que reúne histórias de onze mulheres do chamado Brasil profundo. Márcia Pelá recebe a jornalista, escritora e ativista de direitos humanos, primeira mulher na redação do Jornal O Popular e primeira editora chefe de um telejornal em Goiás, testemunha da Constituinte de 1988 e da criação de Palmas, com mais de 40 anos enfrentando machismo, coronelismo e silenciamento.

“Se a história oficial insiste em apagar as mulheres, é preciso reescrever com afeto, coragem e luta.”

Nonô: uma vida contestando desde o berço

O apelido nasceu antes do nome: ainda bebê, ela repetia “não, não, não” quando as irmãs tentavam ensiná-la a falar. Filha de uma família de onze irmãos, cresceu sob a severidade de um pai que corrigia com surras, um costume comum à época. Nonô apanhou até a faculdade, sempre por dizer não quando discordava, até o dia em que passou a lecionar para o próprio pai, virando sua professora de português e literatura.

Escolheu o jornalismo como caminho para se tornar escritora, mas só depois de ter conteúdo para contar. Saiu de casa para morar sozinha, algo ousado para a época, e viveu a virada da revolução sexual e das primeiras liberdades femininas. Sua trajetória, ela reconhece, se confunde com a própria história do Brasil.

Flores no Quintal: a ditadura vivida por dentro

No livro Flores no Quintal, Nonô conta sua história de amor com Vilmar, companheiro perseguido e preso pela ditadura. Enquanto acompanhava as prisões, mudanças de local e torturas do companheiro, vivia também a censura dentro da redação, impedida de escrever sobre o que testemunhava. Foram dois lados da mesma violência: a que corria solta nos porões e a que era calada pela imprensa.

O livro também registra pequenas revoluções culturais que foram formando o feminismo e a contracultura no Brasil, além da história de amigos torturados durante o regime. Para Nonô, contar essas histórias é uma obrigação enquanto testemunha viva de um período que parte da sociedade insiste em negar ou romantizar.

“O livre arbítrio só existe a partir de quem tem informação para decidir.”

Roda de Saia: as mulheres que a história esqueceu

Roda de Saia nasceu do desejo de contar histórias de mulheres reais que atravessaram a vida de Nonô: sua avó, estuprada e depois expulsa da própria família por isso; guerrilheiras de Trombas e Formoso; uma cantora exilada durante a ditadura; uma sogra que sobreviveu à loucura e virou fortaleza; uma tia vítima da maior violência que Nonô testemunhou de perto, quando o marido sumiu com os filhos por ciúme.

O livro também expõe a prática histórica das chamadas “irmãs de criação”, meninas pobres criadas em casas mais abastadas como mão de obra doméstica gratuita disfarçada de parentesco. E fecha com a homenagem a uma amiga que não resistiu ao assédio moral sofrido por defender árvores antigas de sua cidade.

Autonomia Feminina • Ação
Memória como resistência

“Se a gente não denunciar, isso se naturaliza como se fosse normal. E não é normal.”

Nonô defende que cada história de superação deveria virar roda de conversa, para transformar memória individual em consciência coletiva.

Ela integra o bloco carnavalesco Não é Não, que atua o ano inteiro em ações contra a violência às mulheres, quebrando o estereótipo de que feminismo é sinônimo de amargura.

Antes de encerrar, Nonô cantou uma música que as mulheres presas pela ditadura entoavam quando sabiam que os companheiros estavam sendo levados para sessões de tortura, um lembrete de que resistência também se faz de afeto e de voz.

Autonomia é continuar tendo sonhos

Prestes a completar 77 anos, Nonô diz não parar de ter projetos nem sonhos. Sua mensagem final é para as mulheres que, em algum momento, deixam de enxergar possibilidade, rede ou afeto ao redor: que continuem criando alternativas para acolher umas às outras, em vez de reproduzir a subjugação que a sociedade impõe.

“Não paro de ter sonhos. Eu penso projeto, projeto, o tempo todo. Isso é o que me faz aberta para a vida.”

Quantas mulheres da sua própria família guardam uma história parecida com a da avó de Nonô, silenciada por décadas dentro de um pacto de vergonha que nunca foi delas? Quantas Marinas, Dircés e Franciscas existem ao seu redor, sem que ninguém tenha ainda contado a história delas?

Assista aos dois episódios completos abaixo e conheça, na íntegra, as histórias que atravessam o Brasil profundo pela voz de Nonô Noleto. Depois, compartilhe com uma mulher da sua família: talvez seja hora de perguntar quais histórias ela também guarda em silêncio.

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Programa Marcas Aliadas • ACCA
Selo Marca Aliada

A ACCA está reunindo empresas, profissionais e instituições numa rede pública de compromisso com a vida e a autonomia das mulheres. Porque, diante da violência, o silêncio também comunica. E porque autonomia é condição coletiva, ninguém constrói esse caminho sozinha.

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