
Doutoranda em Geografia (UFJ) · Coordenadora Pedagógica do CASER de Rio Verde (GO)
O Tempo de Ser Mulher
Porque o problema não está em estudar, casar, ser mãe, trabalhar, cuidar da casa ou construir uma carreira. Nada disso é, por si só, um problema.
O problema começa quando essas escolhas deixam de ser escolhas.
Quando o desejo pessoal é substituído pela obrigação social.
Quando a mulher deixa de perguntar “o que eu quero?” e passa a perguntar apenas “o que esperam de mim?”.
É nesse ponto que a ampulheta se torna pesada.
No interior, a gente sabe que não adianta plantar milho hoje querendo colher amanhã. A terra tem seu tempo. A chuva tem seu tempo. A semente tem seu tempo.
Por que haveria de ser diferente com a vida humana?
Por que uma mulher precisa cumprir etapas em determinada idade para que sua existência seja considerada bem-sucedida?
Paulo Freire nos ensina a olhar para a educação como possibilidade de conscientização e transformação. Talvez seja justamente isso que precisamos fazer com essa ampulheta: torná-la visível.
Porque aquilo que conseguimos enxergar também podemos questionar.
E aquilo que podemos questionar talvez possamos transformar.
A educação, nesse sentido, não deve ensinar mulheres a correr mais rápido para cumprir expectativas. Deve ajudá-las a compreender que elas também têm o direito de escolher o caminho.
Talvez seja por isso que estudar seja tão importante.
Não para acumular títulos.
Não para provar que somos capazes.
Mas para compreender as estruturas que nos atravessam e, sobretudo, para descobrir que não somos obrigadas a aceitar todas elas.
Minha avó, lá do interior de Goiás, provavelmente não conhecia Beauvoir, Bourdieu, Freire ou Djamila Ribeiro. Não frequentou universidade. Não falava em dominação simbólica, patriarcado ou emancipação.
Mas sabia de coisas que nenhum livro consegue ensinar sozinho.
Sabia que a vida tem seus tempos.
Sabia que a mulher não precisa correr atrás de tudo ao mesmo tempo.
Sabia que há dias de plantar e dias de descansar.
E, principalmente, sabia que ninguém consegue viver uma vida inteira carregando o peso da expectativa dos outros.
Talvez seja essa a grande sabedoria das mulheres do interior de Goiás: elas aprenderam a olhar o tempo não pelo relógio, mas pela natureza.
O café fica pronto quando a água ferve.
O pão cresce quando a massa descansa.
A chuva chega quando o céu resolve abrir suas comportas.
A semente brota quando encontra condições para nascer.
A vida também.
Talvez precisemos reaprender a respeitar nossos próprios ciclos.
Aos vinte, talvez eu ainda não saiba quem sou.
Aos trinta, talvez esteja começando a descobrir.
Aos quarenta, talvez esteja reconstruindo meus caminhos.
Aos cinquenta, talvez finalmente compreenda que não preciso provar nada para ninguém.
E tudo bem.
Não existe atraso quando a vida é nossa.
A ampulheta precisa ser desarmada.
Não significa jogar o tempo fora. Significa deixar de viver como se estivéssemos permanentemente atrasadas.
É possível construir uma carreira sem pedir desculpas por crescer.
É possível amar sem transformar o amor em obrigação.
É possível ser mãe sem deixar de ser mulher.
É possível não ser mãe.
É possível casar.
É possível não casar.
É possível recomeçar.
É possível mudar de profissão.
É possível voltar a estudar.
É possível parar.
É possível começar outra vez.
E, sobretudo, é possível escolher.
A mulher não precisa ser uma equilibrista perfeita, caminhando sobre uma corda enquanto carrega nas mãos a carreira, o casamento, os filhos, a casa, a aparência e a felicidade de todo mundo.
Ela pode simplesmente ser.
Pode respirar.
Pode tomar seu café devagar.
Pode sentar na varanda.
Pode ouvir os passarinhos.
Pode olhar o céu sem precisar transformar aquele momento em produtividade.
Pode existir sem justificar sua existência.
Porque talvez a vida não seja mesmo uma lista de tarefas.
Talvez seja mais parecida com aquele velho caminho de terra que corta as fazendas do interior: cheio de curvas, poeira, buracos, sombra de árvore, chuva inesperada e paisagens que a gente só consegue enxergar quando diminui o passo.
No fim das contas, talvez minha avó tivesse razão.
Cada coisa tem seu tempo.
E a mulher também.
Que a gente tenha coragem de olhar para essa ampulheta invisível, reconhecer as mãos que a construíram e, finalmente, dizer:
“Esse tempo é meu. E quem decide como vivê-lo sou eu.”
Porque não há maior liberdade do que descobrir que a vida não precisa caber no calendário de ninguém.
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