Ainda quero muita coisa
Depois dos 60, desejo, liberdade, sexualidade e novos começos continuam em movimento. Com Rosely Cecílio, uma conversa sobre o direito de querer, escolher e seguir construindo a própria vida.
Publicado em 27 de setembro de 2026.


“Quem sabe sou eu. Eu conheço o meu corpo, o meu limite.”
Rosely Cecílio
Rosely Cecílio entrou na faculdade de Psicologia aos 40 anos. Não porque estivesse começando tarde, mas porque já sabia o que queria fazer. Depois de passar pela psicologia hospitalar, foi a própria vida que deslocou seu campo de interesse: a menopausa chegou, o corpo começou a responder de outro modo e ela se perguntou quantas mulheres atravessavam transformações parecidas sem espaço para falar sobre elas.
Foi assim que Rosely chegou à psicogerontologia e ao estudo do envelhecimento ativo. A experiência pessoal virou pesquisa, trabalho e escuta. E a própria trajetória já desmonta uma ideia persistente: a de que, depois de certa idade, o essencial da vida ficou para trás. No Autonomia Feminina, a conversa parte justamente do contrário. Ainda há muito o que desejar, escolher, aprender, abandonar e começar.
Rosely conhece essa cobrança também no próprio corpo. Corredora de rua, procurou um médico por causa de uma pequena lesão e ouviu que talvez fosse melhor abandonar a corrida e fazer hidroginástica. A resposta veio sem rodeios: “Quem sabe sou eu. Eu conheço o meu corpo, o meu limite.” Ela continuou correndo.
É uma cena pequena, mas concentra muito do que atravessa a conversa. O etarismo nem sempre chega como proibição explícita. Às vezes vem travestido de cuidado, conselho ou elogio: “Nossa, nem parece que você tem essa idade”. Por trás da frase está a ideia de que parecer ter a própria idade seria, em si, algo ruim.
Ainda há muito o que querer depois dos 60.
Ao longo da conversa, Márcia Pelá e Rosely passam pelo chamado divórcio grisalho, pelas mudanças na pirâmide etária, pela economia prateada e pelo aumento da presença de mulheres mais velhas em espaços antes associados aos jovens. Mas o ponto mais interessante aparece quando a conversa deixa os números e chega à subjetividade: depois de décadas aprendendo a ser esposa, mãe, cuidadora, recatada e disponível para os outros, quem é essa mulher quando decide perguntar o que ela mesma deseja?
Quando o desejo volta a ter nome
Rosely conta a história de uma mulher de 65 anos, viúva, que chegou à psicoterapia sem conseguir se imaginar para além daquele papel. Durante o processo, começou a recuperar desejos que haviam sido abafados ao longo da vida. Um deles parecia simples: conhecer o mar.
Ela nunca tinha viajado de avião. Nunca tinha visto a praia. Rosely trabalhou com ela e com a família até que a viagem se tornasse possível. Quando voltou, aquela mulher já não cabia apenas na palavra “viúva”. Continuava sendo mãe e avó, mas voltava também a ser alguém com vontade própria, projetos e curiosidade.
“Ela pôde ser ela própria, com os desejos dela.”
Talvez esteja aí uma das imagens mais fortes dos dois episódios. O envelhecimento não aparece como uma tentativa de recuperar a juventude, mas como possibilidade de recuperar autoria. Aos 65 anos, conhecer o mar pode ser tão transformador quanto qualquer recomeço vivido aos 20.
Essa redescoberta inclui também a sexualidade. Rosely insiste que não existe uma mulher 60+ universal: cada corpo tem uma história, cada mulher atravessa a menopausa de um jeito e cada desejo tem seu ritmo. Mudanças físicas podem exigir acompanhamento, mas a idade não apaga o corpo desejante.
“Menos movimento e mais envolvimento.”
A frase de Rosely desloca a sexualidade da lógica do desempenho. Afeto, diálogo, intimidade, prazer e descoberta continuam fazendo parte da vida. A questão deixa de ser “até quando uma mulher pode desejar?” e passa a ser outra: por que ainda estranhamos que ela deseje?
Saúde mental não é destino da idade
Quando a conversa chega à depressão, Rosely faz uma distinção importante: sofrimento psíquico na velhice não deve ser tratado como consequência automática da idade. É preciso olhar a história daquela pessoa, entender quando os sintomas começaram, o que mudou na rotina, quais perdas atravessaram sua vida e que tipo de acompanhamento é necessário.
Ela rejeita também a ideia de que, depois de certa idade, ninguém muda. Para Rosely, enquanto existe desejo, existe possibilidade de transformação. Em alguns casos, explica, o cuidado pode envolver psicoterapia, avaliação psiquiátrica e acompanhamento conjunto. Para quem depende da rede pública, ela aponta a atenção básica como porta de entrada: a UBS pode fazer o encaminhamento para a rede de saúde mental, incluindo os CAPS. Clínicas-escola de universidades também aparecem como possibilidade de atendimento gratuito ou de baixo custo.
O mais difícil, muitas vezes, não é localizar o serviço. É romper o estigma. No programa, a mensagem é direta: pedir ajuda não diminui ninguém. Saúde mental também se constrói em relação, escuta e cuidado.
Quem cuida de quem cuidou de todos?
Há outro envelhecimento feminino que quase nunca entra nas imagens de “melhor idade”. É o da mulher que chega aos 60 ou 70 anos e continua responsável por todo mundo: cuida do marido adoecido, dos netos, da casa, da família. O corpo envelhece, mas a obrigação de cuidar parece não envelhecer com ele.
Rosely traz para a conversa a própria experiência familiar e também o que viu trabalhando em hospitais. Quando uma pessoa idosa passa dias e noites cuidando sozinha de outra pessoa idosa, diz ela, há risco de transformar a cuidadora em paciente. Dividir tarefas é necessário, mas não basta. A família precisa preservar a vida daquela mulher para além do cuidado: seus vínculos, seus grupos, sua circulação, seus interesses.
Ser avó não elimina a mulher. Ser esposa não elimina a mulher. Ser cuidadora não pode eliminar a mulher.
Não se isolar é também uma forma de cuidado.
Rosely fala de atividade física, rodas de conversa, clubes de leitura, convivência entre gerações, aprendizado contínuo e estímulos à memória. Não como uma lista de obrigações para “envelhecer certo”, mas como formas de permanecer em contato com o mundo. Cuidar do corpo e da mente, nessa perspectiva, não significa perseguir juventude. Significa preservar presença.
Como você quer chegar aos 80?
No fim do programa, Rosely recorre a uma metáfora. Imagine duas mulheres combinando, aos 40 anos, que aos 80 farão uma viagem ao deserto do Saara. Quarenta anos depois, o avião está esperando. Uma delas chega ao destino e se surpreende com o frio da noite. Depois, com o calor intenso do dia. A outra pergunta: você não se preparou?
A viagem nunca foi sobre o Saara.
Era sobre envelhecer.
Não há como controlar tudo o que virá. Há perdas, lutos, mudanças no corpo, relações que terminam e outras que começam. Mas também há escolhas que podem ser feitas antes e durante o caminho: movimentar-se, aprender, pedir ajuda, cultivar vínculos, reconhecer limites e continuar desejando.
A autonomia feminina, nessa fase da vida, talvez esteja menos em provar alguma coisa para os outros e mais em preservar o direito de querer. Querer aprender, amar, descansar, viajar, mudar de ideia, viver a sexualidade, começar de novo ou simplesmente conhecer o mar. E, sobretudo, poder escolher o que fazer com esses desejos.
Ainda quero muita coisa. E a idade não encerra esse desejo.
Assista aos episódios
Episódio 35 — Mulher 60+: Saúde Mental para Elas, com Rosely Cecílio (Parte 1) Episódio 36 — Mulher 60+: Saúde Mental para Elas, com Rosely Cecílio (Parte 2)Informação que acolhe
Para saber mais
Informações para cuidar da saúde mental na velhice e reconhecer o etarismo.
O que é feminização da velhice?
É o fato de as mulheres serem a maioria da população idosa, por viverem mais, e enfrentarem cargas específicas nessa fase, como o cuidado não remunerado e o etarismo.
O que é etarismo?
É o preconceito ou a discriminação por causa da idade, que aparece tanto na exclusão quanto em elogios que soam como surpresa e na tutela sobre o que a pessoa idosa pode fazer.
Existe atendimento psicológico gratuito para idosas?
Sim. Pelo SUS, a UBS pode encaminhar ao CAPS, e as escolas de psicologia das universidades costumam oferecer atendimento gratuito à comunidade.
A mulher pode ter vida sexual depois dos 60?
Sim. O corpo continua desejante, e questões físicas dessa fase podem ser tratadas. Sexualidade na maturidade é assunto de saúde e de autonomia.
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