
Gestos ao vento
Agir talvez não seja controlar o resultado. Construímos o que podemos construir e lançamos nossos gestos ao mundo.
No texto anterior, deixamos uma linha pendurada.
Talvez porque ainda não fosse hora de puxá-la. Algumas coisas precisam permanecer suspensas por algum tempo, até que encontremos o gesto capaz de fazê-las seguir.
Pensar nos conduz inevitavelmente à atitude.
Mas quando falamos em agir, talvez estejamos pensando apenas no movimento que podemos enxergar: o corpo que se desloca, a mão que alcança, a palavra que é dita, a decisão que se transforma em gesto.
E se agir começasse antes?
Quando interrompemos a pressa para olhar, alguma coisa já se modifica. Aquilo que nos alcança provoca sensações, desperta lembranças, estabelece diferenças, cria relações. O que percebemos reorganiza nossa compreensão, e aquilo que compreendemos participa das escolhas que fazemos.
Não são etapas.
São movimentos de um mesmo fluxo.
Nada do que vivemos desaparece quando avançamos. Continua presente, misturado ao gesto seguinte.
Talvez seja por isso que nenhuma ação aconteça verdadeiramente no vazio.
Na física, aprendemos que forças não existem isoladamente: quando um corpo exerce uma força sobre outro, recebe dele uma força correspondente. É uma descrição precisa de uma relação física. Mas a experiência humana permite levar a pergunta para outro lugar.
Se toda ação produz consequências, será que toda ação é também uma resposta?
Não necessariamente uma reação no sentido físico, mas uma resposta ao mundo que encontramos, àquilo que nos atravessou, à história que carregamos e à maneira como fomos aprendendo a existir dentro dela.
Agimos a partir de alguma coisa.
E aquilo que fazemos passa a fazer parte das condições que produzirão o que virá depois.
Penso numa pipa.
Antes que ela alcance o céu, existe o trabalho de construí-la. A escolha dos materiais, o equilíbrio da estrutura, a amarração das varetas, a cauda, a linha. Depois vem o vento.
Corremos.
Soltamos.
Recolhemos.
Esticamos a linha.
Afrouxamos.
Procuramos o ponto em que a pipa encontra o ar e começa a sustentar-se.
Mas não fabricamos o vento.
Não determinamos sua direção.
Não controlamos completamente o voo.
Participamos dele.
Talvez agir seja algo parecido.
Construímos o que podemos construir, fazemos escolhas, lançamos nossos gestos ao mundo e, a partir daí, encontramos forças que não controlamos.
Uma palavra dita pode produzir outra palavra.
Um gesto pode provocar outro gesto.
Uma decisão pode alterar uma trajetória.
Uma escolha pode abrir um caminho que antes não existia.
E, às vezes, aquilo que pretendíamos produzir toma uma direção completamente diferente daquela que imaginávamos.
Agir talvez não seja controlar o resultado.
Talvez seja interferir conscientemente no movimento da existência, sabendo que não somos donos de suas consequências.
A pipa ensina isso sem precisar dizer.
Enquanto seguramos a linha, participamos de seu voo. Quando a soltamos, ela não se torna livre de tudo aquilo que a condiciona. Continua submetida ao vento, à gravidade, à resistência do ar, à própria estrutura.
Apenas deixamos de exercer sobre ela o controle direto.
Também nós somos assim.
Agimos dentro de circunstâncias que não escolhemos inteiramente. Carregamos uma história, uma memória, aprendizados, limites e possibilidades. Ainda assim, fazemos escolhas.
E cada escolha acrescenta alguma coisa ao mundo.
É nesse ponto que o agir deixa de parecer o último movimento de uma sequência.
Ele devolve a experiência ao próprio movimento.
O mundo que encontramos depois do gesto já não é exatamente o mesmo.
Nós também não somos.
Talvez existir seja isso: um fluxo contínuo no qual aquilo que nos atravessa também passa por nós e, transformado, retorna ao mundo.
Um movimento de trocas que torna difícil separar completamente aquele que observa daquilo que é observado, aquele que sente daquilo que provoca o sentir, aquele que pensa daquilo que é pensado, aquele que age do mundo sobre o qual sua ação incide.
Somos parte do movimento.
E talvez seja por isso que duas pessoas possam ocupar o mesmo lugar, viver no mesmo instante e, ainda assim, experimentar mundos muito diferentes.
Um mesmo presente pode conter muitos tempos.
Podemos encontrar, numa rua qualquer, alguém que não sabe ler. Não encontramos ali uma pessoa pertencente a outro tempo histórico. Encontramos alguém do nosso próprio tempo, vivendo conosco o mesmo presente, mas cuja relação com o mundo escrito é completamente diferente da nossa.
O relógio é o mesmo.
A rua é a mesma.
O instante é o mesmo.
Mas a experiência desse instante pode não ser.
Talvez seja possível pensar nisso como uma espécie de curvatura do tempo vivido: não uma curvatura física do tempo, mas a maneira pela qual diferentes histórias, conhecimentos e formas de perceber o mundo permanecem coexistindo no mesmo presente.
O passado não desaparece simplesmente porque o calendário avançou.
Ele permanece em nós.
Nas ideias que carregamos. Nas crenças. Nos costumes. Nas relações que estabelecemos. Nas formas como compreendemos autoridade, liberdade, trabalho, propriedade, fé, poder e até o valor que atribuímos ao tempo.
Podemos viver cercados pela tecnologia do presente e ainda carregar formas de pensar que nasceram em outros momentos da história humana.
Podemos falar instantaneamente com alguém do outro lado do planeta e, ao mesmo tempo, acreditar que somente nossa maneira de pensar merece existir.
Podemos defender que tempo é dinheiro e, a partir disso, transformar o tempo de outra pessoa em mercadoria.
Podemos possuir instrumentos capazes de aproximar mundos e continuar erguendo muros entre pessoas.
Talvez o mais curioso não seja vivermos em tempos diferentes. Talvez seja vivermos tempos diferentes dentro do mesmo tempo.
Não caminhamos todos a partir do mesmo ponto.
Não carregamos os mesmos referenciais.
Não observamos a existência da mesma posição.
Estamos juntos, mas não somos iguais.
Compartilhamos o espaço, mas nossas experiências não ocupam necessariamente a mesma dimensão.
Talvez seja justamente aí que a linha que deixamos pendurada comece a apontar para outro lugar.
Se cada um de nós participa do movimento da existência a partir de uma história, de um tempo vivido e de um referencial próprio, então talvez seja necessário perguntar: em que dimensão estamos quando experimentamos a realidade?
Talvez a realidade não seja apenas aquilo que está diante de nós.
Talvez também seja o lugar a partir do qual conseguimos observá-la.
E talvez, entre aquilo que somos, aquilo que percebemos e aquilo que o mundo é, exista uma trama de dimensões que não se encontram separadas, mas entrelaçadas.
Há gestos que lançamos ao mundo sem saber exatamente por onde o vento os levará.
A linha continua.
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