As Mulheres que Sustentam o Mundo em Silêncio por Carolina Gomes de Jesus | Crônicas Feministas

As Mulheres que Sustentam o Mundo em Silêncio | Crônicas Feministas | ACCA
Crônicas Feministas · ACCA
Carolina Gomes de Jesus
Carolina Gomes de Jesus
Historiadora, pedagoga e geógrafa
Doutoranda em Geografia (UFJ) · Coordenadora Pedagógica do CASER de Rio Verde (GO)

As Mulheres que Sustentam o Mundo em Silêncio

Há mulheres que atravessam a vida como rios: uma homenagem à avó, ao cuidado e à força que sustenta o mundo em silêncio e atravessa gerações.
14 de agosto de 2026 Crônicas Feministas ACCA

Há mulheres que atravessam a vida como rios. Não fazem alarde da própria força, não anunciam o tamanho dos seus sacrifícios, mas irrigam tudo o que encontram pelo caminho. Minha avó era assim.

Quando penso nela, não me lembro apenas de um rosto marcado pelo tempo. Lembro-me de uma mulher que fez da própria existência um gesto permanente de amor. Ao lado do meu avô, escolheu permanecer. E permanecer, às vezes, é uma das formas mais difíceis de amar.

Maria Benedita, avó materna de Carolina
Maria Benedita, avó materna

A vida não lhe ofereceu facilidades. Ofereceu responsabilidades. Foi esposa, companheira, conselheira e, acima de tudo, mãe de oito filhas e dois filhos. Dez vidas que passaram por suas mãos antes de descobrirem o mundo. Enquanto muitos viam apenas uma dona de casa, ali existia uma administradora da esperança, uma educadora sem diploma e uma líder silenciosa de uma família inteira.

Rubem Alves (2003) escreveu que “educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu.” Minha avó nunca conheceu as teorias da pedagogia, mas viveu exatamente isso. Ensinava sem quadro, sem livros e sem provas. Sua sala de aula era a cozinha; seus conteúdos eram honestidade, respeito, trabalho e dignidade.

E permanecer, às vezes, é uma das formas mais difíceis de amar.

Talvez tenha renunciado a sonhos que nunca chegaram a ser contados. Talvez tenha deixado de comprar um vestido para comprar um caderno. Talvez tenha escondido o próprio cansaço para que os filhos não percebessem as dificuldades da vida. Nunca saberei quantas vezes ela colocou as necessidades da família acima das suas. Sei apenas que fazia isso com uma naturalidade que hoje parece impossível.

O sociólogo Zygmunt Bauman (2004) afirmava que vivemos tempos em que os vínculos se tornaram líquidos, frágeis e passageiros. Minha avó pertencia a outra geração. Sua forma de amar era sólida. Ela acreditava que um casamento era construído todos os dias, nas pequenas escolhas, na paciência diante das diferenças e na coragem de permanecer mesmo quando a vida se tornava pesada.

Seu amor pelo meu avô não era feito de grandes declarações. Era um amor cotidiano. Estava no café servido antes do amanhecer, na roupa cuidadosamente dobrada, na preocupação silenciosa quando ele demorava a chegar, no olhar que dispensava palavras. Era um amor que morava nas pequenas coisas justamente onde vivem os sentimentos mais verdadeiros.

Leôncia, avó paterna de Carolina
Leôncia, avó paterna

A psicóloga Viktor Frankl (1946) escreveu que o ser humano encontra sentido na vida quando descobre algo ou alguém por quem vale a pena viver. Sempre penso que minha avó encontrou esse sentido na família. Ela fez da própria vida um projeto coletivo. Sua felicidade parecia crescer quando via os filhos crescendo.

Não conheceu títulos acadêmicos. Nunca participou de congressos. Jamais recebeu homenagens oficiais. Ainda assim, possuía uma sabedoria que universidade alguma consegue ensinar. O seu currículo era escrito em madrugadas acordadas, em almoços preparados para muitos, em conselhos dados na hora certa e em uma capacidade quase infinita de recomeçar.

Algumas mulheres sustentam o mundo sem que o mundo perceba.

Hoje compreendo que algumas mulheres sustentam o mundo sem que o mundo perceba. São elas que mantêm a casa de pé quando tudo parece desmoronar. Que escondem as próprias dores para acolher as dores dos outros. Que transformam escassez em fartura e dificuldades em esperança.

Minha avó foi uma dessas mulheres.

Seu legado não está apenas nos dez filhos que criou. Está nos netos, bisnetos e em todas as histórias que continuam existindo por causa dela. Cada gesto de cuidado atravessou gerações. Cada valor que ensinou ainda encontra morada em nossa família.

Hoje, quando penso no amor, não imagino grandes promessas ou gestos grandiosos. Penso nela.

Porque foi olhando para minha avó que aprendi que amar nem sempre é dizer.

Às vezes, amar é permanecer.
É renunciar.
É cuidar.
É construir uma família inteira enquanto o próprio nome quase nunca aparece na história.

E talvez exista pouca glória nisso para o mundo.

Mas existe eternidade para quem tem o privilégio de chamá-la de avó.

Este texto expressa a opinião de sua autora. As Crônicas Feministas são um espaço de vozes plurais: autoras e autores convidados que gentilmente contribuem com a coluna, em compromisso com a vida e a autonomia das mulheres.

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