Doutoranda em Geografia (UFJ) · Coordenadora Pedagógica do CASER de Rio Verde (GO)
Filha das Pedras, do Barro e do Rio Vermelho
Nascer na Cidade de Goiás é carregar no coração uma história que não cabe apenas nos livros. É crescer entre casarões antigos, ruas de pedra e o som tranquilo das águas do Rio Vermelho, aprendendo desde cedo que a verdadeira riqueza não está nas posses, mas nas memórias, nos afetos e na força das nossas raízes.
Sou mulher, negra, filha de uma origem simples e humilde. Nasci em uma terra marcada por belezas naturais, pela força do Cerrado e por um patrimônio histórico que resiste ao tempo. Cresci vendo a neblina repousar sobre os morros, ouvindo histórias contadas pelos mais velhos e aprendendo que cada canto da antiga Vila Boa guarda marcas profundas daqueles que construíram sua história.
Mas a história da Cidade de Goiás também é feita de contradições. As mesmas terras que encantam pela beleza de suas paisagens foram palco da intensa exploração do ouro que impulsionou o surgimento e o crescimento da antiga capital goiana. O brilho do metal precioso atraiu aventureiros, riquezas e poder, mas também deixou marcas profundas na paisagem e na vida de muitos povos. Antes da chegada dos colonizadores, esta região era habitada por diversos povos indígenas que conheciam os caminhos do Cerrado, dos rios e das serras. Muitos deles foram expulsos de seus territórios, tiveram suas culturas silenciadas ou foram exterminados durante o processo de ocupação e exploração das minas.
Quando caminho pelas margens do Rio Vermelho, não consigo enxergar apenas a beleza de suas águas; vejo também as memórias daqueles que foram esquecidos pela história oficial, mas que continuam presentes na identidade deste território.
Cada Pedra Guarda uma Memória
Caminhar pelas ruas da Cidade de Goiás sempre foi, para mim, mais do que um simples percurso. É um encontro com minhas origens. Cada pedra parece guardar as lembranças de mulheres que vieram antes de mim, mulheres que enfrentaram dificuldades, preconceitos e silenciamentos, mas que encontraram na palavra, no trabalho e na resistência formas de permanecer vivas na memória desta cidade.
Quando caminho pelas vielas históricas, lembro-me de Cora Coralina, que nos ensinou que “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Sua poesia brotava das coisas simples: do quintal, do fogão a lenha, dos becos e das pessoas comuns. Cora transformou a simplicidade em arte e mostrou ao mundo que a sabedoria também nasce do cotidiano. Em seus versos, a Cidade de Goiás não era apenas cenário, mas personagem viva, moldada pelas mãos do povo.
Também encontro inspiração em Leodegária de Jesus, pioneira da literatura feminina goiana. Mulher negra, escritora e educadora, ousou ocupar espaços que durante muito tempo foram negados às mulheres.
Sua trajetória continua ecoando como um convite para que outras mulheres escrevam suas próprias histórias.
Foi aqui também que tantas outras mulheres anônimas, doceiras, lavadeiras, quitandeiras e trabalhadoras construíram silenciosamente os alicerces da cultura vilaboense. Mulheres que, como as águas do Rio Vermelho, seguiram seu curso mesmo diante das pedras do caminho.
Herança que Não é Material
Ao conhecer suas histórias, encontro um pouco da minha própria trajetória. Vejo nelas a coragem de sonhar quando tudo parecia impossível. Vejo a força das mulheres do interior que aprenderam a transformar dificuldades em esperança. Vejo a beleza de quem nunca deixou que a simplicidade apagasse a grandeza de seus sonhos.
Tenho orgulho de dizer que sou filha da Cidade de Goiás. Orgulho de ter nascido em um lugar onde a história vive nas ruas, nas igrejas, nas pontes e nas casas antigas. Orgulho de pertencer a uma terra onde o Cerrado floresce resistente e onde a cultura se mantém viva através das gerações.
Talvez minha maior herança não seja material. Minha herança é a capacidade de acreditar que a educação transforma vidas. É a força de continuar estudando, pesquisando e ocupando espaços que muitas mulheres antes de mim sonharam ocupar. É compreender que cada conquista individual também carrega um pouco das lutas coletivas das mulheres que vieram antes.
Hoje, como pesquisadora, educadora e mulher do interior, reconheço que minha caminhada é feita dos mesmos elementos que construíram esta cidade: da firmeza das pedras, da simplicidade do barro e da persistência das águas do Rio Vermelho. E, como escreveu Cora Coralina, sigo acreditando que “recria tua vida, sempre, sempre”. Essa tem sido a lição deixada por tantas mulheres vilaboenses que transformaram suas dores em força e seus sonhos em legado.
Porque a Cidade de Goiás não é apenas o lugar onde nasci. É o lugar que me formou, me ensinou a sonhar e me deu as raízes que sustentam quem sou. Sou filha das pedras, do barro e do Rio Vermelho. Sou filha da memória, da resistência e da esperança. E enquanto eu escrever minha história, um pouco de Cora, de Leodegária e de tantas mulheres desta terra continuará vivendo através de mim.
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