Saberes Feministas: Ciência no Território
Com a geógrafa feminista Daisy Caetano, conversamos sobre alimentação como ato político, ciência que nasce do chão e autonomia construída junto a outras. Porque alimentar-se é resistir, e ensinar é libertar.
Por que comida é assunto de autonomia
O território brasileiro sempre foi palco de disputa: latifúndios, monoculturas, cidades que crescem à custa da vida dos povos e da natureza. E, nesse cenário, foram as mulheres que sempre alimentaram a resistência, das primeiras lutas indígenas e quilombolas às trabalhadoras da Marcha das Margaridas e às cozinheiras das periferias. A comida sempre foi um ato político.
Neste episódio, Márcia Pelá recebe Daisy Caetano, geógrafa feminista, trabalhadora da educação no IFG, presidenta da Associação dos Geógrafos Brasileiros (seção Goiânia) e referência em pesquisa de gênero. Mais do que convidada, uma interlocutora antiga: foi ela, conta Márcia, quem ajudou a semear o próprio Autonomia Feminina.
“Alimentar-se é resistir, ensinar é libertar. O futuro é feminista, popular, agroecológico.”
Quem é Daisy para a Daisy: uma construção coletiva
Ela não se define no singular. Diz-se uma construção coletiva, formada por muitas mulheres, sempre em formação. Sua base é familiar e religiosa, um cristianismo de raiz popular, ligado à defesa dos direitos humanos, contra a tortura, a violência e a fome. Foi na adolescência, num momento difícil, que ela encontrou o feminismo, como ferramenta de solidariedade e de libertação.
“Sou uma construção coletiva de várias mulheres que me ajudaram a me formar.”
Do prato ao território: alimentação como ciência e política
Curiosamente, Daisy chega ao veganismo pela religião, uma promessa de um ano sem carne, e não consegue voltar atrás. A partir daí, vai estudar: alimentação sem veneno, base agroecológica, respeito à terra, à água, ao solo. Ela recusa tratar os animais como mercadoria e fala de um veganismo popular e periférico, atenta às mudanças climáticas e ao empobrecimento do solo.
Mas faz questão de ser dialógica. Entende a cultura alimentar de quem já passou fome, lembra que existe proteína vegetal, e que comer bem exige tempo, um tempo que recai sobretudo sobre as mulheres.
Como o feminismo muda a ciência
Pesquisadora, Daisy acredita na ciência e na forma como ela é construída. Citando o livro Como o Feminismo Mudou a Ciência, de Londa Schiebinger, ela mostra como tantas perguntas só passaram a existir quando as mulheres entraram na ciência: o trabalho das professoras, as doenças que afetam majoritariamente mulheres, o peso do trabalho doméstico. A ciência, diz ela, desnaturaliza o que parecia natural.
“Se a gente não tiver mulheres, inclusive feministas, na ciência, não teremos resposta para essas perguntas.”
O bloco da ação: comece pelo elementar
No segundo episódio, a conversa vira prática. E o caminho que Daisy aponta começa pelo chão, pelo cotidiano.
“Comece pelo elementar.”
“Não olhe o feminismo como algo distante. Práticas feministas cabem no seu dia a dia.”
“Junte-se: tem coletivo em cada bairro, em cada escola. A gente não é única.”
Feminismo não é privilégio: é outra lógica de vida
Daisy lembra que não há um feminismo, mas feminismos. O dela é socialista, marxista, interseccional, vindo da base e da solidariedade, atento à classe, à raça e à etnia, e que inclui as mulheres trans como irmãs. Por isso critica o feminismo liberal, aquele que mede liberdade pela bolsa ou pelo carro e não enxerga as outras mulheres.
“Feminismo não pode ser sobre comprar um carro ou uma bolsa. Tem que ser outra lógica de vida.”
Ela também recoloca a questão dos homens: a luta antimachista é também para eles, porque o machismo os adoece e os mata. E, sobre a mulher que reproduz o machismo, lembra, com Paulo Freire, que muitas vezes ela é vítima de uma estrutura, o oprimido que aprende a oprimir.
Desconstrução cotidiana e autonomia
A mudança, para Daisy, começa pelo prato, pela escola, pelo território, e principalmente pelo mundo interno. É um processo de desconstrução diária, porque fomos construídas dentro de uma lógica patriarcal. Daí o conselho que ela repete às alunas: não deixe de estudar, de fazer suas escolhas, de viver, por conta de um relacionamento. E lutar por creche e educação infantil também é luta por liberdade.
“O futuro é feminista, popular, agroecológico. Que cada refeição, cada sala de aula, cada quintal seja um ato de luta.”
É por isso que a ACCA se soma a essa corrente: para unir mulheres pelo direito à terra, à comida, à ciência e à voz. Aqui, a ciência nasce do chão, e a autonomia se constrói junto.
🎧 Episódios do Programa
Episódio 79, Saberes Feministas: Ciência no Território com Daisy Caetano, Parte 1 Episódio 80, Saberes Feministas: Ciência no Território com Daisy Caetano, Parte 2🌱 Sorteio Colmeia: cesta agroecológica para uma mulher da nossa rede
Nada mais a ver com esta conversa: a nossa parceria com a Colmeia continua, e tem novo sorteio. A Unidade de Produção Agroecológica Colmeia, UPAC, no Assentamento Canudos, na região entre Palmeiras de Goiás, Guapó e Campestre de Goiás, é a primeira Marca Aliada da ACCA. Integrada ao MST, ela produz alimento sem agrotóxicos e mostra, na prática, que cuidar da terra é também gerar renda no território. Porque renda e território são condição coletiva, não meta individual. Mais uma mulher da nossa comunidade vai receber uma cesta agroecológica colhida por lá.
Comece o seu caminho agora
A Plataforma Autonomia Com Elas nasce de uma ideia simples: ninguém se faz sozinha. Cursos, formações, e-books e conteúdos sobre cultura, autonomia e geração de renda, pensados para mulheres que constroem caminhos junto.
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