Maternidade Equilibrada e Sem Culpa com Rafaela Paula Marciano | Do Estúdio ao Blog

Maternidade Equilibrada e Sem Culpa, com Rafaela Marciano | ACCA
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Conversas sobre autonomia, direitos e transformação social que continuam para além do estúdio.
Maternidade e saúde mental

Maternidade Equilibrada e Sem Culpa

A sobrecarga materna não é um problema individual de cada mãe cansada: é uma crise de saúde pública que o mito da mãe perfeita insiste em esconder.

Rafaela Paula Marciano durante a gravação do programa Autonomia Feminina, ACCA
Rafaela Paula Marciano durante a gravação do programa Autonomia Feminina, ACCA.

Ninguém deveria adoecer por amar.

Rafaela Marciano

Quantas vezes você, mãe, ouviu que precisa dar conta de tudo: cuidar, trabalhar, educar, sorrir e ainda sentir culpa por não ser perfeita? No Brasil, mais de 90% das mães relatam esgotamento mental, 54% vivem ansiedade diária e a maioria se diz frustrada com a rotina materna. Esses números dizem o essencial: a sobrecarga materna deixou de ser segredo e virou crise de saúde pública. É essa engrenagem, e não a fraqueza de cada mãe cansada, que a conversa com Rafaela Paula Marciano ajuda a nomear.

Psicóloga, psicanalista e doutora em Ciências da Saúde, Rafaela atua há treze anos na Maternidade Dona Íris, hospital público do SUS, e foi uma das profissionais que acompanhou Jéssica Piani por sete anos. É de dentro dessa realidade, a de uma maternidade periférica, que ela fala.

O conceito

Sobrecarga mental materna é o trabalho invisível de gerenciar a vida dos filhos, lembrar da vacina, do lanche, do presente do coleguinha, da consulta. Mesmo quando há com quem dividir as tarefas, é a mãe quem continua “pensando em tudo”, e esse peso, por não ser visto, também não é repartido.

Maternidade é questão social, não individual

No Brasil, diz Rafaela, a maternidade é tratada como problema individual. A mulher é vista como a cuidadora principal, dos filhos, do marido, dos pais que adoecem, e, quando entra no mercado de trabalho, não divide a carga: acumula mais uma função. Assim, o Estado, a comunidade e a família se eximem, e tudo recai sobre uma só pessoa.

“A maternidade tem sido tratada como uma questão individual, e não social.”

Nesta série: é o mesmo mito do amor materno instantâneo que Jéssica Piani enfrentou no episódio sobre luto perinatal, e a mesma romantização que a psicanalista Isana Braz descreve no amor romântico. Romantizar a maternidade é o modo mais eficiente de responsabilizar a mulher por tudo.
O conceito

Mito do instinto materno é a crença de que toda mulher nasce para ser mãe e sente, de imediato, um amor completo e sacrificial. Não é natureza, é construção: quem não corresponde a esse ideal é empurrada para a culpa.

Como identificar o esgotamento

A exaustão materna é um cansaço diferente do esperado: é aquele que não passa, mesmo depois de descansar. Vem acompanhado de ansiedade, culpa e tristeza, e de sintomas físicos como insônia, dores pelo corpo e enxaqueca. Reconhecer esses sinais é o primeiro passo para procurar ajuda.

Desigualdade, raça e violência obstétrica

Rafaela é clara: não dá para dissociar maternidade de raça e classe. As mulheres pobres e negras são as que mais sofrem violência obstétrica, e ouvem da própria equipe de saúde que “aguentam mais a dor” ou que, se perderem um bebê, “no ano que vem estão aí de novo”. A sobrecarga pesa mais sobre mães solo, negras e periféricas, onde o racismo e a falta de políticas públicas ampliam o sofrimento.

“Mulheres pobres e mulheres negras são as que mais sofrem violência obstétrica.”

Quem cuida de quem cuida?

Na segunda parte, a conversa vira caminho. Rafaela parte de uma ideia que recusa a solução individual: não há autocuidado possível sem alguém com quem dividir o cuidado.

Ação
Conselho de escuta

“Não dá para falar de autocuidado de forma individual: como você vai cuidar de si se tem que cuidar exclusivamente do outro?”

Resgate pequenos gestos seus, um café, uma pausa, uma ligação para uma amiga, e lembre quem você era antes de ser mãe.

Exija corresponsabilidade, de forma clara, do parceiro, da família e do Estado. E busque grupos e redes de apoio, na comunidade, na UBS ou online.

Maternidade é também política pública

Olhar a mulher como um ser integral, e não como um corpo reprodutor, começa numa consulta, desmistificando o instinto materno e a boa mãe. Mas não para aí: é preciso creche, escola em tempo integral, licença parental igualitária e remunerada, porque com cinco dias de licença nenhum pai assume o cuidado de forma dividida, acesso à saúde mental no SUS e políticas para mães solo e para famílias em situação de vulnerabilidade.

“A autonomia começa por poder decidir se quer ou não ser mãe, sem sentir culpa por isso.”

E, para quem deseja a maternidade, entender que ela não é instinto nem exige dar conta de tudo. Reconhecer que a mulher é também mãe, mas também filha, trabalhadora, pessoa inteira, é parte de tirá-la do lugar da culpa. Ninguém deveria adoecer por amar, e cuidar de quem cuida é responsabilidade de todas e de todos.

As falas são de Rafaela Paula Marciano; a leitura e as conexões são da ACCA.

Informação que acolhe

Para saber mais

Informações para reconhecer a sobrecarga materna e saber onde buscar apoio.

O que é sobrecarga mental materna?

É o peso invisível de gerenciar sozinha a vida dos filhos e da casa. Mesmo quando as tarefas são divididas, costuma ser a mãe quem organiza e lembra de tudo.

Esgotamento materno é frescura?

Não. É um cansaço que não passa com o descanso e pode vir com ansiedade, culpa, tristeza e sintomas físicos. É sinal de que se deve procurar ajuda profissional.

O que é violência obstétrica e onde denunciar?

É qualquer abuso ou desrespeito a uma mulher durante a gestação, o parto ou o pós-parto. Pode ser denunciada nas ouvidorias dos hospitais, na ouvidoria do SUS, no Ministério Público e na Delegacia da Mulher.

Existe apoio psicológico gratuito para mães?

Sim. Pelo SUS, a UBS pode encaminhar para acompanhamento, e há grupos de gestantes e de mães em unidades de saúde e na comunidade.

Se você está vivendo uma situação de violência, a Rede Conecta reúne serviços de proteção, acolhimento e orientação para mulheres na Região Metropolitana de Goiânia.

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