Maternidade Equilibrada e Sem Culpa
A sobrecarga materna não é um problema individual de cada mãe cansada: é uma crise de saúde pública que o mito da mãe perfeita insiste em esconder.
Uma conversa com Rafaela Paula Marciano no Autonomia Feminina.
Publicado em 18 de outubro de 2026.


Ninguém deveria adoecer por amar.
Rafaela Marciano
Quantas vezes você, mãe, ouviu que precisa dar conta de tudo: cuidar, trabalhar, educar, sorrir e ainda sentir culpa por não ser perfeita? No Brasil, mais de 90% das mães relatam esgotamento mental, 54% vivem ansiedade diária e a maioria se diz frustrada com a rotina materna. Esses números dizem o essencial: a sobrecarga materna deixou de ser segredo e virou crise de saúde pública. É essa engrenagem, e não a fraqueza de cada mãe cansada, que a conversa com Rafaela Paula Marciano ajuda a nomear.
Psicóloga, psicanalista e doutora em Ciências da Saúde, Rafaela atua há treze anos na Maternidade Dona Íris, hospital público do SUS, e foi uma das profissionais que acompanhou Jéssica Piani por sete anos. É de dentro dessa realidade, a de uma maternidade periférica, que ela fala.
Sobrecarga mental materna é o trabalho invisível de gerenciar a vida dos filhos, lembrar da vacina, do lanche, do presente do coleguinha, da consulta. Mesmo quando há com quem dividir as tarefas, é a mãe quem continua “pensando em tudo”, e esse peso, por não ser visto, também não é repartido.
Maternidade é questão social, não individual
No Brasil, diz Rafaela, a maternidade é tratada como problema individual. A mulher é vista como a cuidadora principal, dos filhos, do marido, dos pais que adoecem, e, quando entra no mercado de trabalho, não divide a carga: acumula mais uma função. Assim, o Estado, a comunidade e a família se eximem, e tudo recai sobre uma só pessoa.
“A maternidade tem sido tratada como uma questão individual, e não social.”
Mito do instinto materno é a crença de que toda mulher nasce para ser mãe e sente, de imediato, um amor completo e sacrificial. Não é natureza, é construção: quem não corresponde a esse ideal é empurrada para a culpa.
Como identificar o esgotamento
A exaustão materna é um cansaço diferente do esperado: é aquele que não passa, mesmo depois de descansar. Vem acompanhado de ansiedade, culpa e tristeza, e de sintomas físicos como insônia, dores pelo corpo e enxaqueca. Reconhecer esses sinais é o primeiro passo para procurar ajuda.
Desigualdade, raça e violência obstétrica
Rafaela é clara: não dá para dissociar maternidade de raça e classe. As mulheres pobres e negras são as que mais sofrem violência obstétrica, e ouvem da própria equipe de saúde que “aguentam mais a dor” ou que, se perderem um bebê, “no ano que vem estão aí de novo”. A sobrecarga pesa mais sobre mães solo, negras e periféricas, onde o racismo e a falta de políticas públicas ampliam o sofrimento.
“Mulheres pobres e mulheres negras são as que mais sofrem violência obstétrica.”
Quem cuida de quem cuida?
Na segunda parte, a conversa vira caminho. Rafaela parte de uma ideia que recusa a solução individual: não há autocuidado possível sem alguém com quem dividir o cuidado.
“Não dá para falar de autocuidado de forma individual: como você vai cuidar de si se tem que cuidar exclusivamente do outro?”
Resgate pequenos gestos seus, um café, uma pausa, uma ligação para uma amiga, e lembre quem você era antes de ser mãe.
Exija corresponsabilidade, de forma clara, do parceiro, da família e do Estado. E busque grupos e redes de apoio, na comunidade, na UBS ou online.
Maternidade é também política pública
Olhar a mulher como um ser integral, e não como um corpo reprodutor, começa numa consulta, desmistificando o instinto materno e a boa mãe. Mas não para aí: é preciso creche, escola em tempo integral, licença parental igualitária e remunerada, porque com cinco dias de licença nenhum pai assume o cuidado de forma dividida, acesso à saúde mental no SUS e políticas para mães solo e para famílias em situação de vulnerabilidade.
“A autonomia começa por poder decidir se quer ou não ser mãe, sem sentir culpa por isso.”
E, para quem deseja a maternidade, entender que ela não é instinto nem exige dar conta de tudo. Reconhecer que a mulher é também mãe, mas também filha, trabalhadora, pessoa inteira, é parte de tirá-la do lugar da culpa. Ninguém deveria adoecer por amar, e cuidar de quem cuida é responsabilidade de todas e de todos.
Assista aos episódios
Episódio 41 — Maternidade Equilibrada e Sem Culpa, com Rafaela Marciano (Parte 1) Episódio 42 — Maternidade Equilibrada e Sem Culpa, com Rafaela Marciano (Parte 2)Informação que acolhe
Para saber mais
Informações para reconhecer a sobrecarga materna e saber onde buscar apoio.
O que é sobrecarga mental materna?
É o peso invisível de gerenciar sozinha a vida dos filhos e da casa. Mesmo quando as tarefas são divididas, costuma ser a mãe quem organiza e lembra de tudo.
Esgotamento materno é frescura?
Não. É um cansaço que não passa com o descanso e pode vir com ansiedade, culpa, tristeza e sintomas físicos. É sinal de que se deve procurar ajuda profissional.
O que é violência obstétrica e onde denunciar?
É qualquer abuso ou desrespeito a uma mulher durante a gestação, o parto ou o pós-parto. Pode ser denunciada nas ouvidorias dos hospitais, na ouvidoria do SUS, no Ministério Público e na Delegacia da Mulher.
Existe apoio psicológico gratuito para mães?
Sim. Pelo SUS, a UBS pode encaminhar para acompanhamento, e há grupos de gestantes e de mães em unidades de saúde e na comunidade.
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