Menopausa: Sem Tabu Nem Medo
Enquanto a sociedade cultua a juventude, a menopausa vira tabu. Mas ela é só a última menstruação, e viver quase metade da vida depois dela é um direito, não um fim.
Uma conversa com Carol dos Anjos no Autonomia Feminina.
Publicado em 25 de outubro de 2026.

Envelhecer é conquista.
Carol dos Anjos
Por que a menopausa ainda assusta e silencia tantas mulheres? O etarismo, o medo de envelhecer e o culto à juventude transformam em tabu o que é apenas natural. Menopausa é só a última menstruação, mas o corpo começa a mudar anos antes, no climatério. Hoje, cerca de 33 milhões de brasileiras vivem essa fase, e menos de 1% tem diagnóstico ou acompanhamento adequado pelo SUS. É sobre essa invisibilidade que conversa a ginecologista Carol dos Anjos.
Formada em medicina em 2009, Carol escolheu a ginecologia e a obstetrícia por entender o cuidado com o feminino como parte de uma luta por direitos. Atende com tempo, escuta e empatia, porque sabe que muitas mulheres chegam ao consultório isoladas, carregando a vida nas costas sem que ninguém olhe para elas.
Climatério e menopausa não são a mesma coisa. O climatério é a transição, anos em que os hormônios oscilam e surgem sintomas. A menopausa é a última menstruação, confirmada depois de doze meses sem nenhum ciclo. Entre uma coisa e outra podem se passar vários anos.
Mais vida aos anos
Com a expectativa de vida em torno de 79 anos e a menopausa chegando entre os 45 e os 50, a mulher vive quase metade da vida nessa fase. Por isso, diz Carol, não se trata só de acrescentar anos à vida, mas vida aos anos. São mulheres no auge da carreira ou recomeçando outra, como tantas que começam algo novo depois dos 40.
Os sintomas: conhecer o próprio corpo
Antes da última menstruação, os ciclos ficam irregulares e vêm as oscilações de humor, a TPM mais intensa, a queda do metabolismo, o cansaço, a insônia. Carol explica que o estrogênio e a progesterona não agem só no ciclo: sustentam a pele, os ossos, os músculos e a cognição. Quando caem, é natural sentir fraqueza, memória mais curta, menos energia. Conhecer o próprio corpo é o que tira esse processo do escuro.
“A menopausa não é o fim. É apenas mais um capítulo.”
Reposição hormonal: nem todas precisam, nem todas podem
A reposição hormonal é um tratamento médico, que exige avaliação cuidadosa do histórico pessoal e familiar. Pode retardar a perda óssea, cognitiva e muscular, mas envolve riscos, como câncer e trombose, que precisam ser pesados caso a caso, e deve começar ainda na transição. E se a mulher não puder ou não quiser, há alternativas: atividade física regular, alimentação de verdade, sono e fitoterapia, como o chá da folha de amora, saberes que a medicina não deveria descartar.
Reposição hormonal é a terapia que repõe os hormônios que o ovário deixa de produzir. Só pode ser indicada e acompanhada por médica ou médico, após avaliação. Não é para todas, e não é obrigatória: é uma escolha informada.
Sexualidade e libido sem tabu
A vagina pode ressecar, e isso é tratável. Já a libido, lembra Carol, não é determinada só pelos hormônios: tem a ver com energia e potência de vida, com a qualidade do relacionamento e com o significado que o sexo tem para cada mulher, muitas vezes marcado por uma criação repressora ou por traumas que merecem cuidado. Falar disso sem tabu é parte do cuidado.
“A libido tem a ver com energia e potência de vida, não só com hormônios.”
Presença e justiça
As dicas de Carol começam por uma palavra: presença. Autonomia, para ela, nasce do autoconhecimento, e só se conhece quem sai do piloto automático.
“Tenha presença em tudo que faz: comer, beber água, tomar banho, conversar olhando nos olhos.”
Atividade física, alimentação de verdade, sono e um pouco de sol fazem diferença real nos sintomas, e cabem na rotina.
Não aceite relações nem trabalhos que te maltratam. Pela saúde pública, procure o ginecologista na UBS ou no CAIS: a ginecologia é atenção básica.
A natureza exigindo justiça
Carol fecha com uma imagem forte: os sintomas da menopausa são a natureza exigindo justiça. Numa sociedade em que a mulher faz tudo por todos e nada por si, o corpo cobra. Cuidar-se, então, deixa de ser luxo e vira uma forma de protesto, o direito de envelhecer com dignidade, saúde e prazer.
“Os sintomas da menopausa são a natureza exigindo justiça.”
Assista aos episódios
Episódio 43 — Menopausa: Sem Tabu Nem Medo, com Carol dos Anjos (Parte 1) Episódio 44 — Menopausa: Sem Tabu Nem Medo, com Carol dos Anjos (Parte 2)Informação que cuida
Para saber mais
Informações para atravessar o climatério e a menopausa com conhecimento e sem medo.
Qual a diferença entre climatério e menopausa?
O climatério é a fase de transição, com anos de oscilação hormonal e sintomas. A menopausa é a última menstruação, confirmada após doze meses sem ciclo.
Toda mulher precisa de reposição hormonal?
Não. A reposição é um tratamento médico, com indicação individual, e envolve riscos e benefícios. Nem todas precisam, nem todas podem, e há alternativas não hormonais.
A libido acaba na menopausa?
Não. A libido pode mudar, mas não some de vez. Ela depende também da energia, da qualidade do relacionamento e da história de cada mulher com o próprio prazer.
Como buscar ginecologista pelo SUS?
A ginecologia é atenção básica. Procure a UBS ou o CAIS mais próximo, onde há atendimento, exames e encaminhamento para os casos que precisam de especialista.
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