Uma arma engatilhada na cabeça por Ana Saragosa | Crônicas Feministas

Crônicas Feministas · ACCA
Ana Saragosa
Ana Saragosa
Colaboradora · Crônicas Feministas

Uma arma engatilhada na cabeça

A normalização do autoritarismo, o uso político de Deus, Pátria e Família e o perigo de nos acostumarmos com as ameaças à democracia.
23 de outubro de 2026 • Crônicas Feministas • ACCA

Há algo de inquietante na maneira como a grande imprensa trata a possibilidade de Flávio Bolsonaro chegar à Presidência da República. A hipótese vai sendo acomodada no noticiário como mais uma alternativa do jogo democrático, uma possibilidade entre tantas, como se a história não deixasse marcas e certas escolhas não carregassem consigo o peso de tudo o que já vivemos.

Talvez seja assim que as coisas comecem a mudar: não necessariamente com um estrondo, mas com a repetição. Uma declaração que provoca indignação hoje, amanhã já aparece acompanhada de uma análise sobre seus efeitos eleitorais. Um discurso que antes parecia impensável passa a ser examinado como estratégia. O que ontem exigia explicações hoje ganha especialistas, gráficos, projeções e mesas de debate. E, pouco a pouco, a pergunta deixa de ser o que está acontecendo para se tornar apenas quem ganhará com isso.

Tenho, sim, medo de ver um conservador na Presidência. Seria desonesto fingir que não. Mas o meu medo não termina aí. O que me assusta vai além do conservadorismo. É a possibilidade de um projeto de poder que não queira apenas governar o país segundo suas ideias, mas também transformar as regras, as instituições e os limites dentro dos quais a própria democracia funciona.

A história, às vezes, não chega com o estrondo que imaginamos. Vai se instalando aos poucos, ganha espaço nos discursos, nas manchetes, nas pesquisas, até que o inaceitável aprende a vestir a roupa do possível. Lembra a velha imagem da rã na panela: a água esquenta devagar, e o que antes provocaria um salto de sobrevivência passa a ser suportado como parte do ambiente. A ameaça se torna cenário. O cenário se torna paisagem. E a paisagem, de tão repetida, já não nos provoca espanto, mesmo quando a temperatura anuncia o perigo.

A ameaça se torna cenário. O cenário se torna paisagem.

No Brasil, há três palavras que parecem capazes de justificar quase tudo: Deus, Pátria e Família.

Pronunciadas juntas, têm a força de uma oração. Carregam a promessa de um mundo ordenado, de uma sociedade protegida contra as incertezas do presente. Mas, quando se aproximam do poder, também merecem perguntas. Que Deus? Que pátria? Que família?

Que Deus? Que pátria? Que família?

Penso em Nossa Senhora Aparecida, na imagem de uma mulher negra que atravessou gerações, acompanhando a fé de um povo imenso e diverso. Penso no lugar que os símbolos religiosos ocupam na memória de tantas famílias brasileiras e na facilidade com que a religião se transforma em instrumento de disputa política. Há algo de contraditório em reivindicar o nome de Deus enquanto se alimentam discursos que diminuem a fé alheia. Como se o sagrado precisasse de um inimigo para existir. Como se a crença de alguém pudesse ser medida pela capacidade de negar a crença do outro.

Não se trata de confundir religiões diferentes, nem de exigir que todos acreditem nas mesmas coisas. A liberdade religiosa existe justamente porque ninguém deveria precisar pedir licença para crer, deixar de crer ou encontrar o sagrado por caminhos diferentes. O problema começa quando alguém pretende transformar a própria fé em medida para a vida de todos.

Que Deus é esse que não permite a existência de outras religiões? E o que acontece quando a política passa a escolher quais crenças merecem respeito e quais podem ser tratadas como ameaça?

Depois vem a pátria, vestida de verde e amarelo, erguida em bandeiras e pronunciada com a solenidade das grandes promessas. Mas amar um país é mais do que exibir seus símbolos. É também perguntar o que fazemos de suas riquezas, de sua autonomia, do futuro que pertence às gerações que ainda nem chegaram.

As terras raras brasileiras despertam o interesse de potências estrangeiras porque são recursos estratégicos para a indústria e a tecnologia. Em maio de 2026, Flávio Bolsonaro encontrou-se com Donald Trump, e a cooperação em torno de minerais críticos esteve entre os assuntos discutidos. Não há nada de extraordinário em países negociarem entre si. A questão está nos termos dessas relações, nos interesses envolvidos e na capacidade de o Brasil decidir o destino de seus próprios recursos.

É curioso como a palavra soberania pode ser pronunciada com tanta veemência e, ao mesmo tempo, parecer tão pequena diante do fascínio exercido pelo poder estrangeiro. A amizade entre governantes pode render fotografias, manchetes e promessas. Mas o que ela significa para quem vive aqui? Quem se beneficia dos acordos? Que conhecimento, tecnologia e riqueza permanecem no país? Que compromissos assumimos em nome de um futuro que pertence a todos nós?

Talvez o patriotismo comece justamente quando deixamos de confundir a imagem de um líder ao lado de outro com a defesa dos interesses de uma nação.

E então chegamos à família.

Talvez seja aqui que o lema revele sua contradição mais dolorosa. No dia 11 de outubro de 2026, em Americana, no interior de São Paulo, uma mulher de 43 anos foi assassinada pelo ex-companheiro durante a festa de aniversário do filho adolescente. Jeane Cristina Mattes tinha uma medida protetiva contra o homem, que se apresentava como pastor. A celebração familiar terminou em feminicídio.

Fico pensando na violência que irrompeu naquele espaço, na festa interrompida, na vida que não pôde continuar e na memória que aquele adolescente terá de carregar. Há uma crueldade particular em perceber que, mesmo nos lugares onde a sociedade deposita suas imagens de afeto e proteção, uma mulher pode continuar sem estar segura.

Não se trata de atribuir a uma religião inteira o crime cometido por um homem. Tampouco de afirmar que uma palavra de ordem política, sozinha, explica a violência de gênero. Mas é impossível não pensar na distância entre a família idealizada nos discursos e a vida concreta das mulheres que precisam de medidas protetivas para tentar sobreviver às próprias relações.

O que significa defender a família quando tantas mulheres são ameaçadas por homens que não aceitam o fim de um relacionamento? O que significa falar de tradição, autoridade e valores enquanto o direito de uma mulher decidir sobre a própria vida continua sendo tratado, por alguns, como afronta?

Deus, Pátria e Família. Três palavras que poderiam falar de cuidado, pertencimento e responsabilidade. Mas nenhuma delas deveria servir de abrigo para a intolerância, a submissão ou a violência. Talvez o problema comece quando deixamos de perguntar o que essas palavras escondem e passamos a aceitá-las como respostas suficientes.

Nenhuma delas deveria servir de abrigo para a intolerância, a submissão ou a violência.

É assim que certas contradições vão encontrando lugar no mundo. O discurso promete proteção, enquanto a ameaça cresce à sombra de suas próprias promessas. O ideal permanece intacto nas palavras, mesmo quando a realidade insiste em desmenti-lo. E, pouco a pouco, aprendemos a conviver com essa distância.

Talvez seja esse o modo mais silencioso de uma ameaça avançar: ela não precisa convencer a todos de que é boa. Basta que, aos poucos, deixe de parecer perigosa.

Uma frase se repete até perder o impacto. O inaceitável ganha a aparência do possível, e o possível começa a ser tratado como inevitável. Quando percebemos, já estamos discutindo os limites do que antes considerávamos inegociável. O perigo não desapareceu. Apenas aprendeu a fazer parte da paisagem.

Penso, então, na arma engatilhada. Não necessariamente na mão que a segura, nem no instante em que o disparo acontece. Penso no silêncio que a cerca, na tensão que altera o ambiente, na maneira como todos passam a organizar os movimentos em torno dela. Uma arma não precisa disparar para que sua presença mude tudo.

Uma arma não precisa disparar para que sua presença mude tudo.

Talvez a democracia também possa ser ferida muito antes de um acontecimento definitivo. Aos poucos, na desconfiança lançada sobre as instituições, no desprezo pelos direitos de quem pensa diferente, na ideia de que certos grupos devem ter menos voz ou de que a vontade de uma maioria não precisa reconhecer limites. As mudanças nem sempre chegam anunciadas como rupturas. Às vezes, apresentam-se como correções necessárias, como promessas de ordem, como a solução simples para um país cansado de problemas complexos.

E então chega o dia da urna.

Diante de uma pequena tela, o país precisa transformar suas expectativas, seus medos e suas convicções em um gesto. Um número. Um toque. Poucos segundos diante de uma máquina, e a impressão de que tudo se resolve ali, naquele instante.

Mas há gestos que terminam antes mesmo que possamos compreender a dimensão do que fizemos. O voto leva segundos; suas consequências podem atravessar anos, marcar gerações, alterar os rumos de um país. Quando o dedo deixa a tela, a escolha já foi feita. O que ela produzirá, porém, continuará se desenrolando muito depois que as urnas forem fechadas.

Talvez seja essa a ilusão mais perigosa: acreditar que sempre haverá tempo para corrigir o que fizemos, que as instituições suportarão qualquer provação, que um país poderá simplesmente voltar atrás quando descobrir o alcance de suas escolhas.

A arma continua ali, engatilhada. E talvez o mais perturbador não seja saber se ela vai disparar, mas perceber o quanto nos acostumamos à sua presença.

Há momentos em que a história parece nos oferecer apenas mais uma escolha. Só depois compreendemos que, diante da urna, também estávamos arriscando o futuro, um futuro que pode acabar tingido de sangue.

Este texto expressa a opinião de sua autora. As Crônicas Feministas são um espaço de vozes plurais: autoras e autores convidados que gentilmente contribuem com a coluna, em compromisso com a vida e a autonomia das mulheres.
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