o finário das coisas vivas é o murmúrio por aleana | Crônicas Feministas

o finário das coisas vivas é o murmúrio | Crônicas Feministas | ACCA
Crônicas Feministas · ACCA
aleana
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Escritora

o finário das coisas vivas é o murmúrio

Por aleana
17 de abril de 2026 Crônicas Feministas ACCA
Crônica sobre tempo, silêncio, corpo feminino e os murmúrios que atravessam gerações.

o finário das coisas vivas é o murmúrio

É do pulso e do ventre das moças que o mundo se faz mundo, ouviu dona Francisca ainda bem moça, alheia de tudo. D’água que vêm as mulheres. Água clara das vistas. Água babenta da espuma da boca. Água amniótica dum parto. Água vermelho-ferrugem das veias. Água esbranquiçada do peito inchado. Um amontoado de rios. Contidos. Ressurretos. Insubmissos.

Ainda é cedo e o tempo é ouvinte. Ouça-me bem, Francisquinha — lembrou da voz rouca da mãe, que apoiava-se corcunda nos ombros, erguia a cabeça nunca — a vida é mais nada se não um bando de vésperas. Véspera é espera. Um tanto de espera, esperas. Dessas vésperas todas a vida vai se tecendo de ponto muito aberto numa linha esfarelenta.

Na época, dona Francisca nada entendeu. Muito mansa para aprender que mulher nasce mesmo, se habita de verdade, quando desobedece o cemitério do não dito que tem na goela. Foi fugida de pai se casar com o primeiro moço que lhe sorriu. Bordou seu vestido branco. Esqueceu, enquanto o padre dizia, seu querer duma vida de ser gente de novela. Atriz, como mais tarde alguém lhe ensinou.

Assistiu certa vez, escondida no breu da noite, uma mulher na televisão fingindo chorar e, minutos depois, feliz de jeito que nunca experimentara o sofrimento. Quis ela ser assim: dar ordens à tristeza.

Num almoço de domingo, nas bodas de seu casamento — cansada de cozinhar três frangos assados, um tacho de polenta, trançar três queijos, desinformar cinco pudins de leite, catar e ferver feijão e arroz — pediram-lhe para sorrir para a foto. Não sabia ela que era assim tão triste para ter que pedir sorriso.

Até tentou algumas aulas no teatro, mas já estava “buchuda de filho”, como lhe disse o professor de barba rala. Tentou aprender sozinha. Como se aprende a ser outra pessoa? A calar a garganta amarga? A língua que mais parece bicho dentado? “Pra ter arte tem que ter corpo”, falou dona Francisca aos musgos da parede, “pra ter corpo tem que ter um bom, descansado. O meu é todo doído.”

Tentou de tudo quanto pôde, basta disso confiar para consolá-la na boa morte de Nossa Senhora. Até inventar tempo. E isto é o quê? Tempo? Minutos longuíssimos destinados a cozinhar, lavar, passar, varrer, esfregar, rapar, parir, educar, costurar? O tempo de seu dia e de sua noite já estava bem regrado para fazer tudo que cabia somente a ela, como aprendeu de sua mãe, que aprendeu de sua vó, que aprendeu de sua bisavó. Quando dava, tentava ser gente de televisão. O tempo ouvia. Mas tempo não tem dó.

Dona Francisca era ruim de choro, derramava lágrima nem cortando sacas de cebola a milímetros de seu rosto. Uma noite, porém, sem aviso e sem muita força para impedir, chorou três águas muito velhas. Seus seis filhos ficaram brancos de medo, um de cada vez. Mãe chora? Ela enxugou depressa, respirou fundo e fingiu ser vulto. O marido, depois, vociferou bravo que parasse com isso, que não havia motivo pra choro naquela casa, que nada faltava.

Francisca preferiu falar com o tempo. Ordenou-lhe que se explicasse, dissesse-lhe o que era e, se curava como falavam, por que doía tanto para ela? Véspera, lembrou da mãe explicando. Esperas. O tempo, calado, confessou dentro das carnes dela. Respondeu-lhe que era um escuro iluminado, aceso, uma morte viva. Viu-se no espelho. O tempo marca a pele de rugas, o silêncio fere o canto da boca e o cansaço afunda os olhos. Era assim que Francisca estava.

Dizem as vizinhas que dona Francisca, desacompanhada e sem mala alguma, pernoitou a rua e nunca mais voltou. Dizem elas que murmurou uns ruídos para o nada e foi caminhando com destino. Só se sabe que dona Francisca nunca mais voltou praquela casa. Foi vestir os passos de sonhos antes do tempo cobrar.

Mini bio

aleana, pseudônimo de Alessandra Alcântara, é escritora de “cova das flores” pela editora patuá. Assim vai morando no tempo: sujando os pés de chão e pondo palavras nos sentires. Dentro, é um abismo indecente.

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