Seu corpo não nasceu para caber por Renata Silva | Do Estúdio ao Blog

Seu corpo não nasceu para caber, com Renata Silva | ACCA
Do Estúdio ao Blog
Conversas sobre autonomia, direitos e transformação social que continuam para além do estúdio.
Corpo, movimento e liberdade

Seu corpo não nasceu para caber

Renata Silva transforma uma pergunta simples em outra relação com o movimento: e se o exercício deixasse de ser punição e voltasse a ser prazer, presença e liberdade no próprio corpo?

Renata Silva durante a gravação do programa Autonomia Feminina, ACCA
Renata Silva durante a gravação do programa Autonomia Feminina, ACCA.

“O corpo só precisa estar vivo para se movimentar.”

Renata Silva

Antes de ser profissão, o movimento foi brincadeira para Renata Silva. Ela cresceu correndo na rua, pulando elástico e corda, fazendo dança, vôlei, jazz, balé. O corpo não aparecia como projeto a ser corrigido. Era simplesmente o lugar onde a vida acontecia.

Anos depois, formada em Educação Física, especialista em diferentes práticas e também doula, Renata passou a trabalhar exclusivamente com mulheres. Foi acompanhando gestantes, mães, mulheres na menopausa e tantas outras fases que percebeu o quanto o corpo feminino é atravessado por mudanças — e o quanto essas mudanças costumam vir acompanhadas de julgamento.

O exercício muda de sentido quando o corpo deixa de ser inimigo.

No Autonomia Feminina, ela não começa falando de academia, peso ou performance. Começa falando de liberdade. Para Renata, atividade física pode ser dança, caminhada, corrida, alongamento, subir escadas, brincar com uma criança, passear com o cachorro. O que importa é devolver ao corpo aquilo que tantas vezes foi retirado dele: a possibilidade de se movimentar sem vergonha.

Essa ideia ganha força quando ela lembra que o corpo da mulher não é estável. Muda ao longo do ciclo, da gestação, do pós-parto, do climatério, da menopausa e da própria vida. Há dias de mais disposição e outros de recolhimento. Respeitar isso não significa desistir do movimento; significa abandonar a fantasia de que só existe uma forma correta de se exercitar.

Quando mexer o corpo deixa de ser castigo

Renata conhece mulheres que chegaram até ela dizendo que odiavam academia. Uma delas tinha verdadeiro pânico daquele ambiente. Por anos, treinaram ao ar livre. Praça, árvores, materiais levados pela professora. Até que, em determinado momento, a própria aluna decidiu entrar numa academia porque queria ganhar força.

Hoje ela corre meia maratona. Viaja para provas. Treina sozinha quando precisa. O que mudou não foi apenas o condicionamento físico. Mudou o lugar que ela passou a ocupar dentro do próprio corpo.

“Ela já tinha ganhado autonomia e autoconfiança para sentir: eu posso estar aqui.”

A história interessa porque não tem a estrutura clássica da transformação corporal vendida nas redes. Não há “antes e depois” medido em quilos. O antes era medo. O depois é circulação, escolha, confiança, independência.

Renata vê esse deslocamento em muitas mulheres. Quando alguém descobre que consegue agachar, caminhar mais longe, carregar algo, correr ou simplesmente dançar sem se preocupar com quem está olhando, essa confiança não fica presa à atividade física. Ela atravessa trabalho, relações, sexualidade, roupa, envelhecimento e as decisões cotidianas.

O movimento que cabe em você

Há uma frase que volta mais de uma vez nos episódios: não precisa ser academia. Para algumas mulheres, academia será prazer. Para outras, não. Pode ser caminhar com uma amiga, colocar uma música e dançar na sala, usar uma praça, procurar um grupo, pedalar, nadar, fazer yoga no parque ou descobrir um esporte que faça os olhos brilharem.

O ponto de partida não é comprar roupa, pagar mensalidade ou perseguir um corpo de referência. É encontrar uma forma de movimento que faça sentido naquela vida.

O movimento é plural porque os corpos também são.

Essa perspectiva confronta diretamente a cultura de performance. Nas redes, a atividade física pode aparecer como mais uma obrigação: treinar todos os dias, atingir determinada aparência, eliminar qualquer prazer que não combine com a rotina perfeita. Renata propõe outra coisa. Movimento não precisa existir contra a vida. Pode existir dentro dela.

Sentar e levantar de uma cadeira é movimento. Subir escadas é movimento. Agachar para conversar com uma criança é movimento. Poder alcançar o próprio corpo com autonomia também é movimento. A discussão sobre longevidade fica muito mais concreta quando sai do ideal abstrato de “envelhecer bem” e chega às pequenas independências que queremos preservar.

Tomar posse do próprio corpo

A experiência de Renata como doula também atravessa a conversa. Para ela, acompanhar uma mulher no parto é oferecer suporte físico e emocional para que ela possa viver aquele processo com mais protagonismo. A mesma palavra aparece quando o assunto é exercício: apropriação.

O corpo feminino foi historicamente observado, corrigido, coberto, exposto, erotizado, medicalizado e disciplinado por outros. Por isso, a liberdade de mover esse corpo do jeito que faz sentido para cada mulher pode parecer pequena, mas não é.

“Corpo livre, mulher viva” deixa de ser apenas o nome do episódio quando Renata explica o que vê no cotidiano. Uma mulher que ganha confiança para fazer um movimento que antes evitava pode ganhar confiança também para ocupar um lugar, vestir o que quiser, praticar o esporte que quiser e abandonar a obrigação de se enquadrar onde não faz sentido.

Seu corpo não nasceu para caber. Nasceu para viver.

Renata conta ainda sobre a própria mãe, que começou a treinar com ela e transformou a atividade física em parte protegida da rotina. Aos 71 anos, a aula não entra no tempo que sobra. É compromisso com ela mesma. A história ajuda a deslocar outra ideia persistente: a de que sempre existe uma idade em que já seria tarde demais.

Não existe idade certa para começar a se movimentar. Existem corpos diferentes, histórias diferentes, limitações que precisam ser respeitadas e, em alguns casos, acompanhamento profissional necessário. Mas existe também uma pergunta que pode ser feita hoje: qual movimento faz você se sentir mais viva?

Texto editado a partir da conversa de Renata Silva com Márcia Pelá no programa Autonomia Feminina, da ACCA. Recomendações de atividade física devem considerar condições individuais e, quando necessário, orientação profissional.

Informação que acolhe

Para saber mais

Movimento pode começar de muitos lugares — inclusive fora da academia.

Preciso ir à academia para ser fisicamente ativa?

Não. Caminhar, dançar, pedalar, nadar e outras atividades também são formas de movimento. O importante é encontrar uma prática adequada às suas condições e rotina.

É tarde para começar depois dos 50 ou 60?

A idade, por si só, não impede o início de uma atividade. Quem tem doenças, dores ou limitações deve buscar avaliação e orientação adequadas.

Exercício precisa estar ligado a emagrecimento?

Não. Movimento também pode estar relacionado a força, mobilidade, disposição, prazer, convivência, saúde e autonomia.

Como começar se não gosto de academia?

Pense em movimentos que já dão prazer: caminhar com alguém, dançar, usar uma praça, praticar um esporte ou participar de um grupo. Começar pelo que faz sentido costuma ser mais sustentável.

Se você está vivendo uma situação de violência, a Rede Conecta reúne serviços de proteção, acolhimento e orientação para mulheres na Região Metropolitana de Goiânia.

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