Fique Viva!
Dias atrás escutei a música Fique Viva da cantora Brisa Flow.
Flow, além de cantora é pesquisadora e defensora da música indígena. A artista foi criada em Minas Gerais e teve influência, desde criança, da música e da cultura dos povos andinos; fez licenciatura em música e se especializou em arte-educação. Flow acredita que arte-educação contribui no combate ao epistemicídio, termo utilizado para se referir à desvalorização, invisibilização ou negação da cultura e saberes ancestrais.
Se para as mulheres, de modo geral, permanecerem vivas em um mundo feito por e para homens é uma luta diária e cansativa, para nós, mulheres negras e indígenas, é muito, muito mais desgastante. A música me fez colocar a caneta em movimento. Vamos à música!
Baby, é só mais uma armadilha
Cuidado na trilha!
Baby, fique viva!
Fique viva!
Tive que aprender a me amar, ficar de pé
Pra depois aprender a voar, manter a fé
Fico viva mais um dia.
Jogo as drogas na pia
Leio antropologia
Lavo meu corpo com sais
Essa terra tem sangue dos ancestrais
A rotina das mulheres/meninas indígenas é de luta, resistência e constante estado de alerta, sejam elas desaldeadas ou não, pois carregam o peso de um passado de escravidão, diáspora e racismo. Mulheres submetidas, muitas vezes, ao silêncio por estarem expostas a uma sociedade imperialista, patriarcal, sexista e racista que tem, como código, o assassinato constante. Mulheres duplamente marcadas por opressões raciais e de gênero. Portanto, mulheres vulneráveis às mais diversas situações.
São tantas opressões, violências, assédios que é necessário gritar, cantar, berrar, resistir, VIVER!
Nas cidades a luta começa na afirmação da própria identidade, pois é extremamente necessário reforçá-la o tempo todo, já que o país vive atrelado à ideia de que “índio (a) que é índio (a) vive na floresta”. Não há conhecimento e compreensão sobre o sentimento de pertencimento étnico, isto é, não importa em que espacialidade o/a indígena esteja, sempre irá carregar no peito a chama da ancestralidade. Afinal, não é porque um japonês veio para o Brasil que ele deixou de ser japonês, não é mesmo?
O mesmo ocorre com os povos indígenas: não é porque não estão nas aldeias que deixaram de ser INDÍGENAS.
A chama da ancestralidade pulsa! Isto é um processo, pois devido a tantas opressões, descriminações, estereótipos, repetidos à exaustão, muitos (as) indígenas de tão oprimidos (as) acabam negando suas identidades.
Segundo o IBGE (dados de 2010), dos 817 mil indígenas brasileiros, 300 mil vivem nas cidades.
Ou seja, é uma luta constante contra a opressão diária e negação das pluralidades indígenas.
A violência é compreendida, segundo o relatório do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), como um dos principais obstáculos para a garantia dos direitos humanos e das liberdades fundamentais de mulheres e meninas.
Quando se trata da violência contra mulheres/meninas indígenas, o combate é bem mais problemático.
Segundo o Relatório das Nações Unidas, publicado em 2010, as mulheres indígenas tem mais chances de serem estupradas e assassinadas do que outras mulheres.
O relatório apresenta um dado alarmante: 1 em cada 3 mulheres indígenas são estupradas ao longo da vida.
Para esta população a violência aparece em, praticamente, todos os contextos.
Nas aldeias, segundo o Relatório Técnico – Violência e Mulheres Indígenas (2017), realizado pelo Programa de Voluntários das Nações Unidas (UNV), no Alto Solimões, as mulheres e meninas indígenas sofrem com violência física e sexual, casamentos precoces, trabalhos sexuais, brutalidade em momentos de parto, acesso limitado à justiça, taxas elevadas de gravidez na adolescência, falta de acesso a serviços de saúde e falta de conhecimentos sobre seus direitos humanos.
O relatório aponta ainda que a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (PNASIM), apresenta precariedade no atendimento à saúde das mulheres/meninas indígenas. Além disso, existem poucos dados epidemiológicos e diminutas avaliações sobre a saúde dessa população disponíveis para fundamentar ações. Ou seja, há dificuldade de acesso e escassez de dados.
Vale ressaltar que todo esse contexto afeta profundamente a saúde mental dessa população. Danos irreversíveis e visíveis no crescimento dos casos de suicídio. É urgente políticas públicas específicas.
Porém, Brisa nos alerta e nos lembra que mesmo com tantos motivos para desanimar, não o faremos! Temos ela, a arte.
Segundo a artista visual indígena Sallisa Rosa A palavra ‘Arte’ não tem tradução em quase nenhuma língua indígena porque, assim como no contexto ancestral africano, os povos tradicionais não separam a arte da vida. Assim, a arte abrange um universo de práticas que não são necessariamente um objeto ou um artefato, mas que compõem em ritualizar a vida.
Temos ela, a poesia, ela, a literatura e ela, a música, que nos reestabelece a cada situação opressiva, a cada abuso, a cada tentativa de inferiorização. Elas poesia/literatura/música renovam as forças e motivam a permanecer na luta, JUNTAS!
Pois bem, fiquemos VIVAS!
Não vamos perder o brilho nos olhos e a vontade de trilhar caminhos de mudanças, mudanças significativas e coletivas.
Baby, fique viva!
Fique viva! …
Ouça e veja Fique Viva em https://youtu.be/wRUzUsTdW0o
Este texto foi originalmente publicado na coluna Opinião do Blog Multiplicadores de Vigilância em Saúde do Trabalhador (FIOCRUZ) . A publicação original pode ser acessada neste link . O texto é aqui republicado na série Crônicas Feministas da ACCA, ampliando sua circulação e diálogo com outras mulheres, territórios e lutas.
Os textos publicados na coluna Crônicas Feministas expressam a opinião de suas autoras e autores, não necessariamente coincidente com a posição institucional da ACCA. A coluna se propõe como uma arena democrática, crítica e coletiva de circulação de ideias, provocando reflexões sobre cultura, direitos humanos, feminismos, território, trabalho, saúde, autonomia e justiça social.
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