Ser Raiz, Ser Mulher
Com Thainá Janaína, arqueóloga, musicista e arte-educadora, conversamos sobre ancestralidade, território e a voz que se faz ferramenta de autonomia. Porque mulher não é só tronco, nem só galho: é raiz.
Por que falar de raiz quando o tema é autonomia
A autonomia das mulheres não nasce do nada. Ela tem solo, tem território, tem raiz. Quando uma mulher sabe de onde vem, ela tem de onde partir. É por isso que, antes de falar de futuro, a gente volta à terra.
Neste episódio, Márcia Pelá recebe Thainá Janaína, arqueóloga, musicista, cantora, arte-educadora e sacerdotisa de matriz africana. Foi ela quem procurou o programa para contar uma história forjada na luta, como a de tantas mulheres negras do cerrado.
“No coração do cerrado, a força das mulheres negras criou territórios de arte, resistência e esperança. Por séculos, suas vozes foram silenciadas, mas nunca caladas.”
Ancestralidade não é só sangue. É também território.
Thainá se diz uma pessoa em construção, “metamorfose ambulante”. Mas há uma base que sustenta tudo: três mulheres. Mãe Nena de Oxum, sua mãe, que lidera o terreiro e o Centro Cultural João Paulo I; Mãe Sandra, que ela chama de mãe, não de tia; e a avó, dona Antônia. Uma família matriarcal.
Adotada, Thainá carrega duas ancestralidades, a biológica e a não biológica, e recusa a ideia de que ancestralidade seja só consanguinidade. Para ela, a terra também é ancestral. Somos parte da floresta, do cerrado, de uma constituição que é coletiva antes de ser familiar. Quem lidera comunidade, diz ela, vira “mãe das mães”.
“Normalmente nos colocam só como tronco, ou só como galho. Somos raiz, somos tronco, somos galho.”
É dessa imagem que nasce o nome do episódio. Ser raiz, ser mulher: crescer por baixo e por cima ao mesmo tempo, sustentar e florescer sem ter que escolher entre uma coisa e outra.
Resistir cansa. E, mesmo assim, ela escolhe ficar de pé.
Thainá compartilhou episódios duros de racismo, na universidade, no mundo da música, em casas que frequentou ainda adolescente. Não vamos repetir aqui cada violência. O que importa guardar é a estrutura que as torna possíveis e a resposta que ela deu a elas.
“Eu não escolho cair. Eu escolho ficar de pé sempre.”
Como lembra Márcia ao longo da conversa, nada disso é natural. Banalização do machismo, banalização do racismo, banalização da violência: ninguém nasce racista, nos tornam assim. Reconhecer a estrutura é o primeiro passo para interrompê-la. E há um cansaço específico, que Thainá nomeia com precisão: provar o tempo inteiro que se é resiliência cansa muito. Por isso, em algum momento, ela deixou de querer só resistir. Passou a querer construir.
Como renascer com todas as feridas
Escorpiana, ela se diz fênix. Quando a dor chega, se recolhe, “sorria na sala e chora no quarto”, como dizia a mãe, e ali reconecta as raízes para renascer outra vez. O primeiro álbum, Raízes de uma Negra, veio dessa imagem: somos raízes crescendo por baixo e árvore crescendo por cima, expandindo para todos os lados.
O bloco da ação: estudar é raiz
No segundo episódio, a conversa vira prática. E a dica de Thainá não é atalho nem fórmula mágica. É estudo, é tempo, é teimosia, o tipo de caminho que constrói autonomia de verdade.
“A maior dica é estudar. Não tem como.”
“Você carrega ou o peso da enxada, ou o peso dos livros, que é o peso do conhecimento.”
“Preste atenção nas mulheres mais sábias. Se você tem avó, bisavó em casa, preste atenção nelas.”
Coletivo Mojubá e cozinha solidária: ninguém se faz sozinha
O Coletivo Mojubá, cujo nome em iorubá quer dizer “eu respeito e você me respeita”, reúne mulheres que se sustentam umas às outras: cantoras, dançarinas, uma mulher trans, produção, figurino. A cozinha solidária, ligada ao Centro Cultural João Paulo I, nasceu no fundo de casa e hoje ampara mulheres com crianças PCD, mulheres idosas e mulheres que seguram o aluguel com um salário mínimo.
É aqui que a autonomia mostra sua forma verdadeira. Não a do esforço solitário, mas a da rede. Renda, cuidado e arte como condição coletiva, não como mérito individual. Quem quiser contribuir encontra o trabalho no Instagram do Centro Cultural João Paulo I.
A voz como ferramenta de autonomia
A pergunta que fecha todo episódio: como arte, música e educação construíram a sua autonomia? Para Thainá, é processo. A vida não é para amador, diz ela, a gente cai mil vezes para dar o primeiro passo. E é também ocupar os meios do presente para que a voz chegue mais longe.
“Use para propagar mais a sua voz, que é uma voz necessária.”
Foi exatamente por isso que nasceu o Autonomia Feminina: para ocupar espaço e fazer a fala chegar a mais mulheres. Como dizia a abertura do programa, quando uma mulher negra canta e educa, todo o cerrado floresce liberdade.
🎧 Episódios do Programa
Episódio 73, Ser Raiz, Ser Mulher com Thainá Janaína, Parte 1 Episódio 74, Ser Raiz, Ser Mulher com Thainá Janaína, Parte 2🎤 Destrave seu Medo de Falar em Público
No dia 27 de junho acontece o encontro Destrave seu Medo de Falar em Público. Uma experiência criada para mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ que desejam fortalecer sua comunicação, ampliar sua confiança e transformar sua voz em uma ferramenta de autonomia, oportunidades e geração de renda. Mais do que aprender técnicas de oratória, será uma experiência prática, acolhedora e transformadora.
📌 Data: 27 de junho
📌 Horário: 15h
📌 Local: Holanda Centro de Educação Musical – Premium Música e Saúde
📌 Entrada gratuita mediante inscrição pelo Sympla
Realização: Plataforma Autonomia Com Elas e ACCA, Associação Cultura, Cidade e Arte.
Marca Aliada da ACCA: Holanda Centro de Educação Musical – Premium Música e Saúde.
Sua voz tem valor. Sua história importa. E o mundo precisa ouvir o que você tem a dizer.
Autonomia não é força. É condição.
Comece o seu caminho agora
A Plataforma Autonomia Com Elas nasce de uma ideia simples: ninguém se faz sozinha. Cursos, formações, e-books e conteúdos sobre cultura, autonomia e geração de renda, pensados para mulheres que constroem caminhos junto.
Conheça a PlataformaMais conteúdos em: culturacidadeearte.org




